Muitos Dados, Pouco Valor Real
Nuno Oliveira Matos constata que 80% dos dados das empresas de seguros não são estruturados e não se consegue extrair valor deles. Para mudar é preciso colocar o cliente no centro, não a apólice.
Vivemos um paradoxo curioso no setor segurador: nunca tivemos acesso a tantos dados, mas nunca foi tão difícil transformá-los em valor real e acionável para o cliente.
Enquanto os modelos atuariais exploram terabytes de dados históricos para estimar a probabilidade de materialização de riscos, os dados gerados no quotidiano continuam presos em silos, ignorados na sua dimensão mais valiosa: a capacidade de informar decisões em tempo real. As empresas de seguros dominam a análise retrospetiva, mas muitas ainda falham em ativar os dados presentes. E é aí que se traça a verdadeira linha entre deter dados e saber usá-los.
O problema central não está tanto na tecnologia disponível, mas no modelo obsoleto de gestão de dados. Ainda organizamos processos em torno da apólice, não do cliente. Continuamos a vender documentos cheios de cláusulas, quando deveríamos oferecer experiências personalizadas que se adaptem ao risco, ao momento e à realidade financeira de cada pessoa ou empresa.
A solução passa por dados em movimento, eventos em tempo real e arquiteturas modernas como plataformas MACH (microserviços, APIs, cloud-native e headless), algo que outros setores já dominam há anos.
O potencial inexplorado é enorme. Já poderíamos conectar sensores em edifícios para ajustar prémios do ramo multirriscos automaticamente, usar dados de condução em tempo real para prevenir acidentes e personalizar seguros do ramo automóvel, ou até criar ecossistemas inteligentes de sinistros com reparações sob medida. No entanto, esbarramos num desafio crítico: 80% dos dados das empresas de seguros são não estruturados (e-mails, PDFs, gravações, imagens, etc.) e a maioria não consegue extrair valor deles.
Os principais estrangulamentos incluem dados desatualizados, processos manuais suscetíveis a erros, falta de governação sobre a qualidade dos dados, sistemas fragmentados que impedem uma visão única do cliente e dificuldade em implementar inteligência artificial (IA) de forma confiável. O resultado são perdas operacionais, decisões equivocadas, desperdício de recursos e clientes insatisfeitos.
A mudança exige dados estruturados, fluidos, atualizados em tempo real, com granularidade e contexto. Precisamos de modelos operacionais que agreguem e ativem dados instantaneamente, cruzem fontes internas e externas, automatizem decisões personalizadas e integrem IA de forma transparente. Acima de tudo, é preciso colocar o cliente no centro, não a apólice.
O futuro do seguro não será um contrato, mas um serviço contínuo de proteção adaptativo, invisível e inteligente. As empresas de seguros que sobreviverem serão aquelas que entenderem que os dados não servem apenas para relatórios, mas para uma ação imediata. A escolha é clara: ou reinventamos o nosso núcleo tecnológico e cultural ou seremos ultrapassados por concorrentes mais ágeis e clientes cada vez mais exigentes. Os dados têm de deixar de ser um arquivo morto para se tornarem no motor das decisões em tempo real.
Se os dados são o novo petróleo, temos de os saber usar de forma transformadora!
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