Não é anomalia, é transformação
Gerir é cada vez mais um exercício de orquestração, coordenação e da criação de espaços (mercados) de diferentes tipos, satisfazendo necessidades distintas do sistema.
O antigamente é que era bom é uma reação natural à mudança e também existe no setor elétrico, com manifestações várias, que vão da nostalgia em torno do carvão, à determinação de que, para funcionar de forma segura, o sistema precisa de fontes firmes de geração, de garantir baseload, de ter inércia e outras formas de estabilidade intrinsecamente relacionadas com a presença de geradores síncronos no sistema, ou seja, é necessário tudo aquilo que as fontes de geração que mais crescem – a fonte solar e eólica – intrinsecamente não têm e naturalmente não garantem. Segundo esta perspetiva, ao apostar em fontes variáveis intermitentes como eólico e solar estamos a introduzir instabilidade no sistema, a perturbar e a fragilizar o seu modo de funcionamento, sendo necessário travar esse rumo ou, em alternativa, condicioná-lo de modo a recriar, dentro do possível, os arquétipos de estabilidade do passado que são hoje ameaçados por vândalos não síncronos.
Mas podemos ver as coisas de outra forma: a variabilidade não é defeito, é feitio, não existe apenas do lado da geração, mas também do consumo; o consumo já não é uma entidade previsível, passiva, cujo papel no sistema elétrico é ser servido, mas crescentemente diversificado, ativo e adaptativo; e ambos – geração e consumo – são crescentemente variáveis e descentralizados, mas, com recurso à eletrónica de potência e a baterias, também crescentemente flexíveis e controláveis. É um sistema que evolui e que se transforma, e que requer adaptação e inovação para ser adequadamente planeado e gerido, sem comprometer as margens de estabilidade e segurança necessárias. As leis da física não se alteraram, como é evidente, mas o modo como as temos em conta e como devemos operar o sistema tem de evoluir e adaptar-se a este novo contexto.
Um sistema elétrico crescentemente dominado por solar e eólico pode parecer intrinsecamente menos estável, porque geração e consumo são variáveis e não firmes, e é certamente mais complexo, porque envolve uma multiplicidade de agentes e de ativos, mas também é mais controlável, porque a eletrónica de potência e os sistemas de armazenamento acrescentam elevada controlabilidade à operação. Sobretudo, de um desafio de coordenação.
Todos os sistemas elétricos precisam de estabilizar a frequência, estabilizar a tensão e assegurar que a rede se mantém dentro dos parâmetros de segurança. O que antes era um pressuposto garantindo pela existência de certos geradores, com determinadas características físicas, hoje é um requisito ao nível das condições de ligação (crescentemente flexíveis) e das condições de operação e, eventualmente, um serviço (remunerado) a prestar ao sistema.
O planeamento terá de ser probabilístico e uma parte significativa da estabilidade só pode ser assegurada na operação e em tempo real, através da mobilização de um conjunto de ativos e da interação de um conjunto de agentes e de variáveis. A estabilidade assegura-se de modo dinâmico, preditivo, adaptativo e crescentemente participativo. Tudo isto exige coordenação, que tem de ser criada. E o melhor modo de coordenar todos estes agentes e de garantir a sua contribuição conjunta para a estabilidade do sistema é através de mercados bem desenhados, que satisfaçam necessidade definidas de forma transparente, com sinais preço adequados, abertos a todos os agentes e todas as tecnologias, seja do lado da oferta seja do lado da procura. Mercados de energia, mercados de capacidade e de flexibilidade.
Gerir é cada vez mais um exercício de orquestração, coordenação e da criação de espaços (mercados) de diferentes tipos, satisfazendo necessidades distintas do sistema. O sistema tem de ser mais monitorizável e mais controlável, e tem de ser muito mais inteligente e flexível, incluindo a nível local. Mas a variabilidade, a multiplicação de agentes e a redução da presença de massas girantes no sistema não tem de ser vista como um problema a evitar ou minimizar, mas como uma nova condição, condição essa que tenderá a consolidar-se e que requer adaptação, inovação e investimento modernizador. E quanto mais cedo e mais rápido reconhecermos isso, mais seguro, mais estável e mais competitivo será o sistema elétrico.
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