Neves, Damásio e o erro de todos nóspremium

José Neves e António Damásio conversaram sobre a importância da atenção e compreensão das emoções. E deram uma lição de desenvolvimento pessoal em direto, para quem quisesse ver.

A Fundação de José Neves (FJN), que se propõe transformar Portugal numa sociedade de conhecimento até 2040, organizou esta semana o seu evento anual. Menos de ano depois da apresentação, em setembro de 2020, com José Neves, Carlos Oliveira e António Murta, a Fundação abriu as portas da sua sede no Porto para emitir um evento híbrido nas redes sociais.

Além de ter apresentado o Estado da Nação 2021, um estudo sobre educação, emprego e competências, a FJN lançou aquele que o seu diretor executivo referia, em entrevista à Pessoas, ser "o quarto pilar" da Fundação: o desenvolvimento pessoal. A aplicação para o efeito foi desenvolvida em parceria com a organização sem fins lucrativos sueca 29k, para "fortalecer a saúde mental, o equilíbrio emocional e o bem-estar, para potenciar o desenvolvimento pessoal de um milhão de portugueses", e o seu conteúdo é baseado em terapia cognitivo-comportamental, combinado com uma conexão humana. Na prática, e de forma gratuita, a 29KFJN oferece cursos de desenvolvimento pessoal, em formato de vídeo, meditação áudio e exercícios, orientados por embaixadores e validados cientificamente.

Pelo palco do evento passaram variados nomes, incluindo o do neurologista e neurocientista António Damásio. Assistir à conversa entre António Damásio e José Neves, dois portugueses reconhecidos a nível internacional por descobertas e feitos nas suas áreas de especialidade -- o primeiro nas neurociências e o segundo no empreendedorismo --, foi comovente e inspirador: primeiro, por transparecer que um - José - era profundamente fã do outro - e, depois, por se sentir, à medida que a conversa evoluía, que os dois têm tanto em comum, longe do óbvio.

Falou-se de afetos e de como a falta de entendimento sobre as emoções pode ser um empecilho à progressão das nossas vidas. Damásio falou da tendência humana para valorizar o que é imediato, e da importância de sermos formados e educados numa compreensão do que se passa à nossa volta, de forma a que as emoções possam ser nossos "perfeitos maestros".

"Suprimir as emoções ou não tratar corretamente daquilo que são sentimentos que nos preocupam, pode acabar numa produção de uma depressão, redutoras da capacidade de criação", alertou o neurologista. Tudo para explicar que os nossos sentimentos dão a informação precisa acerca do que se está a passar connosco.

Ao mesmo tempo que acontece esta conversa, os números revelam-na ainda mais: na Suécia, no Reino Unido e nos Estados Unidos, a incidência de pessoas que têm pelo menos uma de quatro condições - depressão, ansiedade, stress pós-traumático e insónia - era de 30% da população antes da Covid-19. A pandemia fez disparar este valor para mais de 85%.

Dados para Portugal, decorrentes do estudo “Saúde Mental em Tempos de Pandemia" (coordenado pelo Departamento de Promoção da Saúde e Prevenção de Doenças Não Transmissíveis do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em colaboração com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental), indicam que cerca de 25% dos participantes apresenta sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stress pós-traumático. Mas, além de serem, sintoma de um "problema invisível" e desvalorizado aos olhos dos outros -- precisamente porque é pouco visível a olho nu -- a questão da saúde mental e do bem-estar está envolta num enorme estigma relacionado com uma espécie de fraqueza, e até de vergonha do seu "portador".

Como José Neves contou à jornalista Ana Pimentel, do Observador, faz quatro horas de terapia semanais há uma década. "Temos de tratar da mente como tratamos do corpo", sublinhou o fundador e CEO da Farfetch. Quão raro é ouvirmos um líder empresarial a falar tão abertamente de uma questão tão íntima e pessoal, e que diz respeito a tanta gente? Por ser raro, quão importante é esta revelação de José Neves?

A conversa entre José Neves e António Damásio devia ser de assistência obrigatória, pela simplicidade dos termos e pela profundidade das ideias. O nosso erro será sempre não entender o papel que as emoções têm no nosso entendimento do mundo, essencial para vivermos bem connosco e com os outros.

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