“Não nascemos para sermos um think tank, nascemos numa perspectiva muito mais de ação”premium

A Fundação José Neves foi criada para “ajudar a transformar Portugal numa sociedade de conhecimento”. "Não nascemos para sermos um think tank", revela Carlos Oliveira, presidente executivo.

A ideia surgiu numa conversa: José Neves e Carlos Oliveira conheceram-se há muitos anos através de uma startup em que ambos investiram. O contacto entre os empreendedores manteve-se e, em 2018, o fundador e CEO do unicórnio Farfetch ligava a Carlos Oliveira para lhe falar de uma ideia: em vias de fazer o IPO da tecnológica, uma das suas vontades era “fazer um give back ao país”, numa espécie de “ímpeto de alma” materializado numa organização que ajudasse a desenvolver a educação, que José Neves considera um tema fundamental para o desenvolvimento do país.

Ao lado de José Neves no lançamento da iniciativa estava, além de Carlos Oliveira, António Murta. Os três formam o núcleo duro da fundação da Fundação, que conta com uma equipa de sete pessoas a full-time e várias dezenas de colaboradores, envolvidos com os projetos que a organização já lançou ou se prepara para lançar.

Na direção da Fundação está Carlos Oliveira, antigo secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação que, antes do novo desafio, estava ao comando na InvestBraga. Fundada por três empreendedores e focada na educação para o futuro e, ao longo da vida, a Fundação quer assentar a sua atividade numa lógica de startup: try and error.

Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José NevesRicardo Castelo

A Fundação foi lançada em setembro, em pleno ano pandémico. Qual é o balanço dos primeiros seis meses de funcionamento?

Estamos satisfeitos com o percurso. Estamos muito satisfeitos com os parceiros - universidades, politécnicos, tecnológicas que abraçaram os desafios - e isso fez uma primeira validação em termos do caminho. Estamos aqui para fazer: 2020 foi para a Fundação um ano importante, e acelerámos o lançamento. Quisemos tentar apanhar um bocadinho do ano letivo, com o lançamento em setembro. Acreditamos que durante 2021, com mais tempo, vai haver mais capacidade dos parceiros para promover as iniciativas.

Porquê trabalhar o tema da educação como algo essencial para o desenvolvimento do país?

É um tema muito normal de trabalhar nos países anglo-saxónicos, em projetos como o Founders Pledge, que ajuda empreendedores bem-sucedidos a olhar para oportunidades filantrópicas. E quando o José Neves me convida para ser cofundador da Fundação, convida também o António Murta, e começámos a debater o que achávamos que devia ser, quais as preocupações que víamos, o tipo de posicionamento na sociedade.

Como surge a oportunidade de envolvimento na fundação José Neves como presidente executivo?

Surge naturalmente, no meio das conversas. Foi mais o entusiasmo do que estávamos a discutir e, mais uma vez, alinharem-se timings. E, acima de tudo, em projetos em que se acredita. Nós acreditamos que pode ser um projeto muito impactante para o país e que é, mais uma vez, um projeto diferente. O que nos motiva é sermos capazes de fazer alguma coisa que venha a ter um impacto sistémico em Portugal: não estamos a achar que vamos ser sozinhos, nada disso, achamos que, tendo o drive, a missão e a ambição, juntamente com muita gente conseguiremos mexer em algumas coisas. O José (Neves) diz que isto é um projeto geracional, e eu digo que é uma grande maratona. Mas, como empreendedores que somos os três, dizemos que a maratona não se mede só na meta.

A maratona mede-se a cada 100 metros, e é isso que estamos a fazer: ter objetivos a cada 100 metros, ir verificando esses objetivos e guiar-nos muito nesta lógica de uma fundação que é uma startup, “try and error”, muito focada no impacto. E, depois, em termos um framework na decisão de avançar ou não com determinado projeto baseado no potencial de impacto, medi-lo e, se estiver a correr bem, exponenciar. Esse é o primeiro fator.

Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José NevesRicardo Castelo

Todos os projetos serão implementados nessa lógica?

Temos obviamente projetos que saem das nossas cabeças porque achamos que há ali potencial necessidade mas, depois, vamos buscar os números para as decisões que tomamos. Isto é o modelo: lançar programas com pequena ou média dimensão que tenham potencial impacto significativo no país e, ao fim de um tempo - no caso dos ISA, dois anos -, medir o impacto e o potencial. Não temos dúvidas de que os ISA, do ponto de vista de indivíduos, vai ter um impacto grande e direto para pessoas que não iriam ter possibilidade de fazer mestrado ou MBA. Mas queremos perceber de que maneira, em dois anos, se em vez de serem cinco milhões pudessem ser 10 ou 20 milhões, como se escala e se conseguimos de facto aquele impacto sistémico. Se tivermos esses indicadores, no segundo ano do ISA vamos estar a estudar como podemos aumentar enormemente o impacto.

Por outro lado, queremos programas práticos que tenham um objetivo: o dos ISA é claramente o acesso à educação, uma educação para as competências, ao longo da vida.

"Se tivermos pessoas mais educadas, com melhor formação e formação orientada às competências do futuro, teremos pessoas melhor empregadas, mais felizes, em empresas melhores, com mais produtividade, mais exportações.”

No primeiro mês receberam 262 candidaturas. Que tipo de pessoas se têm candidatado aos ISA?

Temos pessoas com mais de 50 anos, dos 35 aos 55, a candidatarem-se e com as candidaturas aprovadas. Vemos que, de facto, há uma vontade grande das pessoas em aprenderem ao longo da vida. Em 2019, só 10,5% dos portugueses entre os 25 e os 64 anos fizeram algum tipo de formação. Isto faz matching com a população ativa, o que quer dizer que é um número baixíssimo, dos mais baixos da UE, sendo que havia um objetivo para 2020 de esta percentagem ser de 15%. O efeito mais sistémico para o país é educação, e é darmos acesso a competências para o futuro que possam tornar Portugal uma sociedade de conhecimento, nesta perspetiva em que o conhecimento é o grande ativo que as pessoas têm para se desenvolverem e que, portanto, se tivermos pessoas mais educadas, com melhor formação e formação orientada às competências do futuro, teremos pessoas melhor empregadas, mais felizes, em empresas melhores, com mais produtividade, mais exportações. A tese é esta.

Acreditamos em programas que possam ter impacto, ir testando - lançámos o Brighter Future porque tínhamos, nós próprios, dificuldade em aceder a informação. Uma coisa são os indicadores oficiais - esses existem. Nós precisamos de um bocadinho mais: começar a descobrir coisas, que é o que temos vindo a fazer.

Porquê focar o trabalho da Fundação na educação e na formação de curta duração e específica?

Enquanto país, temos tido a dificuldade de ver que as profissões mais bem pagas nem são as que têm maiores qualificações do ponto de vista académico mas aquelas em que se responde a necessidades de mercado. Hoje ser-se eletricista não é o mesmo que sê-lo nos anos 70: é preciso saber-se de eletrónica, de informática. Há relativamente pouca formação curta orientada para este tipo de competências, diria que a exceção serão as escolas de economia e gestão, e de executivos, que têm mais tradição com finanças, economia, gestão. Mas é muito importante a sua existência em muitos outros setores, como é o caso das engenharias.

O país tem de desenvolver esta capacidade de dar formação profunda de curta duração. E, para isso, temos de mudar um bocadinho esta perspetiva, porque para as empresas hoje em dia a nota é quase irrelevante. Obviamente o curso é importante - e não queremos, de maneira nenhuma, desvalorizar as licenciaturas e os mestrados - mas temos de assumi-los cada vez mais como uma commodity, já não nos diferenciam assim tanto. Temos de ter mais pessoas com licenciaturas e mestrados, como pessoas com cursos técnicos - um desafio enorme para a nossa cultura porque achávamos que tínhamos de ser um país de doutores e engenheiros e nunca percebemos aquilo que fazem os alemães ou os suíços muito bem - as vias mais técnico-profissionais garantem carreiras válidas, profissionais mais diretas, trabalhos mais práticos em que vão aprender coisas do mundo prático.

Acreditamos que as universidades têm aqui um papel importante porque têm de qualificar pessoas que já têm formação superior em determinadas áreas. Estamos a falar que o conhecimento tem uma taxa de obsolescência de mais de 30% ao ano, o que quer dizer que depois de três anos e tal, uma pessoa que não se tenha renovado - e sobretudo em áreas tecnológicas - passa a ter conhecimento com pouco valor. Queremos ligar formação, competências e empregabilidade: esta é uma das áreas em que a fundação quer apostar muito, dentro dos quatro pilares.

"As profissões mais bem pagas nem são as que têm maiores qualificações do ponto de vista académico mas aquelas em que se responde a necessidades de mercado onde há até défice de profissionais.”

Que pilares são estes?

O primeiro, a democratização e o acesso à aprendizagem e educação, que tem como primeiro projeto os ISA. A questão financeira é importante: temos aprovado ISAs para pessoas que até têm salário mas têm tantos outros compromissos que ficam sem essa disponibilidade. É um instrumento democrático nessa perspetiva, não estamos só a olhar para as pessoas com dificuldades financeiras à partida, são para qualquer pessoa para a qual haja uma boa justificação. Além disso, nos últimos anos, o acesso ao ensino superior foi muito magnetizado à volta da região onde as pessoas moram. As pessoas em Portugal não escolhem o curso por acharem que aquela formação que querem fazer lhes vai dar o valor acrescentado ou por ser o curso que melhor se enquadra, mas limitam a sua decisão muitas vezes à proximidade por razões de orçamento familiar.

Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José NevesRicardo Castelo

No segundo pilar, queremos trabalhar os temas do upskilling e do reskilling: é aí que entra o Brighter Future. A oportunidade está em todas as áreas de conhecimento, particularmente naquelas que terão cada vez mais necessidade no futuro. Temos estado a trabalhar com parceiros tecnológicos e, aí, de facto, a preocupação vai muito no sentido de formação orientada às competências mais necessárias no país ou em que há défice de formação.

No terceiro pilar, a vontade de projetar hoje a educação do futuro: não assenta tanto em programas para lançar para o país todo mas na forma como podemos criar exemplos do que deve ser a educação do futuro nas suas diversas vertentes, desde questões pedagógicas aos modelos usando tecnologia à distância, até à própria arquitetura dos edifícios. Aí é onde estamos a trabalhar mais a médio prazo, a quatro ou cinco anos, a tal ideia de como pode haver uma escola do futuro. E isso não se trata de criar uma escola de computadores, mas repensar todo o modelo. Com a pandemia, o sistema de ensino vai ter de finalmente mudar. O que acontece é que, tal como disse o Pedro Santa Clara no nosso evento, a Universidade de Bolonha tem mais ou menos 1000 anos e, se um estudante de há 1000 anos entrasse hoje numa universidade, em Portugal ou em grande parte da Europa, o modelo de ensino era muito parecido. Obviamente agora com tecnologia mas com um modelo de ensino semelhante. Há aqui transformações que têm de ser feitas, até pelas mudanças de mercado, e é por isso que defendemos muito esta questão.

A ideia pode passar pela criação de uma escola física?

Estamos a trabalhar nos conceitos, e num framework. A nossa ideia dessa escola é que tenha um framework físico e digital, que possa ter várias vertentes em trabalho, quer de interação com pessoas nesse espaço, quer no mundo mais digital. O objetivo da escola não é substituir-se a nada, é ajudar a puxar e a acelerar. Não queremos importar um conceito que já existe, o que fará a diferença é provavelmente criarmos um conceito que se aproprie mais a Portugal e que, acima de tudo, acelere a mudança.

Que transformações são estas?

Com a pandemia, o grande impacto que vai haver em muitos setores - turismo, aviação - de onde vão sair muitos desempregados, vai exigir formação não tradicional para estas pessoas. As universidades e os politécnicos têm de ter aqui um papel, vão sair destes setores e acreditamos que a tal questão da formação em blocos mais curtos, que permita à pessoa rapidamente chegar ao mercado de trabalho com essa competência e ter sucesso, vai ser muito importante e desafiante.

O curso é importante para as empresas - e não queremos, de maneira nenhuma, desvalorizar as licenciaturas e os mestrados - mas temos de assumi-lo cada vez mais como uma commodity, já não nos diferenciam assim tanto.

Finalmente, no quarto pilar, uma área menos natural em Portugal mas que temos querido puxar é a do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal, e de nos conhecermos a nós próprios nos ajudar a conhecer melhor o mundo. Acreditamos que esta interação entre aquilo que somos como pessoas e o que conhecemos do mundo é que nos torna completos e nos permite passar pelos desafios que tenhamos ao longo da vida. Essa é uma área mais complexa e para a qual temos estado a olhar numa perspetiva de ciência. Queremos em 2021 lançar um projeto nesta área que acreditamos que possa vir a ter impacto e que seja mais transversal. Estamos num contexto muito complexo a esse nível, porque as pessoas ainda não se deram conta dos efeitos que estamos a ter do ponto de vista mental por causa desta pandemia. De repente, passámos a usar distanciamento social como uma coisa positiva: nós devíamos era ter distanciamento físico. E não nos apercebemos que essas palavras já estão no nosso subconsciente, com normalidade. Este quarto pilar é muito importante, mais complexo de trabalhar num país como o nosso porque há menos recetividade a estes temas - por serem assuntos mais esotéricos ou que ultrapassam o que é entendível. Há coisas que é possível, com alguma ciência e factos, serem entendidas para sermos melhores pessoas para nós e para os outros.

Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José NevesRicardo Castelo

Que novos projetos estão em preparação para 2021?

Para 2021 temos dois objetivos muito claros. Primeiro, uma execução de excelência dos ISA: esperamos conseguir colocar no mercado qualquer coisa como 2,5 milhões de bolsas durante o ano em termos de propinas. Um dos grandes desafios é que haja mais formação de curta duração em diversas áreas e, no nosso caso, tem havido uma divisão entre economia e gestão, e tecnologia.

Em segundo, vamos lançar um projeto no âmbito do quarto pilar, um programa que ainda estamos a definir. Queremos que seja um ano em que a fundação consolida os seus programas, e em que é reconhecida a disponibilidade destes programas para os portugueses porque, para nós não é importante que a Fundação seja conhecida mas que alguém em Barrancos ou em Miranda do Douro saiba que existe um programa que se chama ISA e que pode ajudar as pessoas a terem acesso a uma formação que lhes dê competências para o seu futuro, e que possa candidatar-se mediante um processo muito simples, totalmente digital e com uma entrevista. Num país muito centrado em dois pólos e pouco no interior, temos essa preocupação de conseguirmos comunicar com essas pessoas que talvez tenham menos conhecimento da importância e disponibilidade destas coisas.

Qual é o impacto que a Fundação quer ter e que se possa medir nos próximos anos?

Impomo-nos a nós próprios medições de impacto do curto prazo que serão seguramente diferentes das medições que vamos conseguir fazer a cinco e a dez anos. Aquilo que queremos mesmo é ajudar a transformar Portugal numa sociedade de conhecimento, sendo mais um ator que se junta e que quer puxar por isto, e para quem o conhecimento é a base de evolução do país. Como é que vamos medir isso? Com medições dos nossos programas - número de pessoas impactadas, por exemplo. Há muitos exemplos de investir muitos dólares com boas intenções que depois o impacto à saída é muito pequeno, é um sistema muito complexo. Temos essa preocupação de base e aquilo que gostaríamos de ver era, daqui a 10 anos, esses indicadores mais sistémicos; por exemplo, que Portugal no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, teve subidas positivas. Obviamente não será só o trabalho da Fundação mas vamos medir por aí. Se a Fundação trouxer os temas para a ordem do dia, isso vai ter um impacto. E aqueles mais mensuráveis - o impacto dos ISAs, que vidas mudámos, como podemos aumentar esse impacto.

O curso prazo, o que estamos a fazer é, internamente, medir a execução dos programas até para tomar decisões naquele modelo mais startup. Temos as nossas convicções, e isso é uma das coisas que nos regem, mas os dados é que vão dizer-nos qual é o caminho. Podemos até chegar à conclusão que determinada solução não é indicada para resolver determinado problema, não nascemos como Fundação para sermos um think tank, nascemos numa perspectiva muito mais de ação: testar e, se não funcionar, pôr em pause e partir para outro.

Fotografias de Ricardo Castelo.

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