Ninguém nos para: UEFA, Eurovisão, Eurostat, Bruxelas e…. Eurogrupo?

Com tantas boas notícias em tão pouco tempo, é difícil não ficar pelo menos um pouco (irritantemente) otimista. Mesmo que me mantenha ainda cauteloso começo a ficar um pouco contagiado.

No verão passado, com a vitória no europeu, conquistámos a UEFA, e o crescimento económico começou a acelerar. Há duas semanas, conquistámos a eurovisão e dias depois o Eurostat confirmou que fomos dos que mais crescemos no início do ano em toda a União Europeia. Esta semana, ainda que sem grande surpresa, conquistámos Bruxelas e saímos do Procedimento por Défice Excessivo (PDE). E tudo isto acompanhado por uma descida constante das yields e dos spreads, que ainda que seja comum a outros países foi bastante mais pronunciada em Portugal.

E será que em Janeiro do próximo ano o nosso ‘Ronaldo’ do Ecofin conquistará o Eurogrupo? E as agências de rating em Londres e Nova Iorque começarão a render-se já este ano?

Já há algum tempo que me parecia que Mário Centeno estava a aplicar, no Terreiro do Paço, a teoria de Maradona das taxas de juro  pela maneira como ia fintando, quer Bruxelas quer os parceiros da geringonça. Ontem, Schäuble tê-lo-á chamado de ‘Ronaldo’ do Ecofin. Será que o défice em 2016 e o crescimento do primeiro trimestre causaram ao super ministro alemão das finanças os mesmos danos que Ronaldo causou ao Bayern de Munique na Liga dos Campeões?

De facto, com tantas boas notícias em tão pouco tempo, é difícil não ficar pelo menos um pouco (irritantemente) otimista. No meu caso, mesmo que me mantenha ainda cauteloso quanto à sustentabilidade destas taxas de crescimento, começo a ficar um pouco contagiado…

Começando então pelo crescimento, que já foi bastante debatido: é indiscutivelmente uma boa notícia. Mas será sustentável?
Para a semana, saberemos melhor os detalhes e qual a verdadeira dimensão da ajuda do comércio internacional e do investimento e, especialmente, em que medida é que a contribuição das exportações foi superior ou não a procura externa. Ou seja, poderemos ver se, afinal, as exportações até poderiam estar a crescer mais caso a competitividade da economia portuguesa não tivesse interrompido em 2015 a trajetória de melhoria que vinha de trás.

No entanto, tal como disse ainda esta semana Mário Centeno, o segundo trimestre parece estar também a correr de feição e deverá acelerar para 3% em termos homólogos ou um pouco acima disso. Ainda que o crescimento em cadeia deva abrandar depois do excelente resultado de 1.1% nos primeiros três meses do ano, deverá andar a volta de 0.5%.
Mas será isto suficiente para se chegar a um crescimento de 3.2% este ano como “anunciou” o Presidente na semana passada enquanto tomava o seu aperitivo com os deputados croatas? Muito dificilmente – mas para a semana escreverei novamente sobre isso.

Quanto à saída do PDE, esta não foi propriamente uma surpresa. As estimativas da Comissão já apontavam para isso. O Joaquim Sarmento e a Margarida Peixoto  já aqui fizeram uma explicação detalhada do que implica para o futuro, pelo que evitarei repetir. Em suma, de agora em diante, ainda que o controlo externo se mantenha, o governo terá maior flexibilidade.

No entanto, terá ao mesmo tempo maior dificuldade para negociar com os parceiros no Parlamento. Afinal, de agora em diante, o papão de Bruxelas mete menos medo…

O Presidente, o primeiro-ministro, e Pedro Passos Coelho estão de acordo que importa agora não voltar a repetir os erros do passado. Ao fim ao cabo, Portugal já por duas vezes saiu do PDE, voltando a entrar sempre que entra em recessão, será que a história se repete? Será que conseguimos pela primeira vez aproveitar expansões económicas para equilibrar as contas? Ou será que, desta vez, até poderá voltar a entrar no PDE antes da próxima recessão?

Infelizmente, por muito otimista que possa estar quanto ao crescimento para este ano, é difícil manter o otimismo para os próximos anos, não só relativamente ao défice (e dívida), mas também quanto ao crescimento: Sem reformas, e com algumas medidas do último ano e meio, parece que estamos a regressar a 10 anos atrás quando alguns trimestres de crescimento acima do esperado criavam uma falsa sensação de segurança.

Para além disto, a verdade inconveniente que o IGCP terá reconhecido a investidores recentemente, e que foi reconhecida pelo BCE ainda ontem no relatório de estabilidade financeira, é que Portugal está bastante exposto ao aumento dos juros. É certo que a subida dos juros demora a sentir-se sentir no orçamento já que a percentagem de dívida refinanciada por ano é inferior a 10% do total, mas se as taxas subirem permanentemente, o acesso a mercado complicar-se-á.

Como tenho escrito várias vezes, quanto melhor for o conjuntura externa, pior poderá ser para Portugal, já que levará a uma redução dos estímulos mais rápida pelo BCE. Será que o Sr Draghi e os restantes governadores estragam a festa já em Junho, ou oferecem mais uns meses de descompressão até ao final do ano?

Se, tal como parece mais provável, optarem por comunicar a redução do programa mais tarde, não só o diabo não virá este ano, como a sensação de paraíso continuará. E nesse caso, será ainda mais provável que o crescimento económico se mantenha nestes níveis. E se começar a ser evidente que o défice deste ano ficará abaixo dos 2%, e principalmente que a dívida deverá cair, então provavelmente as agências de rating irão melhorar os outlooks ou mesmo o rating, e então, mesmo que as taxas base alemãs subam devido ao BCE, os spreads portugueses poderão descer, compensando parte da subida. Ou seja, caso Portugal reduza o défice e principalmente a dívida e continue a crescer, mesmo com menos ajuda do BCE, o acesso a mercado deverá continuar disponível.

E para o ano? 2018 é ano de Mundial e Ronaldo (o do Real) estará ainda em grande forma. É também ano de Eurovisão em Portugal e quem sabe… de pentacampeonato para o Benfica! Por isso, tem tudo para correr bem mesmo que as taxas subam e que a economia europeia piore! Vivemos no melhor dos mundos!

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