O Ângulo Morto

  • Nuno Oliveira Matos
  • 8 Dezembro 2025

Para Nuno Oliveira Matos, antes de uma crise os modelos de risco são sistematicamente demasiado otimistas. Depois, tornam-se excessivamente alarmistas. Como gerir esta realidade versus perceção.

O risco percecionado e o risco real são duas formas distintas de olhar para as fragilidades do setor segurador e de fundos de pensões. O primeiro corresponde ao que os modelos conseguem captar (números, séries estatísticas, variações recentes de preços e indicadores aparentemente objetivos que dão conforto técnico a decisores, auditores e supervisores). O segundo representa a vulnerabilidade efetiva do sistema, que cresce silenciosamente, quase sempre de forma independente das métricas que utilizamos para o medir.

Esta distinção, muitas vezes tratada como um pormenor teórico, tem consequências sérias para a estabilidade financeira, para a afetação de capital e para a eficácia das decisões de gestão, regulação e supervisão. O exemplo clássico é o da formação de “bolhas”.

Quando o valor de um ativo sobe de forma constante durante um período prolongado, a variação histórica reduz-se, os preços parecem estáveis e os modelos traduzem essa tranquilidade aparente numa diminuição contínua do risco percecionado. É a velha ilusão de que se pode obter rendimento elevado com risco cada vez menor, quase como se o sistema oferecesse “dinheiro fácil”. No entanto, enquanto a perceção estatística de risco diminui, o risco real aumenta, alimentado pelo excesso de confiança, pelo recurso crescente ao endividamento e por comportamentos coletivos que nenhum modelo convencional consegue antecipar.

Quando o choque finalmente ocorre, os modelos acordam tarde demais e disparam alertas exagerados, justamente quando a perda já está materializada. É verdadeiramente o ângulo morto da gestão de riscos.

Isto repete-se em inúmeros episódios: antes de uma crise, os modelos são sistematicamente demasiado otimistas; depois, tornam-se excessivamente alarmistas. O resultado é sempre o mesmo: complacência e fragilidade acumulada no período que antecede a turbulência; reação desproporcionada e restritiva quando a crise já está em fase de dissipação.

Para riscos de curtíssimo prazo, esta distorção pode ser tolerável. Mas quando falamos de compromissos duradouros como a solidez financeira, obrigações que se prolongam por décadas, proteção de famílias e empresas, a diferença entre risco percecionado e risco real torna-se crítica.

Uma gestão e regulação/supervisão que depende apenas daquilo que os modelos devolvem enfrenta um impasse: age tarde e de forma demasiadamente branda antes de uma crise; reage tarde e de forma demasiado dura quando ela já passou. Num setor como o segurador e de fundos de pensões, onde a missão exige visão de longo prazo, este enviesamento não é apenas técnico; é estrutural.

Isto obriga a uma pergunta simples, mas incómoda: estaremos realmente a medir o que importa? Se o risco real cresce precisamente quando o risco captado pelos modelos diminui, então estamos a aprovar estratégias potencialmente perigosas nos períodos de aparente estabilidade e a exigir reforços de capital quando estes já pouco acrescentam à resiliência do sistema. Ou seja, estamos a preparar o presente com base no que ficou para trás, em vez de antecipar as vulnerabilidades do futuro.

A solução não passa por rejeitar a modelização; seria irresponsável. Mas exige complementar os modelos tradicionais com uma compreensão mais profunda das dinâmicas internas dos mercados, dos incentivos que alimentam comportamentos coletivos e das fragilidades que se acumulam precisamente nos períodos de aparente calma. Exige, acima de tudo, coragem para desconfiar de métricas demasiado confortáveis.

O risco percecionado é útil, mas enganador. O risco real é invisível, mas determinante. Enquanto confundirmos um com o outro, repetiremos o ciclo de excesso de confiança seguido de reação excessiva.

Se o setor segurador e de fundos de pensões pretende reforçar verdadeiramente a sua solidez e se a regulação/supervisão quer evitar ser apenas reativa, então é essencial olhar para onde o risco realmente está e não apenas para onde os modelos dizem que esteve. A questão não é “quanto os preços variaram”, mas sim “o que é que essa variação não está a revelar”.

No fim, a verdadeira ameaça nunca é o risco que sabemos medir, mas o risco que ignoramos.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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