O Presidente dos afetos não gosta de Mário Centeno

Marcelo, o presidente dos afetos, não tem muito afeto por Mário Centeno. Carlos Costa também tem um ódio de estimação pelo ministro. Mas este fim de semana ambos elogiaram Centeno. Porquê?

A birra de Marcelo Rebelo de Sousa com o ministro das Finanças já vem dos tempos da polémica de António Domingues e da Caixa, no famoso caso do “erro de perceção mútuo”. Na altura, estávamos em fevereiro de 2017, o Presidente da República chegou a publicar uma nota no site da Presidência, na qual dizia que só aceitava a continuação do Centeno como ministro “atendendo ao estrito interesse nacional, em termos de estabilidade financeira”.

O governador do Banco de Portugal e Mário Centeno também não morrem de amores um pelo outro. A relação dos dois azedou em 2013 quando o Banco de Portugal abriu um concurso público para escolher o novo diretor do Departamento de Estudos Económicos, tendo Mário Centeno concorrido e ficado em primeiro lugar. Acontece que Carlos Costa vetou o nome de Centeno com o argumento de que as intervenções públicas, de crítica aos números do Governo de Passos Coelho, constituíam uma violação do dever de reserva a que estava obrigado.

Amor com amor se paga. Ainda na semana passada, quando esteve no Parlamento, Mário Centeno foi bastante cáustico com o governador do Banco de Portugal, que acusou de ter feito uma “capitalização selvagem” e uma resolução desastrosa” do Novo Banco. E tem razão.

Acontece que Mário Centeno hoje não é o mesmo de 2017 e, muito menos, o de 2013. Desde então, Centeno ganhou estatuto internacional (esteve na shortlist para o cargo de diretor-geral do FMI), passou a liderar o Eurogrupo, entrou para a história de Portugal como o primeiro ministro das Finanças a conseguir um excedente orçamental em democracia, e aparece em todas as sondagens como o mais popular dos ministros de António Costa.

Estranhamente, este fim de semana, quer Marcelo, quer Carlos Costa resolveram elogiar o arqui-inimigo. Primeiro foi o governador, que em entrevista ao Expresso, afirmou que Centeno “tem todas as condições para ser um grande governador do Banco de Portugal”. Depois, foi Marcelo quem este domingo disse que “os portugueses devem estar gratos ao ministro das Finanças por aquilo que tem vindo a fazer ao longo dos anos. Ah, isso é evidente”.

Ah, isto é estranho. Qual o motivo para tantos elogios e afetos? O confinamento amoleceu tão empedernidos corações? Não, num caso é hipocrisia e no outro é tática política.

Comecemos pelo taticismo de Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente da República aproveitou uma semana, em que Centeno estave claramente na mó de baixo a nível internacional (com um artigo demolidor do Frankfurter Allgemeine Zeitung) e nacional (com o embaraço da questão da auditoria do Novo Banco), para ajustar contas com o passado e espetar uma ferroada política no debilitado Mário Centeno.

É caso para dizer que neste duelo político saiu-lhe o tiro pela culatra. O facto de a razão estar do lado de Mário Centeno — na Lei n.º 15/2019, promulgada pelo próprio Marcelo, não decorre qualquer condicionalidade das transferências para o Novo Banco à apresentação da auditoria da Deloitte — permitiu ao ministro das Finanças sair desta minicrise ainda mais reforçado. Saiu de São Bento com um papel a dizer que tinha a “confiança pessoal e política” do primeiro-ministro e, aparentemente, terá recebido um telefonema de Belém a pedir desculpas e a argumentar que o Presidente se equivocou.

Marcelo é inteligente o suficiente para perceber que cometeu um erro e arrepiou caminho a tempo. Não sentirá grande afeto por Mário Centeno, mas sabe que tem de respeitar um ministro que é respeitado pelos portugueses.

No caso de Carlos Costa, os elogios a Centeno não passam de pura hipocrisia. Quando confrontado pelo Expresso sobre a a zanga no passado com o atual ministro das Finanças, o governador explicou a razão pela qual não quis Centeno como diretor do departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal: “Tínhamos grandes candidatos e todos eles foram devidamente valorizados na sua componente científica e académica. Não foram capazes de demonstrar as qualidades que se pretendiam em matéria de gestão de pessoas”.

Então Mário Centeno não tem qualificações para ser diretor de um banal departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal mas “tem todas as condições para ser um grande governador” do próprio Banco de Portugal? Hipocrisia.

E que qualificações tem Carlos Costa para atestar a competência de Centeno para ser governador? O atual governador chegou ao Banco de Portugal com um currículo onde estavam as offshores do BCP e fez parte da administração de Carlos Santos Ferreira e de Armando Vara na Caixa, aquela que deu mais créditos ruinosos no banco público. Foi o pior governador que passou pelo Banco de Portugal porque não afastou Ricardo Salgado a tempo de evitar o colapso do banco, apesar de avisos atempados e reiterados de alguns como Pedro Queiroz Pereira e Fernando Ulrich sobre as falcatruas no BES.

A previsível ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal não representa apenas um ajustar de contas com o passado e uma bofetada de luva branca em Carlos Costa. Significa que a instituição passará a ter um governador competente para que no futuro não haja mais nenhum ministro das Finanças a ter de mandar fazer auditorias e transferências milionárias para cobrir prejuízos de bancos que faliram porque os supervisores foram complacentes, subservientes e incompetentes.

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