O risco pode ser uma oportunidade

  • Isabel Cipriano
  • 1 Outubro 2025

A subida progressiva dos salários (mínimo e médio) dos portugueses traduz-se no aumento da produtividade? Como incentivar e modernizar a economia?

No debate em torno da política laboral e do desenvolvimento económico, há um tema que insiste em permanecer central: é sustentável subir salários se a produtividade não acompanhar? Em 2025, este dilema torna-se (ainda) mais palpável, os aumentos salariais são visíveis, mas será que a produtividade cresce na mesma velocidade?

Vamos à Matemática e aos números que temos: O salário mínimo nacional passou para 870 euros brutos mensais, – mais 6,1% do que em 2024 – com a meta já traçada de atingir os 1.020 euros até 2028. Em termos simples, significa isto que quem aufere o salário mínimo nacional, em termos líquidos recebe €774,30 acrescidos de subsídio de refeição. Contas redondas, “leva para casa” cerca de €900.

Já a remuneração média e de acordo com dados recentes do Instituto Nacional de Estatística, também está a crescer, tendo atingido no segundo trimestre de 2025 os €1741, o que representa uma variação nominal de mais 6 por cento face ao período homólogo anterior, e um aumento real de 3,7 por cento após ajustamento pela inflação. Neste caso, este valor representa que em, em média, quem aufere este vencimento, “leva para casa” cerca de €1500.

Estes números revelam um reforço no poder de compra dos trabalhadores, um sinal positivo depois de anos consecutivos em que os salários portugueses eram dos mais baixos da Europa Ocidental; não obstante o nível de vida em Portugal e, por exemplo, o cabaz alimentar, ser mais caro do que na vizinha Espanha.

Mas a subida progressiva dos salários dos portugueses, traduz-se no aumento da produtividade? Estamos perto da Europa? De acordo com o Boletim Económico do Banco de Portugal, BdP, divulgado em março desse ano, a produtividade em Portugal deverá crescer em média um por cento ao ano, na linha da sua evolução histórica o que representa um ritmo insuficiente quando comparado com a subida real dos salários.

Se esta tendência se mantiver — salários em forte crescimento real e produtividade a avançar lentamente — o país pode enfrentar vários riscos, como a perda de competitividade externa, à medida que as empresas portuguesas se tornam mais caras em relação aos concorrentes europeus; uma maior pressão sobre margens de lucro, sobretudo em pequenas e médias empresas (que representam mais de 90 por cento do tecido empresarial português); e um risco inflacionista, se os aumentos salariais forem transferidos para um aumento dos preços.
Apesar do contexto, não se pode reduzir a discussão a “salários contra produtividade”. A verdadeira questão está em como alinhar estes os dois vetores. O que é um risco, pode ser também uma oportunidade.

O aumento dos salários pode e deve ser um incentivo a modernizar a economia. Deixo cinco sugestões: investir em inovação e digitalização, sobretudo nas PME, onde os níveis de produtividade são mais baixos; apostar na formação e qualificação contínua, garantindo colaboradores mais capacitados para as necessidades atuais; fomentar o crescimento empresarial, ajudando empresas a ganhar escala e a competir em cadeias de valor globais; ajustar as políticas públicas, canalizando fundos europeus (como o PRR) para os projetos que realmente aumentem a eficiência; e reforçar a negociação coletiva com mecanismos que interliguem parte da remuneração a ganhos de produtividade.

Conseguir-se subir salários de forma consistente é algo crucial para reduzir desigualdades e reter talento. Mas se a produtividade continuar a crescer apenas marginalmente, o risco é claro: um país que paga mais, mas que não produz proporcionalmente mais.

O desafio para os próximos anos não é travar os salários, mas sim acelerar a produtividade. Isso exige visão estratégica, investimento público bem direcionado e empresas capazes de sair da lógica do baixo custo para a lógica do acrescentar valor. Só assim Portugal poderá garantir que os aumentos salariais de hoje não serão um fardo amanhã, mas sim a base de um futuro mais justo e competitivo.

  • Isabel Cipriano
  • Presidente da APOTEC – Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade

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