O seguro de saúde não pode só nascer da necessidade

  • Rui Miguel Cardoso
  • 19:10

Rui Miguel Cardoso quer mais clareza por parte dos distribuidores de seguros. O CEO da Protector defende caber às mediadoras ajudar as pessoas a compreender o que um seguro de saúde faz e não faz.

Durante décadas, o Serviço Nacional de Saúde foi o principal pilar da proteção da saúde em Portugal, assente na universalidade, na acessibilidade e num forte princípio de solidariedade, princípios que continuam a ser uma âncora para milhões de pessoas. Ainda assim, no dia a dia, a experiência de quem precisa de cuidados de saúde nem sempre responde às expectativas de quem depende do sistema.

Listas de espera longas, dificuldades no acesso a consultas de especialidade e incerteza nos tempos de resposta tornaram-se parte do discurso comum. E, quando a resposta não chega a tempo, as famílias procuram alternativas. Fazem-no para reduzir a incerteza e garantir uma resposta atempada quando a saúde está em causa.

É neste contexto que o seguro de saúde ganha peso. Não como um luxo, nem como uma decisão estrategicamente planeada, mas como uma solução prática perante limitações sentidas no sistema público. O SNS continua a ser essencial, mas passa, cada vez mais, a funcionar como um motor indireto da procura por seguros de saúde privados.

Este movimento merece reflexão. Quando o seguro surge como resposta a falhas percebidas no acesso à saúde pública, deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a ter um impacto social significativo. As expectativas aumentam, a pressão sobre o mercado cresce e o risco de decisões mal informadas torna-se real.

Em muitos casos, as condições contratuais dos seguros de saúde só se tornam evidentes quando é necessário recorrer efetivamente à cobertura. O seguro existe, mas a resposta que oferece, quando é posta à prova, revela limites que não tinham sido plenamente considerados.

É precisamente neste contexto que a responsabilidade do setor tem de crescer. Quando a procura aumenta por necessidade, impõe-se mais transparência, mais clareza e um reforço do enquadramento regulatório. Um seguro de saúde não pode ser apresentado como substituto do SNS, nem como uma solução milagrosa para problemas estruturais. Deve ser assumido como um complemento, com limites claros e expectativas bem geridas.

É neste equilíbrio que o papel da mediação se torna fundamental. Cabe às mediadoras ajudar as pessoas a compreenderem o que um seguro de saúde faz e o que não faz, a escolherem soluções ajustadas à sua realidade e a perceberem como o setor privado se articula com o sistema público. Não para forçar decisões, mas para evitar escolhas precipitadas em momentos de fragilidade.

A complementaridade entre público e privado só funciona quando existe responsabilidade de ambos os lados. Se, por um lado, o SNS precisa de reforço e investimento, por outro, o mercado segurador precisa de regras claras e práticas transparentes. E os consumidores precisam de informação simples, clara e acessível para tomarem decisões que afetam diretamente a sua saúde.

Fazer do seguro privado uma resposta automática às limitações do SNS é um caminho arriscado. O desafio passa por construir uma relação mais equilibrada entre o público e o privado, com expectativas realistas e responsabilidades bem definidas. Nesse processo, a mediação tem um papel essencial na gestão de escolhas e informação.

Porque, em saúde, mais do que escolher entre sistemas, o que realmente importa é garantir que ninguém fica sem resposta quando mais precisa dela.

  • Rui Miguel Cardoso
  • CEO da mediadora de seguros Protectus

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