O talento de sufocar um país

O facto dos contribuintes estarem a suportar maus resultados e más práticas de empresas mal geridas (como no NB ou na TAP) prejudica o presente e impede esse dinheiro de gasto no apoio à economia.

Um país que desperdiça o seu talento hipoteca o seu futuro. Pagar-lhes mal porque temos empresas e salários esquartejados por contribuições e impostos, é um convite à emigração e ao desperdício de talento.

Que as empresas precisam de recursos humanos qualificados para se desenvolver não é novidade para ninguém. Um país (e portanto as suas organizações) assentes em mão de obra e funções pouco qualificadas está condenado a um nível de desenvolvimento inferior ao dos seus pares. Isto leva-nos ao que têm sido os últimos anos em Portugal e à forma como temos investido na formação superior e formado fornadas de jovens qualificados e, consecutivamente, sido incapazes de os segurar, em particular, pelos baixos salários praticados em Portugal.

As melhores empresas sabem que têm de inovar para se manter à frente da concorrência, e por isso sabem que para inovar precisam de recursos humanos altamente qualificados, e também por isso, bem pagos. Quando Portugal limita, pela carga de impostos brutal sobre as empresas e trabalhadores, o salário líquido recebido pelos seus recursos, não podemos ficar surpreendidos quando os jovens tomam a que é muitas vezes a decisão economicamente mais racional: emigrar. Sejamos claros, o nível de impostos e contribuições sobre os trabalhadores e sobre as empresas em Portugal limita os salários e as perspetivas de futuro dos portugueses. Portugal precisa do talento das gerações mais jovens, as empresas precisam do talento das gerações mais jovens e continuamos com uma política económica que nos restringe e que sufoca a economia.

Não é, portanto, de estranhar a queda de 8 lugares por parte de Portugal no ranking internacional de talento desde 2016. Estamos há anos a sofrer uma sangria de recursos qualificados pelas más escolhas de governantes que taxam como elevados rendimentos muito abaixo da média europeia. Em geral, os países de altos rendimentos dominam os lugares mais altos do ranking e a evolução do índice mostra que esses “campeões de talentos” estão a acelerar a sua distância face ao resto do mundo. Esta divisão é potenciada pelo uso das tecnologias mais avançadas, como a Inteligência Artificial (IA) e pela lacuna de competências digitais associada, que emergiu entre as indústrias, os setores e os países.

Visitei recentemente empresas na região centro e o relato dos empresários é precisamente este, a dificuldade em atrair e reter quadros qualificados com o nível de impostos a que estão sujeitos. Na verdade, o facto dos contribuintes portugueses estarem a suportar maus resultados e más práticas de empresas mal geridas (como no Novo Banco ou na TAP) não prejudica apenas o presente e impede esse dinheiro de ser gasto no apoio à economia (em redução de impostos e contribuições), prejudica o futuro ao limitar a capacidade de retenção de talento do nosso país. As economias com mais talento competitivo são aquelas que mais investem em todas as fases do processo formativo com o objetivo de desenvolver “talentos”, mas também as que são capazes de o reter. No entanto, se temos tido um desempenho razoável na evolução da qualificação da formação dos portugueses, reduzindo o abandono escolar precoce e aumentando a participação dos jovens no ensino superior, não somos depois capazes de os reter ou de cativar talento estrangeiro. A pandemia podia ser uma oportunidade para potenciar o país como destino de talentos que trabalham maioritariamente por teletrabalho, tivesse este governo a capacidade de implementar um regime fiscal competitivo e bem direcionado.

Um governo que sobrecarrega as empresas até que tenham prejuízos – para depois pagar subsídios de desemprego, apoiado em comentadores e jornalistas com uma visão estatizante e que dominam os canais de comunicação enquanto diabolizam o lucro e os empresários: eis a receita para um modelo económico falhado. Não é por acaso que ano após ano somos ultrapassados no PIB per capita por países de leste, vacinados contra o comunismo. É pelas opções do governo e de governo que temos tido.

A nossa capacidade de atrair investimento e talento está hoje limitada pelas opções políticas. Precisamos de recuperar a confiança dos investidores e criar condições para que os jovens qualificados, os nossos talentos, fiquem em Portugal a criar riqueza e a desenvolver os seus projetos de vida. Precisamos que as empresas possam respirar, contratar e pagar bons salários. Precisamos de talento para mudar.

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