“Parece que acabaram as mulheres em Portugal”premium

No jornalismo, como na vida em geral, é preciso olhar o mundo de ponto(s) de vista diferente(s). Olhos e receitas iguais dificilmente nos darão uma visão do mundo tão diversa quanto a que precisamos.

Einstein pensava tanto na vida como na ciência. É-lhe atribuída a frase "Loucura é querer resultados diferentes, fazendo tudo exatamente igual". E, basta-nos olhar para as coisas que perduram na nossa vida, boas e más, para percebermos que o que muda nos resultados é a receita, o caminho para lá chegarmos.

No jornalismo, como na vida em geral, é preciso olhar para o mundo de um ponto de vista utopicamente objetivo (a subjetividade do sujeito assim o determina) mas, sobretudo, de um ponto de vista que seja sensível e que considere a diversidade de vozes. É que o jornalismo é, para muitos de nós, a presença que não temos nos sítios onde as coisas acontecem. É estarmos onde não podemos ir, a não ser através do olhar e das palavras de outros.

Olhos, práticas, equipas de liderança - em suma, receitas iguais - dificilmente nos trarão uma visão do mundo tão diversa quanto a que precisamos, nós, gente ocupada, já meio enviesada por tantas redes e estímulos, e cores e ruídos e, ritmo e rotinas que nos ocupam os dias e nos deixam com uma perspetiva bem mais egocêntrica do que aquela que nos recomendam os livros.

E é aqui que começa o nosso primeiro desafio. Segundo os dados do Reuters Institute, que analisou as diferenças de género em meios de comunicação de referência em 2020 (os maiores 240 meios de comunicação online e offline em 12 mercados diferentes), apenas 22% dos 180 principais editores das 240 marcas consideradas são mulheres, apesar de, em média, 40% dos jornalistas desses 12 mercados serem mulheres.

Olhando mais de perto, para as 178 marcas de media analisadas em 2020 e em 2021, a percentagem de mulheres em posições de liderança mudou de 22%, em 2020, para 24%, em 2021. Entre 37 novos editores dentro das marcas analisadas, apenas 16% são mulheres. Arredondando por excesso, quase dois em dez novos editores são mulheres. Esta desigualdade perpetua-se um pouco por todo o mundo: considerando 11 em 12 mercados observados pelo Reuters Institute, a maioria dos cargos de liderança em meios de comunicação são ocupados por homens, incluindo países como o Brasil ou a Finlândia, em que o número de mulheres entre o total dos jornalistas é superior ao número de homens. A percentagem de mulheres em posições de edição e liderança varia, como é normal, de mercado para mercado. A Reuters assinala que, por exemplo, no Japão, nenhuma mulher ocupava a direção de qualquer dos maiores meios noticiosos do país em 2020, ao mesmo tempo que, na África do Sul, 62% dos jornalistas e 60% dos editores são mulheres.

Em Portugal, e de acordo com o relatório final produzido pelo Obercom – Observatório da Comunicação sobre o "Inquérito aos Jornalistas CIES-IUL/SJ 2016", a propósito do estudo “Os jornalistas portugueses são bem pagos? Inquérito às condições laborais dos jornalistas em Portugal”, a diversidade de género é equilibrada no que respeita ao número de homens (51,8%) e de mulheres (48,2%) que desempenham a profissão de jornalistas. Mas, se quase metade dos jornalistas em Portugal são mulheres, porque é que as mulheres lideram tão pouco os meios em Portugal?

Esta semana, a CNN Portugal -- um "braço" da CNN, marca de jornalismo internacionalmente reconhecida, tanto pela informação de referência e pela credibilidade como pelas suas práticas de diversidade e inclusão --, que prepara o seu lançamento no mercado nacional, apresentou a segunda parte da sua equipa de liderança. No primeiro anúncio, no início de setembro, Nuno Santos (diretor da CNN Portugal), Frederico Roque Pinho (diretor executivo responsável pela operação do canal de televisão) e Pedro Santos Guerreiro (diretor executivo responsável pelo digital) foram o trio apresentado para liderar o "projeto de informação multiplataforma da Media Capital". Três semanas depois, novo anúncio: Paulo Magalhães, Pedro Pinheiro, José Carlos Araújo e Rui Loura foram apresentados como os editores gerais da CNN Portugal.

O que é que estas equipas têm de especial, além de reunirem "uma vasta experiência" e a ambição de "fazer a diferença na forma como os portugueses compreendem o mundo"? São constituídas totalmente por homens. 100%, tutti, todos, geral! Digo mais: homens, brancos, de meia idade. Líderes experientes? Sim. Jornalistas reconhecidos? Sem dúvida. Garantes de credibilidade? Sim, certamente. Todos homens com percursos, idades e, por isso, visões do mundo muito semelhantes? Muito provavelmente - demasiado semelhantes, diria eu. Até agora, a CNN apresentou publicamente uma equipa igual: é indiferente se são um, três ou sete líderes: a sua visão do mundo será alinhada, sempre. "Sem espinhas", como se costuma dizer. E, sem dúvida, perpetuando uma aversão ao risco e ao falhanço que ignora que o maior dos perigos é construir equipas monocórdicas que vão, quase inevitavelmente, contar as histórias do mundo -- e levar o mundo aos que as verão ou lerão -- sob o mesmo pontos de vista. Sempre.

"Sei que vamos desenvolver uma nova forma de fazer jornalismo, mais presente na vida dos cidadãos", disse Nuno Santos, citado no Instagram da CNN Portugal. Quando só temos metade da população mundial (e perdoem-me, para já, uma visão redutora de géneros que nem tem em conta a identidade multigénero do mundo em que vivemos) a decidir quem, como e porquê se conta o mundo de determinada maneira, perdemos 50% da história.

Continua a surpreender-me a forma como se diz que se vai fazer tudo diferente, fazendo-se tudo igual. Com a forma como é muito mais fácil dizer uma coisa do que, depois, fazê-la, o chamado walk the talk. Como me comentou um amigo, que sentiu as minhas poucas palavras sobre o tema, "parece que acabaram as mulheres em Portugal".

Custa-me acreditar que, em todas as reuniões, negociações, conversas de corredor, recomendações ou até em sonhos, não tenham aparecido nomes de mulheres portuguesas, extraordinárias jornalistas, que quisessem alinhar no desafio, ou melhor, no autêntico privilégio que é construir uma marca de informação num país que tende a interessar-se tão pouco em agir sobre o que lhe acontece. Recuso-me a considerar que, na construção de uma equipa local, a CNN não tenha reparado que isto está a acontecer (Johnita P. Due, Senior Vice President and Chief Diversity & Inclusion Officer, podemos tratar deste tema consigo?). E custa-me, sobretudo, crer que, na ideação e construção de uma "nova equipa", não se assegure, from scratch -- como se diz nas startups -- o mais básico: a diversidade de vozes. É que, ao que parece, o jornalismo tem muito disso: dar voz a quem não tem voz.

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