Petróleo e chips, os dois pulmões da economia mundial

  • Paulo Monteiro Rosa
  • 24 Outubro 2025

Tal como o crude continua indispensável para o funcionamento das economias, também os chips se tornaram vitais para a transformação de energia e matéria-prima em bens e serviços.

A economia global vive em 2025 um duplo paradoxo energético e tecnológico. Por um lado, o petróleo e os restantes hidrocarbonetos continuam a representar cerca de 85% da matriz energética mundial, sustentando praticamente toda a atividade económica. Por outro, os semicondutores — os chips que alimentam desde os automóveis até aos sistemas de inteligência artificial — emergem como o novo petróleo do século XXI. Ambos são recursos estratégicos, insubstituíveis a curto prazo e sujeitos às mesmas tensões geopolíticas que moldam o equilíbrio de poder global.

A crise recente na indústria automóvel, ditada pela tomada de controlo temporária da Nexperia pelo Estado holandês, e pela consequente escassez de chips, é um espelho perfeito dessa nova dependência. A decisão de Haia, tomada sob pressão dos EUA, visou impedir o controlo chinês sobre um elo crítico da cadeia de fornecimento de semicondutores. O resultado imediato foi a paralisação parcial da produção automóvel na Alemanha e o alarme no Japão. O que começou como uma medida de segurança nacional transformou-se rapidamente numa disrupção global. As empresas perceberam que a interligação entre tecnologia e política é hoje tão estreita que uma decisão administrativa pode travar a produção em três continentes.

Este episódio tem paralelismos diretos com o mercado do petróleo. Tal como o crude continua indispensável para o funcionamento das economias, também os chips se tornaram vitais para a transformação de energia e matéria-prima em bens e serviços. Sem energia barata e estável, não há indústria. Mas sem chips, não há controlo, automatização nem produtividade. Os semicondutores são, no fundo, a energia inteligente da era digital — a ponte entre a física e a informação, entre a eletricidade e o valor acrescentado.

O petróleo tem sido, durante mais de um século, o sangue da economia industrial. A sua abundância e o seu preço acessível permitiram o maior ciclo de crescimento da história humana. Todavia, à medida que o mundo se digitaliza, a nova dependência recai sobre os materiais que permitem fabricar microprocessadores cada vez mais pequenos, rápidos e eficientes. Aqui, o equilíbrio estratégico é outro: os EUA e os seus aliados dominam a tecnologia de ponta, produzindo chips de 3, 2 e até 1,2 nanómetros, numa escala que se aproxima da dimensão do átomo. A China, pelo contrário, detém o controlo sobre as terras raras, minerais essenciais à sua produção.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, do lantânio (La) ao lutécio (Lu), incluindo o ítrio (Y) e o escândio (Sc). Estes metais possuem propriedades magnéticas, catalíticas e eletrónicas únicas, essenciais para motores elétricos, turbinas eólicas, lasers e chips de alta precisão. A China controla entre 60% e 80% da extração e refinação mundial destas terras raras, o que lhe confere uma vantagem geopolítica decisiva. Embora os EUA, a Europa e o Japão dominem as fases mais avançadas da tecnologia, continuam dependentes destes materiais para sustentar a indústria digital e energética. Em suma, as terras raras são o “novo petróleo”. Recursos estratégicos cuja disponibilidade e controlo definirão cada vez mais a força tecnológica e económica das nações no século XXI.

A ciência económica ensina que o crescimento resulta da conjugação de três fatores: energia, trabalho humano e tecnologia. Quando a energia é barata e o trabalho é produtivo, a tecnologia amplifica o resultado — cria bens e serviços mais acessíveis e melhora o bem-estar do ser humano, aumentando o potencial do progresso económico. Todavia, quando um desses fatores é afetado, todo o sistema vacila. A escassez de petróleo impulsiona os custos de produção. A escassez de chips interrompe cadeias industriais inteiras. Ambos revelam a vulnerabilidade estrutural da globalização e a crescente valorização da segurança económica — apresentada agora como um novo princípio estratégico das nações, embora sempre tenha existido. A diferença é que, há um século, essa lógica estava confinada ao continente europeu e às rivalidades entre as suas principais potências. No entanto, hoje, é global e materializa-se sobretudo na disputa entre dois grandes blocos económicos: as economias avançadas lideradas pelos EUA e o chamado Sul Global, sob a influência crescente da China.

Hoje, a luta pelo controlo do petróleo e dos semicondutores não é apenas económica — é civilizacional. O primeiro alimenta o corpo da economia, o segundo comanda o seu cérebro. O petróleo continua a ser a base energética que move o transporte, a indústria e a agricultura, em suma toda a atividade económica. Os chips, por sua vez, tornaram-se a base cognitiva que comanda a eficiência, a automatização e a inovação. A competição entre as potências — dos EUA e Europa à China e à Índia — é, no fundo, uma disputa pelo domínio dessas duas formas de energia: a que faz o mundo se mover e a que o faz pensar.

O futuro dependerá da capacidade de equilibrar estas duas dimensões. A prosperidade do século XXI exigirá não apenas energia limpa e acessível, mas também tecnologia aberta e segura. O mundo precisa de petróleo para produzir, e de chips para pensar. E é dessa síntese — entre a energia física e a inteligência digital — que se decidirá o verdadeiro poder económico nas próximas décadas.

  • Paulo Monteiro Rosa
  • Economista Sénior, Banco Carregosa

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