Sobre aqueles que escolheram ignorar a realidade: O caso Fernando Alexandre

Para o futuro, fica um novo sistema de ação social para o ensino superior. A tentativa de reescrever a realidade, de atacar o carácter, pelo menos desta vez, falhou.

Um dos males de escrever no início da semana é que os temas da semana anterior, ocorridos após o último artigo, deixam de ser atuais. Por regra, não escrevo sobre esses temas, não só para evitar a espuma dos dias como para não usar atualidade desatualizada. Contudo, desta vez, tenho de infringir essa regra, autoimposta, que me tenho esforçado por cumprir. Faço-o porque, desta vez, creio ser relevante fazê-lo.

Escrevo este texto na tranquilidade de poder dizer que, da primeira vez que ouvi as declarações do ministro Fernando Alexandre, percebi claramente o que este queria dizer. Aliás, era algo que já escrevi, certamente, neste espaço diversas vezes: se as nossas elites desconhecem a escola pública, ignoram o funcionamento dos transportes públicos e estão alheados do atraso das bolsas e da parca resposta de residências públicas porque nem eles, nem os seus filhos se cruzam com estes serviços no quotidiano, então sim, os serviços degradam-se e são os mais pobres os prejudicados. Nada aqui me parece controverso, sendo, inclusivamente, uma velha batalha da esquerda.

Então onde estava o problema? Na muita vontade de muitos agentes de tresler ou ativamente não ouvir o que o ministro disse. O que me chocou particularmente foi o facto de, ainda durante algumas horas, uma parte considerável da comunicação social ter ignorado as declarações completas, o contexto do que foi dito, as circunstâncias pessoais do ministro e, no fundo, a realidade, para ceder à mais reles demagogia dos cortes, dos reels. Num tempo em que tantas vezes discutimos a justa preocupação com as fake news, se deixamos de poder confiar no escrutínio da comunicação social, então o estado da nossa democracia é pior do que esperava.

Já bem durante aquela noite, quando já era mais do que claro que o choque inicial não passava de puro sensacionalismo, ainda saíam cortes descontextualizados das declarações nas redes sociais de OCS. Já bem durante aquela noite, quando comentadores realçavam que era evidente que o ministro não tinha dito o que era acusado, ouvi jornalistas a perguntar se o ministro tinha sido claro ou se não tinha sido ele a dar espaço para a dúvida. Queria ter respondido que é irrelevante, porque o ónus está do lado dos jornalistas, da sua responsabilidade de fazerem o seu trabalho e ouvirem as declarações completas, e não apenas os segundos partilhados nas redes. Estivemos a um passo de dizer que o ministro se pôs a jeito. No dia seguinte a capa do Correio da Manhã era: “Ministro diz que pobres estragam residências universitárias”. Onde ficou a realidade?

Do lado dos partidos, o intuito político era claro e esse, de facto, resultou. Numa altura em que se apresentava o novo plano para a ação social no ensino superior, em que se mostrava como podemos alterar algo que até agora, manifestamente, tem falhado a milhares de jovens, o objetivo do PS era desconversar, desviar atenções. Se, como consequência, o ministro fosse grelhado pela opinião pública, era apenas mais um ganho. Contudo, a forma desconcertante como o fizeram, a roçar a total desconsideração pela verdade, revelou-se contraprodutiva.

No fim do dia, a narrativa não colou. Não colou porque acusar um ministro, que foi bolseiro e viveu em residências públicas, de segregação e de preconceito para com pobres é tão patético como pérfido, mas fica registada a tentativa. Fica também registada a forma como muita gente, até hoje, não foi capaz de reconhecer o erro ou a velocidade com que correu ao pelourinho. Fica registada a forma como alguma imprensa foi incapaz de discernir a realidade do boato das redes sociais.

Para o futuro, fica um novo sistema de ação social para o ensino superior, sobre o qual, a seu tempo, pretendo poder opinar neste espaço. A tentativa de reescrever a realidade, de atacar o carácter, pelo menos desta vez, falhou. A justiça aos que desmentiram a narrativa que se instalava, como o Jornal de Notícias, deve ser feita, mas fica a dúvida: se a imprensa não fizer devidamente o seu trabalho, quem o faz? Os impactos são sérios.

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