Teletrabalho e mercado global de talento

  • João Paulo Feijoo
  • 10 Agosto 2020

Ao libertarem a relação laboral de constrangimentos geográficos, estavam a contribuir para uma revolução nos mercados de trabalho cujas consequências vão muito além daquela intenção.

No início do confinamento, as empresas que criaram apressadamente as condições mínimas para que os trabalhadores pudessem trabalhar a partir de casa tinham como única motivação a vontade de se manterem em laboração. Porém, ao libertarem a relação laboral de constrangimentos geográficos, estavam a contribuir para uma revolução nos mercados de trabalho cujas consequências vão muito além daquela intenção.

Dispensar o trabalhador que reside no concelho de Sintra da presença diária no centro de Lisboa significa muito mais do que poupá-lo aos engarrafamentos do IC19 ou à falta de comboios da Linha de Sintra. Significa poder contratar outro em Leiria, em Cabo Verde, na Colômbia ou nas Filipinas para o substituir, sem os inconvenientes da imigração. Significa entrar num mercado global de talento ferozmente competitivo e onde a classe média dos países desenvolvidos pode ter muito a perder.

Esta transformação foi descrita e analisada por Richard Baldwin, um dos maiores especialistas mundiais em globalização, no seu mais recente livro The Globotics Upheaval: Globalization, Robotics, and the Future of Work.

Até agora, as barreiras da distância e da língua têm permitido proteger os mercados de trabalho locais da concorrência global. A barreira da distância foi demolida pelo rápido progresso das tecnologias da conectividade – como ficou patente na inesperada facilidade com que dezenas de milhar de trabalhadores transitaram para o teletrabalho praticamente de um dia para o outro – cujas possibilidades irão ampliar-se ainda mais com o advento das redes 5G. A barreira da língua já tinha deixado de existir no que se refere às funções mais qualificadas, em que o uso do inglês é ubíquo; no entanto continuava a impedir a entrada no mercado global a uma grande massa de trabalhadores, sobretudo de países em desenvolvimento e com poucas ou nenhumas habilitações linguísticas, mas expectativas salariais muito inferiores às praticadas localmente nos países desenvolvidos.

É aqui que entram em cena as tecnologias de processamento da linguagem natural e de tradução simultânea automática, baseadas em inteligência artificial e machine learning, que estão a fazer cair definitivamente esta última barreira.

Com a queda das barreiras da distância geográfica e da língua, os mercados de trabalho tenderão a integrar-se à escala global, expondo os trabalhadores dos países desenvolvidos à concorrência dos seus pares de todo o mundo. E os níveis educacionais alcançados em muitos países em desenvolvimento já produziram elites locais com habilitações de nível comparável que, ceteribus paribus, são altamente competitivas em matéria salarial e podem permanecer no seu país.

Atualmente, já é possível subcontratar “à peça” muitas atividades transacionais de baixo valor acrescentado em plataformas de crowdworking (microtrabalho) como o Mechanical Turk da Amazon ou o Clickworker, onde a maioria das licitações tende a ser ganha por gig workers de países em desenvolvimento, e a tendência vai no sentido de uma cada vez maior complexidade das atividades que são contratadas nestas plataformas.

Claro que podemos argumentar que esta concorrência não é justa, porque os níveis de proteção social nesses países não são comparáveis aos dos países desenvolvidos. Mas como impedir as empresas de recorrerem à arbitragem para aproveitar a diferença de preços, sabendo que basta que uma o faça para imediatamente conseguir uma vantagem competitiva sobre as restantes? O controlo por meio de legislação e de regulação será sempre complexo, moroso, e acima de tudo vulnerável. A melhor defesa será sempre o upgrade das qualificações e do conteúdo das funções.

Apesar das muitas reticências e condicionantes é provável que, em grande parte devido à pandemia de Covid-19, o teletrabalho tenha vindo para ficar. Mas não veio sozinho, e implicará mudanças muito mais profundas do que aquelas de que mal começámos a aperceber-nos.

*João Paulo Feijoo é consultor, docente e investigador.

  • João Paulo Feijoo

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