Trump Tropical

Com um antigo Presidente da República a cumprir pena por corrupção, o que verdadeiramente é significativo sobre o estado corrente do Brasil é a desagregação das elites políticas.

Na sua derradeira obra, intitulada ‘Who Are We?’, Samuel Huntington pergunta que América seria a América de hoje se, em vez de ter sido civilizada por Britânicos no século XVII e XVIII, tivesse sido ocupada por colonos vindos de França, de Espanha ou de Portugal. A resposta é óbvia para o Autor e reduz-se a um redondo “não”. A América não seria a América, mas talvez fosse uma espécie de Quebec, México ou Brasil.

Em termos económicos e políticos, a cultura, tal como a geografia, acaba por ser uma formulação do destino. Talvez sim e talvez não. Mas precisamente no Brasil, o candidato Jair Bolsonaro, líder nas sondagens presidenciais, é alvo do contraditório político na forma de uma lâmina que lhe atravessa o abdómen. Embora estivesse precavido com um colete à prova de bala, a faca tem outra desenvoltura e escapou ao crivo do colete.

O candidato é conhecido pelas suas posições políticas extremas e controversas: “discurso homofóbico”; “incitamento ao ódio racial e de género”; apologista da liberalização do porte de arma; intolerância política ao afirmar que alguns membros do Partido dos Trabalhadores “deveriam ser fuzilados”; revisionismo ao declarar que o “Brasil não conheceu nenhuma Ditadura Militar” entre 1964-85, mas apenas um “regime militar que garantia a ordem e o progresso”; acrescente-se o discurso da virtude do Brasil contra o pântano e a corrupção de Brasília.

Com um antigo Presidente da República a cumprir pena por corrupção, o que verdadeiramente é significativo sobre o estado corrente do Brasil é a desagregação das elites políticas que têm dividido entre si as rendas geradas no país. Já não se trata de uma guerra política entre pobres e ricos, mas sim de uma guerra no coração político da nação – uma guerra entre a aristocracia da terra e dos negócios e um populismo neo-marxista e terceiro mundista revitalizado pelo exercício do poder do Estado e da corrupção.

Sendo o Brasil um país endemicamente corrupto, a luta é pelo espólio do Estado para distribuição pelas clientelas políticas das liberdades, dos recursos e dos privilégios. Sendo o Brasil estranho a uma cultura política liberal e dominado por um marxismo cultural como expressão indígena, a política transforma-se na experiência do ódio e da vingança sem redenção. A Esquerda e a Direita ideológicas, em versões extremas, são o novo tropicalismo do velho tropicalismo, um vasto território ao longo do qual a soberania se vai dissipando até se confundir com a violência do Sertão. Longe da arquitectura moderna de Brasília, o Brasil real sofre tanto com a miséria moral como com o orgulho patriótico de um país em ruínas. Ainda existe um Brasil que continua a exigir dignidade e a gritar a frase perigosa da grande crise existencial que o país atravessa – a apologia da política do ressentimento.

No entanto, talvez exista a possibilidade de um olhar cruzado entre a América de hoje e o Brasil contemporâneo. Na América prolifera na sombra uma “resistência silenciosa” que pretende proteger a nação dos eventuais danos provocados pelo errático Presidente Trump. É o tempo da teoria das conspirações, a sombra de um país ocupado por dentro e tutelado pela ordem dos ‘Illuminati’, guardiões da Constituição e servidores da República. No Brasil explode nas ruas uma resistência ruidosa, que pretende proteger o “mito da nação abençoada” e ameaçada pela ganância dos governantes. É o tempo das convulsões, a sombra de um país ocupado por dentro e tutelado pela ordem confessável dos interesses indomáveis. Não existem ‘Illuminati’ no Brasil, ou então pertencem todos à voragem da ordem vigente.

Questões de soberania no respectivo lugar, o silêncio e a indiferença política de Portugal face à situação do Brasil são injustificáveis. Quando o Brasil entra em “recessão democrática”, o património da História e da Língua são um activo cultural no mundo globalizado que não pode ser ignorado. Eça de Queirós escreve que o brasileiro é uma versão do português inchado pelo calor. E surge a questão do incêndio no Museu Nacional do Brasil. Frescos de Pompeia obliterados pelo fogo, fósseis e artefactos indígenas destruídos pelas chamas, colecções ornitológicas evaporadas, a biblioteca científica com cerca de 500.000 volumes transformada em fumo negro. Resistiu o Meteorito de Bendegó, mas esse não é deste mundo. Quando páginas queimadas voam pelas ruas do Rio de Janeiro são pedaços da História de Portugal que se perdem para sempre.

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