Um país que trabalha para aquecerpremium

Quando se prevê que a economia cresça uns míseros 2,2% em 2025 estamos a atirar a toalha ao chão e a dizer: contentem-se com o que têm porque não virá mais do que isso.

As efemérides e os dias comemorativos têm a enorme vantagem de nos obrigar a revisitar assuntos que, na espuma dos dias, vão saindo do nosso radar.

No 25 de Abril recordámos o quanto já andámos para aqui chegar, sobretudo a nível social. Comparar o Portugal que a ditadura deixou com o que temos hoje é comparar a noite com o dia e devemos estar orgulhosos disso. Orgulhosos do que já foi conseguido, sim. Mas também preocupados e nunca acomodados com o que já devia ter acontecido e ainda não aconteceu.

E o mais importante do que ainda não aconteceu foi recordado na celebração do Dia do Trabalhador. A Pordata recolheu uma série de indicadores para fazer “Um retrato dos trabalhadores e do emprego em Portugal”.

Entre os vários gráficos e indicadores, lá estão dois nossos velhos conhecidos: a produtividade e as horas trabalhadas.

Os dados não são novos, como sabemos. E o problema é a tendência de afastamento da média da União Europeia, que não há maneira de se inverter.

O diferencial de horas de trabalho médias é cada vez maior e o resultado desse trabalho, medido pela produtividade, é cada vez maior também.

Resumindo: muita quantidade de trabalho, pouca qualidade de trabalho.

Esta é a mãe dos nossos problemas. A partir daqui, sabemos porque é que os salários não podem subir muito mais, porque é que a margem para reduzir horários de trabalho é escassa, porque é que a nossa carga fiscal é inferior à média europeia mas ainda assim demasiado pesada para tão frágil capacidade de produzir e gerar rendimento.

Num país onde a população está a diminuir e que já não é atractivo para a imigração como foi nos anos 90, o crescimento económico só pode vir de um lado: cada um de nós tem que produzir muito mais por cada hora trabalhada. E isso move-se a passo de caracol.

São milhentas e muito variadas as causas para esta estagnação e, para tornar tudo ainda mais difícil de resolver, o essencial do problema não se resolve atirando-lhe dinheiro para cima. Há 30 ou 40 anos ainda podíamos dizer que a pobreza das nossas infraestruturas impunha um pesado custo de contexto às empresas que podia intrometer-se na sua eficiência.

Mas, entretanto, vieram dezenas de milhares de milhões de fundos comunitários, fizeram-se milhares de quilómetros de auto-estradas, construíram-se centenas de parques industriais, modernizaram-se redes de comunicações e de energia… enfim, investiu-se ou gastou-se muito dinheiro precisamente com o objectivo de tornar o país mais competitivo. Se foi bem ou mal gasto é outra história.

O betão é sempre mais fácil, sobretudo quando uma parte importante da factura é paga por fundos comunitários. O problema é quando temos necessidade de fazer mudanças culturais, de hábitos, de processos e métodos de trabalho, quando são necessárias competências que não estamos tão habituados a usar.

Assim de repente, sem qualquer preocupação especial de ordenamento e muito menos tentativa de ser exaustivo, o que é que contribui para a nossa miserável baixa produtividade?

  • A baixa qualidade média da gestão e da formação de gestores e trabalhadores;
  • Empresas pouco capitalizadas e muito endividadas;
  • Falta de um mercado de capitais como fonte de financiamento com capitais próprios;
  • Estado burocrático e desorganizado;
  • Empresas burocráticas e desorganizadas;
  • Instabilidade permanente dos contextos fiscal e regulatório, que provocam redobradas cautelas no investimento a prazo;
  • Métodos de trabalho nas empresas baseados na desconfiança e controlo em vez de autonomia e responsabilização;
  • Preferência pelo investimento em negócios rentistas;
  • Canalização de recursos desproporcionais para bens não transaccionáveis como o imobiliário e monopólios naturais;
  • Fraca cultura de concorrência e competitividade;
  • Pouco design e pouca marca própria;
  • Corrupção com o Estado e entre privados;
  • Permanente fricção e tensão entre sindicatos e empregadores;
  • Afastamento dos trabalhadores da gestão;
  • Custos de energia e comunicações acima da média europeia (ver questão da concorrência);
    atraso na implementação de inovação tecnológica (veja-se o atraso da rede 5G);
  • Falta de lideranças políticas e sociais que mobilizem, de uma vez por todas, o país em torno do crescimento económico;
  • Governos mais preocupados com a gestão do dia a dia, com a tesouraria do Estado e com a polémica das últimas horas do que em pensar no médio e longo prazo.

Sabemos isto tudo há demasiado tempo. Mas passam os dias, as semanas, meses e anos e as prioridades têm sido sempre outras. Provavelmente nunca vamos sair daqui, deste rame rame, desta monotonia.

Se assim é, o melhor é assumir que a pobreza nunca sairá dos 18% a 20% onde anda há décadas, que o nível salarial nunca vai deixar de ser medíocre e que a classe média nunca deixará de ser apenas remediada.

Até certo ponto, o Programa de Estabilidade apresentado há semanas pelo governo já o assume. Quando se prevê que em 2024 e 2025 - anos em que os investimentos do Programa de Recuperação e Resiliência estarão em força no terreno - a economia portuguesa vai crescer apenas 2,4% e 2,2%, respectivamente, estamos a atirar a toalha ao chão e a dizer: contentem-se com o que têm porque não virá mais do que isso.

Vamos, portanto, continuar a trabalhar muito mas com um retorno muito baixo. Na minha terra isso tem um nome: trabalhar para aquecer. E aquecer muito pouco.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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