Uma autópsia às contas do Novo Banco

A parte que era suposto correr mal está a correr mal. A parte que era suposto correr bem, também está a correr mal.

Olhamos para o relatório e contas do Novo Banco publicado esta semana e ficamos na dúvida se não estamos a olhar para um relatório de autópsia de um banco que já morreu, provavelmente de enfarte por excesso de imparidades.

Há uma parte das contas do Novo Banco que já sabíamos que ia correr mal porque o balanço estava cheio de créditos e ativos de má qualidade. Por isso é que os norte-americanos do fundo Lone Star, que compraram o Novo Banco, exigiram uma garantia de 3,89 mil milhões de euros para cobrir essas perdas potenciais.

Já vieram anunciar que vão usar 791,7 milhões de euros da garantia pública e do Fundo de Resolução. Se forem inteligentes, e são-no com certeza, vão continuar a ativar esta garantia este ano e nos próximo três anos até esgotar os 3,89 mil milhões de euros que serão pagos com dinheiro dos outros bancos e com empréstimos do Tesouro.

Esta era a parte que era suposto correr mal. Por isso é que norte-americanos exigiram a tal garantia que funciona como uma espécie de desfibrilhador nas contas do banco. Sempre que o banco contabiliza imparidades e prejuízos, a garantia injeta dinheiro para que a instituição continue a respirar.

A parte que era suposto correr bem era a parte operacional e de negócio do Novo Banco. Só que também esta está a correr mal. A economia está a crescer, os outros bancos já regressaram aos lucros, mas as contas do Novo Banco não respiram saúde. A demonstração de resultados é de uma palidez mórbida que nos leva a pensar que se calhar a Comissão Europeia e o BCP tinham razão quando disseram que a instituição não é viável.

O produto bancário caiu 9% no ano passado, o resultado financeiro desceu 23,3%, a margem financeira caiu de 1,10% para 0,89%, e o rácio de transformação deu um tombo de 110% para 88%, o que demonstra que o banco não está a conseguir transformar os depósitos e poupanças de clientes em novos créditos e negócios. Claro que parte deste crédito que desaparece são os write offs provocados pelas imparidades.

António Ramalho, que é um bom gestor, está a tentar animar uma instituição moribunda. Mas como não consegue mexer do lado dos proveitos, tem de ir aos custos, tendo no ano passado fechado mais 64 balcões e mandado para casa mais 608 funcionários, a que se vão juntar mais 440 até abril deste ano. O banco está a encolher. Qualquer semelhança entre o Novo Banco e o BES de outrora é pura coincidência; herdou todos os males e perdeu a dimensão que lhe permitiram disfarçar ou esconder as maleitas.

Aqui chegados, é difícil não nos lembrarmos da ação que o BCP colocou no Tribunal em que questiona a viabilidade de um banco que, além de estar a distorcer a concorrência no mercado, tem uma “viabilidade que não está demonstrada na ausência desse mecanismo [de garantias]”. Nuno Amado falava mesmo num “banco que se não mostra comercialmente viável”.

Também a Comissão Europeia, que sempre defendeu a liquidação do banco, veio este ano dizer que, mesmo sob a alçada do Banco de Portugal, a instituição manteve práticas duvidosas e “créditos de favor” que vinham do tempo de Ricardo Salgado. E nas contas que Bruxelas fez mostrou-se bastante mais pessimista que o Lone Star sobre a viabilidade do Novo Banco.

Quando foi ao ECO24, a vice-governadora do Banco de Portugal Elisa Ferreira dizia que “o Novo Banco foi, desde o fim de 2014, analisado no Mecanismo Único de Supervisão em mais de 20 sessões, cada uma delas com cerca de uma hora de discussão intensa”. Foi totalmente autopsiado? “Em vida, graças a Deus”, retorquia Elisa Ferreira.

Analisadas as contas publicadas agora, chegamos à conclusão que o Novo Banco sobrevive, não “graças a Deus” como dizia a crente Elisa Ferreira, mas porque está ligado a uma máquina de quatro mil milhões de euros de dinheiro alheio.

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