Uma ideia para 2022: olha outra vezpremium

"Olha outra vez" encabeça a minha lista de desejos para 2022: as mudanças que queremos ver no mundo só serão possíveis se, como comunidade, criarmos uma cultura de atenção ao detalhe.

Aconteceu outra vez. Se vejo um filme pela segunda, terceira, décima vez, surpreendo-me com os detalhes em que reparo, sempre acrescentando novidade à história, pormenores à trama, pequenas histórias à narrativa. A verdade é que é sempre assim: à primeira, reparamos no evidente, naquilo que está, muitas vezes, debaixo dos nossos narizes. Acontece com o cinema, com as canções -- conseguimos detalhar versos e entender novos significados sempre que, pela décima vez, os relemos --, com os percursos que fazemos de cor -- lembro-me daquele buraco na calçada que pisava todos os dias, naquele sítio específico, agora preenchido com uma pedra branquinha que parece única na esquadria --, com os livros, com os textos que escrevemos ("como é que eu escrevi aquilo?"). Acontece também com as pessoas: lembramo-nos das que aparecem mais, naturalmente top of mind, ou daquelas que, por algum motivo, marcaram os nossos dias, o nosso percurso.

O ECO desafiou os seus colunistas a escrevem um artigo sobre uma ideia que considerassem relevante para o país e o mundo em 2022. Os textos serão publicados diariamente ao longo dos próximos dias.

Lembramo-nos tanto do primeiro que nos vem à cabeça que, por preguiça ou estratégia de poupança de memória, nos esquecemos que a atenção é um músculo e, em si, uma eterna constante de mudança: ora focada no essencial; ora dispersa no caos da informação e do pensamento; ora à espera de preencher uma to-do list para passar ao próximo tópico.

Escrevo este texto em vésperas do meu aniversário, comemorando altos e baixos numa verdadeira montanha russa. O meu caminho cruza-se, todos os dias, no caminho de outras pessoas que, por partilharem pensamentos, maneiras de ser e de ver, tarefas, rotinas ou, até divergências, passam a pertencer aos meus dias e eu aos delas. No caos dos dias, atropelamo-nos no tanto que temos que fazer, no muito que temos de fazer, permitindo-nos relaxar no olhar com cuidado para os outros e, tantas vezes, até para nós.

Permitam-me o balanço: aprendi muito todos estes anos. A ser assertiva, a falar quando me sinto desconfortável, a contribuir com o que penso, a não me contentar com pouco. Por isso, tento muitas vezes fazer este exercício: pensar outra vez. Se me pedem ajuda, tento encontrar o tempo. Se preciso de ajuda, reclamo esse tempo. Se sonho com algo, trabalho. Se quero, preparo-me. E, mais do que olhar para mim e ver-me, consigo avaliar este caminho pelas pessoas em quem me reflito, de quem sou espelho. É que não sou a única: centenas de mulheres que fui conhecendo, ao longo dos anos, fazem o mesmo. Trabalham mais. Esforçam-se mais. Abdicam mais. Demonstram vulnerabilidade (uma "forma de potência", e não uma fraqueza). Dizem a verdade. Honram as que vieram antes e que, de alguma forma, tornaram as suas trajetórias menos difíceis.

"Olha outra vez" é uma frase em forma de manifesto de diversidade: debaixo dos nossos narizes, uma história; à frente dos nossos olhos, outra perspetiva. Outras.

"Olha outra vez" encabeça a minha lista de desejos para 2022: as mudanças que queremos ver no mundo só serão possíveis se, como comunidade, criarmos uma cultura de atenção ao detalhe, ao que nos passa despercebido, àquilo que, por cultura ou educação, não vemos à primeira. E isso não tem a ver com adiar decisões, "dormir sobre o assunto", tornar os processos mais morosos ou até bloqueá-los. Mas tem sim a ver com criar espaços de segurança e de exposição para todos, onde a vulnerabilidade é uma ferramenta de potenciação de talento e onde todas as pessoas, independentemente do seu género, são tidas em conta para participar, intervir, contribuir, ser parte. Um lugar onde é dado acesso a oportunidades semelhantes, independentemente do sítio de onde vimos. Numa conta, subtrai-se isto, isto e isto, apenas para citar alguns exemplos.

"Olhar outra vez" significa que 2022 deve ser ano de compreendermos que todas as histórias têm dois lados e que o poder de contá-las e de escrevê-las de uma maneira diferente da que conhecemos está nas nossas mãos. "Olha outra vez" é uma frase em forma de manifesto de diversidade: debaixo dos nossos narizes, uma história; à frente dos nossos olhos, outra perspetiva. Outras.

No final das contas, olha outra vez: o ano só muda se tu mudares.

 

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