Voltar à normalidade? Não, obrigado!

  • Sérgio Guerreiro
  • 16 Maio 2020

Gostaria que as dinâmicas, visões e relações que as pessoas foram criando e desenvolvendo entre si, se prolongassem para o pós-pandemia.

Após várias semanas de confinamento a que a maioria de nós tem sido obrigada por força da Covid-19, começamos todos a ter saudades das nossas rotinas pré-pandemia. A azáfama de deixar os filhos na escola e depois ir a correr para o trabalho, a agenda planeada ao minuto, os compromissos, etc..

Tenho partilhado com vários colegas e clientes pontos de vista sobre esta nova realidade e isso leva-me a perceber que, nestas semanas, várias mudanças têm vindo a acontecer na forma como olhamos para a vida, de um modo geral, e para o modo de trabalhar, em particular.

A primeira mudança tem a ver com a queda da barreira do digital. De repente, até os mais avessos às tecnologias renderam-se à inevitabilidade de recorrerem a plataformas digitais para se conectarem, não apenas com os seus familiares, mas também com os colegas. As reuniões virtuais (que de virtuais nada têm!) tornaram-se bem reais e assumiram-se como uma alternativa muito viável e prática para a resolução de muitas questões do quotidiano organizacional. E até me atrevo a dizer que este “novo” formato de reunião aproxima mais as pessoas passando a ser a única alternativa possível para estarmos “juntos” com os nossos colegas, em que cada um está no seu ambiente doméstico e, de repente, damos por nós num registo mais informal que acaba por se manifestar na nossa forma de estar nessa reunião.

Por outro lado, este novo olhar para o digital passou a abrir, em muitos de nós, a possibilidade de estender o uso dessas plataformas a outros domínios para as quais não estaríamos, porventura, tão recetivos anteriormente. Refiro-me ao caso da formação e outros processos de desenvolvimento de competências. As pessoas começam a aderir naturalmente à frequência de cursos online e a inscrição num webinar passa a ser algo banal. De repente, as sessões de coaching à distância começam a ser uma constante, levando-nos também a perceber que poderão ser uma alternativa mais recorrente, mesmo depois do confinamento.

Outra das mudanças prende-se com a liderança das equipas. As atuais circunstâncias reduziram significativamente o espaço de intervenção daquelas chefias que, tradicionalmente, assentam a sua relação com as equipas numa lógica de controlo permanente. Num contexto de teletrabalho essas lideranças ficaram mais limitadas no exercício desse controlo nos moldes de até então, passando a ter que confiar na forma como – à distância – os colaboradores desempenham as suas funções. Essa maior liberdade que a pandemia veio “forçar” obriga a que agora os líderes tenham que demonstrar no dia-a-dia aquilo que muitos deles, em muitas formações sobre liderança, foram recomendados a fazer: confiar nos colaboradores, lançar-lhes outros desafios, comunicar mais regularmente, dar-lhes autonomia.

Por fim, gostaria de destacar uma outra alteração que se prende com a relação entre as pessoas. Refiro-me, sobretudo, às relações profissionais. Sabemos que um dos fenómenos grupais que surge perante uma ameaça ou inimigo externo, é a tendência para esse grupo se tornar mais coeso. E isso desenvolve uma consciência comum que gera maior compreensão e solidariedade entre os elementos. Neste caso, o inimigo externo foi um vírus. E também aqui a resposta a esse inimigo estreitou, globalmente, relações entre colegas, mesmo à distância.

E é por todas estas (e muitas outras) mudanças que a Covid-19 tem provocado, que não gostava de voltar à normalidade. Gostaria que as coisas passassem a ser diferentes. Gostaria que as dinâmicas, visões e relações que as pessoas foram criando e desenvolvendo entre si, se prolongassem para o pós-pandemia.

Voltar à normalidade?… Não, Obrigado! Porque penso que as empresas, as pessoas e a Humanidade tem muito mais a ganhar com uma nova normalidade… no fundo, aquela que já começámos a construir.

* Sérgio Guerreiro é membro da direção nacional da APG

  • Sérgio Guerreiro

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