Menos viagens de avião, hortas urbanas e teletrabalho. Assim será o futuro verde pós-Covid

A pandemia de Covid-19 veio trazer muitas ameaças mas também oportunidades. A associação ambientalista Zero sugere várias medidas para sete setores económicos, com vista a um futuro mais sustentável.

Na visão da associação ambientalista Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável a pandemia de Covid-19 veio trazer muitas ameaças, como o perigo de uma marcha atrás na luta contra as alterações climáticas e o regresso ao business as usual e ao investimento em atividades intensivas em termos de emissões de carbono. Mas, acima de tudo, trouxe também novas oportunidades: a aposta numa economia mais circular, de base local e nacional, a redução dos níveis de consumo, menos deslocações e viagens (sobretudo para o estrangeiro), preparação da sociedade para lidar com outras crises, como a climática e a ambiental.

“Esta crise pode ser superada através da transformação dos modelos socioeconómicos. É um novo mundo de possibilidades que se abre e pode ancorar e ser potenciado por avanços conseguidos nos últimos anos na área das energias renováveis, da mobilidade sustentável, da agroecologia, do repensar dos produtos no sentido de fomentar a sua reutilização e reciclagem”, garante a Zero.

Para isso, a associação ambientalista sugere várias medidas para sete setores económicos. Conheça as propostas da Zero para um futuro mais verde pós-Covid-19.

Turismo

  • De acordo com a associação, o turismo é um setor de elevado impacto ambiental e há um conjunto de compromissos que devem ser assumidos antes da atribuição de apoios para a recuperação.
  • Desenvolver uma nova estratégia nacional para o turismo, assente numa base de maior proximidade geográfica e que valorize os fatores diferenciadores de Portugal face a outros destinos, como a biodiversidade, cultura e gastronomia.
  • Na área da restauração e do alojamento deve ser reduzido o desperdício alimentar e a produção de resíduos. Restaurantes e hotéis que recebam incentivos à retoma devem comprometer-se com um conjunto de objetivos no sentido de virem a ser estabelecimentos zero resíduos.
  • O setor deve assumir um compromisso com os produtores locais/nacionais, para estimular o desenvolvimento de cadeias curtas agroalimentares e de fomentar o consumo de produtos de base local, regional e nacional.

Aviação

  • Com um impacto ambiental negativo muito significativo, o setor da aviação é também um dos que mais sofreu com a atual crise.
  • Os apoios prestados às empresas deste setor devem estar condicionados a contrapartidas obrigatórias como: a aplicação de IVA a 23% aos bilhetes de avião; aplicação de um imposto sobre o combustível, incluindo a forma de uma taxa de carbono; pagamento de IVA do combustível; esforço de redução (e não apenas de compensação) de emissões de carbono da aviação e a inclusão de todas as emissões no médio prazo no comércio europeu de licenças de emissão de todos os voos.
  • Criação de um programa de apoio ao redimensionamento (redução) do setor, promovendo a formação e capacitação dos trabalhadores para poderem mudar a sua atividade para outros setores.

Energia

  • Redução da pobreza energética, através da calafetagem e reforço do isolamento de coberturas e paredes ou através da instalação de equipamentos de elevada eficiência, que permitam aos agregados familiares mais desfavorecidos aceder a uma melhor qualidade de vida.
  • Avançar com um programa ambicioso de apoio à implementação da produção descentralizada de energias renováveis (para produção de eletricidade e aquecimento de águas sanitárias) em instituições públicas, mas também junto dos agregados familiares com rendimentos mais baixos e de Instituições Particulares de Solidariedade Social.
  • Desenvolver programas de crédito bonificado para estimular a aquisição de equipamentos de energias renováveis e de promoção da eficiência energética, dirigidos à população em geral, que incorporem tecnologia portuguesa e europeia.
  • Revisão em alta das metas de incorporação de renováveis.

Mobilidade e Transportes

  • Área fulcral para alcançar o objetivo da neutralidade carbónica e um dos setores onde a mudança tem sido mais difícil, diz a Zero. É um dos setores com maior impacto na saúde pública, pela poluição do ar e ruído.
  • A pandemia de Covid-19 demonstrou o “enorme potencial” associado à utilização do teletrabalho e à realização de reuniões e eventos à distância, uma tendência que deverá continuar como medida de estímulo à sustentabilidade.
  • Programa de incentivos às empresas para fomentarem o teletrabalho, que pode também ser implementado na administração pública. Quanto ao ensino superior, as tecnologias ao serviço do ensino à distância podem fomentar uma mobilidade mais sustentável (através da redução da mobilidade) dos alunos e dos professores.
  • Diminuir a utilização do transporte individual nas estradas e reforçar a oferta de transportes públicos, com a devida segurança sanitária, em particular nos grandes centros urbanos. Com a crise foi reduzida a poluição do ar, o ruído e o congestionamento, o que não se deve perder.
  • Apoios à indústria automóvel devem promover a construção e venda de veículos 100% elétricos, reforçando-se também a infraestrutura de carregamento de veículos elétricos por todo o país.
  • Implementar soluções de alta velocidade nas ligações Norte-Sul e Portugal-Espanha no transporte ferroviário, com ligação ao resto da Europa para reduzir o recurso à aviação, responsável por emissões muito mais significativas.
  • Apoio à indústria de base nacional de produção de bicicletas.

Resíduos

  • Fixação de metas de redução de resíduos urbanos e reutilização de embalagens, tendo em conta a transposição para a legislação nacional de várias diretivas europeias.
  • Aumento da taxa de gestão de resíduos (para 22 euros, o que vai acontecer em setembro) relativa à deposição em aterro e incineração, de forma a dar sinais claros no sentido da prevenção e reciclagem.
  • Aplicação de taxas sobre embalagens de plástico e sobre todos os sacos não reutilizáveis, no sentido de reduzir a sua utilização.
  • Apoiar projetos a nível municipal e intermunicipal de desenvolvimento de estratégias Zero Resíduos.
  • Apoiar a transição das empresas de produção de embalagens e produtos descartáveis e estimular o mercado para reduzir de forma muito significativa a utilização de uso único.
  • Reforçar o investimento público e privado em soluções para o tratamento de vários tipos de resíduos orgânicos que permitirão a criação de uma cadeia de valor, com vantagens no combate às alterações climáticas (redução da emissão de gás metano em aterro).

Agricultura

  • A atual crise veio demonstrar a importância da produção agrícola e abastecimento de âmbito local e regional, com melhor capacidade de resposta às necessidades dos cidadãos (entrega domiciliária) e com um grande aumento de procura (por exemplo na área da produção em modo biológico).
  • Apoiar a reconversão de explorações agrícolas convencionais aos princípios da agroecologia e da agricultura biológica e promover a retirada progressiva de apoios a monoculturas de elevado impacto paisagístico, territorial e de poluição.
  • Promover um forte investimento na conservação da natureza e do solo e na restauração dos serviços de ecossistema.
  • Revitalizar os mercados locais.
  • Reduzir o desperdício de alimentos ao longo da cadeia de produção (com um particular enfoque na área da produção).
  • Estabelecer indicadores objetivos para a eficiência da agricultura, no que respeita à sua pegada (como por exemplo o balanço de uso de energia).
  • Estimular e valorizar a agricultura familiar — em hortas urbanas, por exemplo —, dado o seu potencial de aumento da resiliência dos agregados, em particular os mais vulneráveis, em alturas de crise. Garantir o escoamento dos excedentes desta agricultura, evitando desperdícios e garantindo um rendimento extra às famílias.

Educação

  • Lançar um desafio às universidades, politécnicos e outras instituições universitárias no sentido de alterarem os currículos dos cursos, inserindo de forma transversal o tema da sustentabilidade.
  • Disponibilizar recursos aos educadores dos diferentes graus de ensino tendo em vista trabalhar temas relacionados com a Economia Circular.
  • Promover medidas/programas de sustentabilidade no sistema educativo, possibilitando a introdução mais alargada de programas de ensino à distância, promovendo o transporte escolar em ambiente urbano e a promoção do transporte público coletivo nas camadas mais jovens; e promovendo a reutilização de materiais escolares, incluindo manuais.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Menos viagens de avião, hortas urbanas e teletrabalho. Assim será o futuro verde pós-Covid

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião