• Reportagem por:
  • ECO

Black Friday. “Para o que queríamos, descontos são pequenos”

Na Black Friday, as ruas estão alagadas de clientes cheios de pressa e curiosidade. Nos seus braços seguem muitos e pesados sacos. Ainda assim reclamam: os descontos são poucos e pequenos.

Ao longo da movimentada Rua Augusta, três jovens saltam de loja em loja, partilhando sorrisos e conversas. Nos braços, levam sacos de compras mais ou menos cheios; na mente, a lista de itens a caçar na Black Friday. “Estou aqui desde as 09h00. As lojas ainda nem tinham aberto”, confessa Rita, que equilibra em ambos os braços os “troféus” das últimas seis horas. “Já fomos à Bershka, à Pull & Bear, à Zara, à Sephora. Agora, viemos à Calzedonia e a seguir vamos à Mango”, explica Patrícia. “O melhor é que os descontos não são em artigos selecionados, mas em todos os produtos”, acrescenta Luzia.

Black Friday é sinónimo de grandes descontos? Consumidores parecem discordar dessa expectativa.DR

De jeans e camisolas coloridas, as três amigas vieram aproveitar o período de grandes promoções nascido nos Estados Unidos e trazido, nos últimos anos, para Portugal. “Para o que queríamos e para o dinheiro que trouxemos, os descontos são pequenos”, reclama Rita. “Podiam ser realmente maiores”, continua a amiga Patrícia. “Podiam ser de 30% ou 40% e não estes 20%“, acrescenta. Ainda assim entusiasmadas, as jovens dividem gargalhadas e planos para conseguirem as melhores oportunidades. “Estou contente por estar aqui”, reforça, por fim, Luzia, contrariando as duas amigas que insistem que as promoções são magras de mais.

Do outro lado da rua, perdida na fila fervilhante de consumidores que querem pagar os seus achados na Zara, Catarina concorda com as três jovens: “Os descontos não são muito grandes”. De batom encarnado e brincos compridos a fazer pendant, ressalva: “São sempre uma ajudinha”. Catarina segura no braço direito dois grandes sacos de compras e no esquerdo algumas malhas resgatadas do stock em promoção da gigante espanhola. Garante, contudo, que se ficará por ali. Esta já é a terceira loja que visita e será a última.

Zara, Mango, Calzedonia são algumas das muitas lojas da Rua Augusta que fizeram grandes campanhas de descontos.DR

Já Carmo Leal não promete tal coisa. Veio de Peniche e está desiludida com a conhecida tradição norte-americana, mas ainda tem energia para investigar o que está à disposição. “Eu sou de uma terra onde não há estas grandes lojas, mas parece-me que há muitas coisas dos saldos de outros anos”, queixa-se. “Há poucas peças apetecíveis e, além disso, os descontos não são grande coisa”, concorda. Olha com curiosidade para os casacos adornados com peles falsas, carregando um único saco. As compras? “Foram umas botas, que já tinha planeado comprar”, diz.

Carmo veio com planos fechados à Rua Augusta, tal como fizeram Sara e Naizzel. “Estamos aqui desde as 13h30 e só fomos a duas lojas”, sublinha a segunda. “Já sabia mais ou menos o que queria comprar, por isso consegui fazer uma boa poupança”, realça a primeira. Seguem pouco carregadas — com três sacos de compras entre si — e com a escola à sua espera, por isso o passeio tem de ficar por ali. Vão, no entanto, contentes: conseguiram boas compras e bons descontos, garantem.

Lojas fizeram descontos de 20%, 30%, 40% e 50% nesta Black Friday.DR

Tão sortuda quanto as jovens, foi Lídia, que acaba de comprar uns collants por metade do preço. “A poupança foi de cinco euros. Já tinha planeado comprá-los, mas vim aproveitar os descontos”, declara, com visível pressa para escapar da loja onde os abundantes clientes procuram as melhores pechinchas. “Estamos mesmo aflitas. Tem havido um grande fluxo por causa da Black Friday”, comenta Sofia Silva, funcionária da loja da qual está a sair feliz Lídia.

Nos Estados Unidos, há descontos reais de 50 e 60 por cento. Se as lojas portuguesas quisessem copiar, teriam de aplicar os mesmos cortes. Só fazem publicidade.

João Cruz

Cliente da Worten

A dez estações de metro dessa rua histórica da baixa lisboeta, os sentimentos são os mesmos: “Isto tem sido horrível. Muita gente, sobretudo nas áreas do entretenimento e telemóveis”, adianta Bruna Oliveira, funcionária da Worten do Centro Comercial Colombo. O seu cabelo colorido e divertido contrasta com o seu ar de cansaço. “Isto agora está calmo, mas à noite deve voltar a piorar”, revela, fitando a loja, onde as filas se multiplicam sem limites e o entusiasmo por descobrir os anunciados descontos cresce.

No coração da loja de tecnologia, a secção dedicada aos videojogos está completamente entupida. A promessa de consolas em promoção trouxe clientes famintos por bons negócios. No canto da primeira fila, uma família agrupa-se em torno das novidades desse universo. “A Black Friday ainda é fraca em Portugal”, salienta João Cruz, que está acompanhado pelos seus dois filhos e pela sua esposa. “Nos Estados Unidos, há descontos reais de 50% e 60%. Se as lojas portuguesas quisessem copiar, teriam de aplicar os mesmos descontos. Só fazem publicidade, mas depois não concretizam“, reforça o homem.

Vinte euros. É esse o valor que João Cruz espera poupar na compra de dois jogos, neste dia de promoções, o que não considera satisfatório. Mais à frente, de óculos na ponta do nariz e t-shirt, Rita e o seu namorado estudam a longa fila de smartphones em promoção. Trazem um modelo em mente e esperam poupar 60 euros. “Compensa”, garante a jovem e adianta que vai mesmo levar o equipamento que pretendia.

Os descontos não me movem. São os mesmos que conseguiria na Internet.

Dalila Câmara

Cliente da FNAC

Exatamente um piso acima, é a FNAC que borbulha com consumidores ambiciosos. Os corredores largos da loja de tecnologia e livros estão alagados com caçadores de descontos e não só… Dalila Câmara, por exemplo, faz parte dos que foram apanhados de surpresa por esta promoção. “Não sou de Lisboa. Vim cá e, por acaso, resolvi passar pela FNAC”, conta a mulher, que equilibra precariamente umas armações de metal sobre o nariz. Dalila (que mora em Santarém) tem empilhados sob o braço três volumes: O Senhor das sombras de Cassandre Clare, Cartas de profecia de Anne Bishop e Liberdade e Revolução de Jon Skovron. À semelhança das jovens que saltitam na Rua Augusta e do pai que presenteia os seus filhos na Worten, diz não morrer de amores por estas promoções. “Os descontos não me movem. São os mesmos que conseguiria na internet”, conclui.

FNAC é outra das lojas completamente cheia de clientes, esta sexta-feira.DR

Se nos Estados Unidos estas 24 horas negras que se seguem ao Dia de Ação de Graças inauguram a época de compras para o Natal, em Portugal a história é bem diferente. Tal como os clientes que animam a baixa da capital, Dalila confessa que os artigos comprados não são presentes. “Estes livros não são para o Natal, são lá para casa, para consumo doméstico. São todos continuações”, refere, sorrindo e apontando para as capas coloridas.

  • ECO

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história e às newsletters ECO Insider e Novo Normal.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Black Friday. “Para o que queríamos, descontos são pequenos”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião