Cabeleireiros “cheios”, vendas ao postigo a “meio gás”. Comércio alerta que “guerra ainda não foi vencida”premium

Com o anúncio do plano de desconfinamento, os telefones dos institutos de beleza não pararam de tocar. Agendas estão cheias e muitos espaços optaram por alargar os horários para responder à procura.

Dois meses depois de terem sido forçados a encerrar portas devido ao agravamento da pandemia, alguns estabelecimentos, como cabeleireiros, livrarias e retrosarias, voltaram a receber clientes esta segunda-feira. Se os cabeleireiros e as barbearias de Lisboa e Vila Nova de Gaia não têm mãos a medir para a "enchente de clientes", com agendas "cheias" durante toda a semana, a afluência do comércio ao postigo é menos sentida. Certo é que todos os setores admitem que a "fatura" deste segundo confinamento foi mais penosa do que o primeiro e deixam o aviso: a expectativa para o futuro é "grande", mas "a guerra ainda não está vencida".

Por volta das 10h00 da manhã desta segunda-feira, a fila à porta do cabeleireiro ibeauty , na Avenida de Roma, chamava a atenção de qualquer um. Entre clientes à espera para ser atendidos e outros para fazerem marcações, havia também quem parasse apenas para comentar a movimentação. "Já tem tudo cheio, não?", pergunta uma cliente de passagem. "Já sim, pelo menos até quinta-feira", responde a cabeleireira". "Precisava de cortar e pintar, pelo menos, a raiz, mas eu já cá passo", atira a cliente, seguindo viagem, de passo apressado.

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento em Lisboa - 15MAR21
Hugo Amaral/ECO

Fechados desde o dia 15 de janeiro, agora não tem mãos a medir para os clientes. "Está cheio, cheiíssimo", conta Dalila Gordinho, ao ECO. "As pessoas ainda estão a tentar ligar, mas pelo menos para hoje [segunda-feira, 15 de março] tenho já 10 marcações", atira a cabeleireira. Os telefonemas começaram a "cair" logo depois de na quinta-feira o primeiro-ministro anunciar o plano de desconfinamento ao país. "Tenho marcações para tudo: cortar, nuances, tratamentos".

De certeza absoluta de que isto vai dar a volta. Temos é estar todos de braços abertos para o trabalho. Mas estou convencida de que vamos melhorar a 80% pelo menos.

Dalila Gordinho

cabeleireiro ibeauty, em Lisboa

Para minimizar o impacto do tempo em que estiveram fechados e dada a afluência de clientes, Dalila Gordinho decidiu antecipar o horário de abertura. "Costumo abrir às 10h00, mas hoje abri às 08h00 e vou abrir às 08h esta semana toda", explica. Sem querer entrar em grandes detalhes, a responsável por este cabeleireiro adianta que o "impacto da pandemia foi horroroso" e que "este confinamento pesou mais do que o primeiro". Apesar de assumir que não recorreu a nenhum apoio do Governo e de ter sobrevivido através de capitais próprios, Dalila Gordinho está confiante no futuro do negócio. "De certeza absoluta de que isto vai dar a volta. Estou convencida de que vamos melhorar a 80%, pelo menos", sublinha.

Uns metros mais à frente, na The Barber Company, o cenário é idêntico. "Estamos completamente cheios até quinta-feira. Mas também já temos marcações para sexta-feira e sábado", conta William Silva, funcionário desta barbearia. Situado num dos bairros mais emblemáticos da capital, este espaço previa abrir ao público antes do primeiro confinamento, mas a pandemia travou a abertura deste novo espaço. Com dois funcionários a trabalharem, esta segunda-feira cada um deles já tinha 10 marcações. "Hoje já não temos mais vagas e é mais para cortar o cabelo", explica.

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento em Lisboa - 15MAR21
Hugo Amaral/ECO

Se no início do primeiro desconfinamento o movimento foi "bom", este segundo está a superar todas as expectativas. "Acho que agora a procura é ainda maior", aponta o funcionário, justificando que se deveu à maior interrupção deste confinamento. E nem tudo é mau já que com a reabertura chegam também novos clientes." Pessoas que às vezes não conseguem um agendamento onde costumam ir estavam a vir cá e é uma oportunidade de mostrarmos o nosso trabalho e de conhecerem o processo de higienização do local", sublinha.

Tal como nos restantes estabelecimentos da área da beleza, este espaço só funciona por marcação e segue à risca os procedimentos de higienização, como a desinfeção dos materiais. À entrada, cada cliente tem de desinfetar as mãos, bem como as solas dos sapatos, e além disso é-lhe também medida a temperatura corporal. Se a maioria dos clientes "compreende" as medidas, "um ou outro questiona", mas acabam sempre por ceder. "É obrigatório", atira o William Silva.

Do outro lado da rua, no centro comercial Aqua Roma, a manhã desta segunda-feira foi passada a "gerir as marcações". À semelhança do ibeauty e da The Barber Company, na Maria Loureiro Cabeleireiros, tanto os telefones como os e-mails começara a disparar mal o anúncio do primeiro-ministro. "Felizmente já temos uma a duas semanas completas, isto porque temos muito espaçamento entre clientes", conta ao ECO, Rui Lourenço, responsável de loja, acrescentado que as marcações "têm sido mais para cortes, colorações, manicures e pedicures".

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento em Lisboa - 15MAR21
Hugo Amaral/ECO

Com dois andares e capacidade para receber 11 clientes em tempo de pandemia, o impacto no negócio tem sido "grande", mas tem conseguido "sobreviver" maioritariamente à custa de capitais próprios e com o apoio do programa Apoiar. "Todos os dias estamos a avaliar a situação, não conseguimos prever a longo-prazo. Mas todos os dias avaliamos e neste momento estamos preparados", aponta Rui Lourenço, referindo que o futuro é ainda incerto.

Em Vila Nova de Gaia, estabelecimentos de estética não têm mãos a medir

O país voltou a desconfinar esta segunda-feira a conta-gotas e em Vila Nova de Gaia já se sente a azáfama. Depois de dois meses encerrados, os barbeiros, cabeleireiros e manicures voltaram a abrir portas e o sentimento é de felicidade e esperança. As agendas estão praticamente lotadas e desde o momento que o primeiro-ministro anunciou a abertura destes espaços, os telefones não pararam de tocar. Os clientes estavam desejosos de conseguirem as primeiras marcações.

Na barbearia DiBlackBarber&Shop em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia, as portas abriram antes das dez da manhã e os funcionários - um barbeiro e uma barbeira - não têm mãos a medir. O funcionário da DiBlackBarber&Shop, Guilherme Cavalcante, confirma ao ECO que no momento que António Costa anunciava ao país a abertura destes espaços, "o telefone e o whatsapp começaram a tocar imediatamente".

O funcionário da DiBlackBarber&Shop conta que a agenda está bem composta e que só têm algumas vagas a partir de quarta-feira. "Hoje esta impossível de fazer marcação e já nem conseguimos atender o telefone", constata.

Artur Pereira, cliente da DiBlackBarber&Shop, foi o primeiro a ser atendido nesta reabertura e confessa ao ECO que mal soube da notícia da abertura mandou imediatamente uma mensagem para garantir um corte de cabelo. "Foi muito tempo sem cortes e o cabelo é a maquilhagem do homem. Um corte melhora a autoestima. Eu não consigo estar muito tempo sem cortar o cabelo e já estava a ficar realmente triste", refere o cliente da DiBlackBarber&Shop que já não cortava o cabelo desde que o país voltou a confinar, em janeiro.

Em relação à retoma, para o barbeiro da DiBlackBarber&Shop a expectativa de retoma é grande, mas alerta que todo o cuidado é pouco. "A expectativa é muito grande, mas é preciso ter cuidado porque a guerra ainda não foi vencida. Se as pessoas não tiverem cuidado é bem provável que voltemos a fechar novamente e será muito mais doloroso o encerramento", afirma o barbeiro Guilherme Cavalcante que conta com quatro anos de experiência no ramo.

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento no Porto - 15MAR21
DR

Já é a segunda vez que estes espaços são obrigados a fechar em menos de um ano. Para o barbeiro da DiBlackBarber&Shop, este confinamento teve um impacto económico superior e acabou por ser mais penoso. "Sentimos muito mais a dificuldade no negócio neste segundo lockdown", refere Guilherme Cavalcante.

Uns metros mais à frente da barbearia DiBlackBarber&Shop, o ECO encontrou o cabeleireiro Versátil. A proprietária do salão, Maria Magalhães, afirma com contentamento que a "agenda está completamente cheia" e que está "muito contente" com esta reabertura. À semelhança da barbearia DiBlackBarber&Shop, a proprietária do salão conta que ainda não estava confirmada a abertura e que já tinha clientes a ligarem e a dizer "graças a Deus que isto já vai abrir e que vou conseguir cortar o cabelo". Apesar do sentimento de felicidade, deixa bem claro que ainda hoje não entende porque é que os cabeleireiros encerram.

"A minha profissão deveria fazer parte da higiene. Na primeira pandemia os especistas alertaram que os cabelos e barbas deviam andar bem lavados e cortados e que fazia parte do protocolo de higiene. Já não digo pintar, fazer extensões e esse tipo de trabalho mais complexos, agora lavar cabeças e cortar cabelos nunca deveria ter sido proibido", afirma a proprietária do salão de cabeleireiro Versátil.

Maria Magalhães afirma que se existem pessoas que andam sempre com as mãos na água, os cabeleiros são esse exemplo. "Fico revoltada quando dizem para lavarmos muito bem as mãos. Não são só as mãos, e os cabelos? Isso faz parte da higiene das pessoas. Não tem cabimento nenhum fechar os cabeleireiros e manter as casas de produtos de cosmética abertos, é inadmissível", afirma com indignação.

"Isto não é justo. Houve muita coisa aberta que não fazia parte dos bens essências". Alerta para os hipermercados que, na sua ótica, são locais propícios a contágio. "Nos supermercados e hipermercado é tudo ao molho e fé em Deus, a operadora da caixa está muito perto do cliente, não existe a desinfeção de cliente para cliente", destaca Maria Magalhães. Acrescenta que "estes espaços nunca fecharam porque dão muito dinheiro a ganhar ao Governo, enquanto os pequenos não".

A proprietária do salão de cabeleireiro Versátil sugere que as compras sejam entregues em casa dos clientes sem taxas adicionais. "Era uma forma de evitar as filas, os ajuntamentos e um possível contágio", constata. Garante que no seu espaço é tudo desinfetado logo após a saída da cliente e que não entra mais ninguém para além da cliente e da cabeleireira. "O perigo não está aqui", afirma Maria Magalhães.

A expectativa é muito grande, mas é preciso ter cuidado porque a guerra ainda não foi vencida. Se as pessoas não tiverem cuidado é bem provável que voltemos a fechar novamente e será muito mais doloroso o encerramento.

Guilherme Cavalcante

DiBlackBarber&Shop Santo Ovídio

Questionada sobre se este confinamento foi mais difícil que o anterior, não tem qualquer dúvida. "Este confinamento foi muito mais difícil e doloroso que o primeiro. Muitas lojas já nem vão abrir", conta a proprietária do salão de cabeleiros.

Em relação aos apoios do Executivo, a cabeleireira está completamente indignada com o montante que recebeu, nada mais, nada menos, que 60 euros em dois meses de confinamento. "Gostava de perguntar ao Governo se ele se governa com 60 euros?, questiona. "É muito bonito vir para a televisão dizer que ajudam. Não ajudam nada, ajudam são os grandes, os pequenos ficaram esquecidos. À custa da desgraça de uns, enriquecem os outros", afirma com descontentamento.

A proprietária do salão de cabeleiro Versátil confessa que no primeiro confinamento, na primavera do ano passado, os apoios, embora insuficientes, foram melhores. Maria Magalhães confessa que não conseguiria manter o negócio por muito mais tempo. "Não dava para aguentar mais. Estou aqui, agora, porque tenho família que me ajudou e tenho a sorte de ter uma senhoria que não cobrou as rendas em atraso".

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento no Porto - 15MAR21

Lígia Galão é a senhoria do espaço Versátil. Nestes tempos difíceis teve a sensibilidade de ligar para Maria Magalhães a dizer que não se preocupasse com as rendas em atraso. "Reconheço que neste momento existem muitas pessoas a passar dificuldades para conseguirem ultrapassar esta crise que é dramática, como por exemplo a minha inquilina Maria Magalhães", diz a senhoria do cabeleireiro.

A senhoria conta ao ECO que no momento que o país voltou a confinar pela segunda vez, ligou imediatamente à sua inquilina porque sabia a dificuldade que ela ia ter. "Disse-lhe para ela não se preocupar com as rendas em atraso e que depois resolvíamos da melhor forma essa situação", refere Lígião Galão.

A senhoria do salão teve 20 anos neste espaço como florista e diz ao ECO que sabe o que é passar dificuldades e que já esteve na mesma situação na altura que a troika chegou a Portugal. "Sei o que é atravessar esta dificuldade de chegar ao final do mês e não ter dinheiro para pagar as contas. Facilito porque entendo que temos todos que ajudar". Lígia Galão refere que no primeiro confinamento chegou mesmo a perdoar um mês de renda do espaço.

À semelhança da barbearia DiBlackBarber&Shop e do cabeleireiro Versátil, o centro de estética Bárbara Beauty Design está com a agenda praticamente cheia. A proprietária, Bárbara Diogo, conta ao ECO que tem imensas marcações e muitas clientes à espera de uma vaga. Tal como o barbeiro e o cabeleireiro diz que ainda não estava confirmada a abertura e já tinha o telefone a tocar para agendar marcações.

Este é o caso de Patrícia Rocha, cliente do centro de estética Bárbara Beauty Design. "Logo após a confirmação que os centros de estética iam reabrir fui logo a correr para o telefone para fazer a marcação para fazer as unhas. Estava a "ressacar" cuidados de estética", conta Patrícia Rocha que foi a primeira cliente nesta reabertura do salão de estética. "Fiquei muito contente com esta reabertura até porque adoro ter as unhas arranjadas, adoro olhar para as minhas mãos e sentir que estão bonitas. É bom para a autoestima", destaca.

Tal como a cliente, a proprietária do salão de estética Bárbara Beauty Design também diz-se sentir "muito feliz" com esta abertura, embora tenha receio de um novo confinamento. "Espero sinceramente que isto resulte e que as pessoas cumpram as regras para não voltarmos a fechar outra vez. Esse é um dos meus maiores receios", refere Bárbara Diogo.

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento no Porto - 15MAR21
DR

Barbara Diogo abriu o centro o ano passado na altura do desconfinamento, mas acredita que este confinamento tenha sido mais penoso para colegas na mesma área. "Existem espaços que ainda não conseguiram reerguer-se do primeiro confinamento e tiveram que voltar a confinar. Acredito piamente que este confinamento foi bem pior que o primeiro", salienta a proprietária do salão de estética.

Em relação aos apoios, a proprietária do Bárbara Beauty Design refere que teve apoio do Estado porque trabalhava por conta de outrem, mas garante que os "apoios são para esquecer e nem para pagar renda do espaço servem". Apesar das agendas estarem completamente lotadas, os intervenientes ouvidos pelo ECO consideram os apoios do Estado insuficientes e garantem que este segundo confinamento foi mais penoso que o anterior.

Vendas ao postigo com menor afluência

Esta segunda-feira também alguns estabelecimentos de comércio local puderam voltar a abrir portas, ainda que só ao postigo. Ao contrário do que aconteceu nos estabelecimentos de estética, a afluência foi menos sentida até porque a venda ao postigo de certos artigos é mais "complicada". "É bastante complicado. Acho que era possível [ter clientes em loja] com lotação mínima um ou dois clientes", assinala Ricardo Ferreira, um dos proprietários da retrosaria Avenida 7, na perpendicular da Avenida de Roma, em Lisboa.

O movimento não é aquele que estávamos à espera, mas esperemos que isto vá melhorando com o tempo.

Carolina Belo

Lucy's Kids

A opinião é partilhada por Carolina Belo, uma das proprietárias da loja Lucy's Kids, também em Alvalade. "O movimento não é aquele que estávamos à espera, mas esperemos que isto vá melhorando com o tempo", aponta a responsável pela loja de brinquedos, antecipando que esta manhã ainda só recebeu duas clientes. Entre as grandes dificuldades sinalizadas por Carolina Belo relativamente à venda ao postigo está o facto de esta ser "uma loja de impulso", pelo que "os clientes vão entrando, vão vendo e compram. Portanto ao postigo é sempre mais complicado, mais mais vale isto do que nada", sublinha.

Cabeleireiros, barbeiros e comércio não essencial reabre após confinamento em Lisboa - 15MAR21
Hugo Amaral/ECO

Para este setor termina agora o segundo confinamento que chegou quando ainda estavam a recuperar do primeiro. "No primeiro [confinamento] ainda tínhamos alguma margem de manobra, com o segundo quando as coisas já estavam a arrancar, tivemos que ir novamente às economias e foi mais complicado", admite Ricardo Ferreira. Ao mesmo tempo Carolina Belo destaca que o facto de as pessoas já estarem preparadas para este encerramento, bem como o facto de haver "muita gente desempregada" penalizou ainda mais o negócio. Quanto ao futuro, a expectativa é grande, ainda assim os comerciantes mantêm a cautela. "Não estava nada à espera do segundo confinamento, por isso nesta altura já não ponho as mãos no fogo por um terceiro", diz Ricardo Ferreira.

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