Volta a Portugal em incubadoras: o triângulo amoroso que funciona

Criado como uma casa para três institutos, o i3s é especializado em investigação e inovação médica: já tem 22 patentes registadas ativas.

Etapa 5: De etapa em etapa, a sexta paragem desta Volta a Portugal em incubadoras é na Invicta. A pedalada de 224 quilómetros, desde Torres Novas, permite-nos regressar ao Porto para conhecer o Instituto de Investigação e Inovação, um 3 em 1 institucional que junta pessoas e valências para quem a investigação é a especialidade. Preparem-se: a viagem começa agora.

Infografia: Raquel Sá Martins

A enorme porta de vidro deixa adivinhar a transparência — e as revelações no interior do edifício — mas basta tentar empurrá-la para sermos chamados à razão, vulgo realidade. Do lado direito, o segurança pede as identificações. A entrada é feita a conta-gotas, com credencial de visitante e encaminhada para uma espécie de sala de espera chamada “cafetaria”. É ali, com vista para o jardim, que se espera pelos ‘residentes’.

Estamos em pleno campus universitário da UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto. O edifício cinzento parece “não terminado” e, na verdade, o que ali se faz é sempre um work in progress. As altas paredes são de cinzento queimado e, por opção do arquiteto, mantiveram a cor original de betão. O que, a alguns dos ‘moradores de todos os dias’, parece estranho, confidenciam.

Modernices!, pensarão alguns. Inaugurado oficialmente há pouco mais de um ano, o i3s – Instituto de Investigação e Inovação em saúde é, em teoria, um consórcio liderado pela Universidade do Porto e que junta escolas e investigadores de várias universidades e institutos parceiros em “extrema colaboração” durante vários anos e que, a partir de determinada altura, se juntaram debaixo do mesmo teto. Só que o ‘casamento’ implicou muito mais do que juntar trapos e escovas de dentes. Aqui, entre os laboratórios, a biblioteca, os jardins, os auditórios e as salas de reuniões, fazem-se patentes, descobertas e revelações. Muito mais do que a porta de vidro revela.

Investigadores portugueses e estrangeiros passam grande parte do tempo na biblioteca do i3s.José Pedro Tomaz/ECO

“Fazemos obviamente parte do universo Universidade do Porto. O que temos cá são mais ou menos 1.100 pessoas, entre 450 doutorados, 250 alunos de Doutoramento. É, de facto, um instituto de investigação e inovação porque acreditamos que, muita da nossa investigação tem capacidade para ser valorizada, transferida e transportada para benefício da sociedade, dos médicos e sobretudo dos pacientes”, começa por explicar João Cortez, responsável pelo programa Resolve, desenvolvido pelo i3s, bem como pela unidade de transferência de tecnologia do instituto.

3 em 1

Pensado como casa para três, o i3s é um instituto de investigação e inovação que junta docentes e investigadores do IPATIMUP (investigação na área do cancro), do INEB, na área das biomédicas e o IBMC, dirigido à biologia molecular e celular. Mas pouco depois da abertura, o i3s decidiu crescer e abrir-se ao mundo.

Sofia Esteves, Bárbara Macedo e João Cortez (na foto), integram a equipa de cinco pessoas na gestão do Resolve, da qual fazem também parte Hugo Prazeres e Margarida Rossi.José Pedro Tomaz

Com 22 patentes ativas e seis spin-off, o i3S decidiu dar um passo em frente e lançar o Resolve. Da primeira call do programa — lançada a 1 de maio de 2016 e dirigida a investigadores de todo o mundo que queiram fixar o seu projeto de investigação no Porto — já estão a ser apoiados sete projetos, incluindo duas spin-off. O processo de seleção passa por um registo online, através do preenchimento de um formulário. “A nossa equipa Resolve faz um prescreening que vai eleger quem depois vão ouvir, conversar, selecionar com base em toda a informação disponível”, explica João.

A fase final do processo de seleção envolve um júri externo ao i3s, esclarece o responsável. “Um passo interessante é que nós temos um processo de diagnóstico logo ali: estes júris externos produzem um pequeno relatório do que eles acham que são as grandes necessidades da equipa em termos de ajuda, e também quais é que acham que serão as ferramentas que temos disponíveis mais adequadas. Fazem-nos um diagnóstico prévio da equipa. Depois confrontamo-los, em detalhe, com esse diagnóstico e começamos a trabalhar para perceber as ferramentas mais adequadas. Outras precisam de todas as ferramentas”, explica.

Depois do desenvolvimento necessário, o Resolve apoia os investigadores, quer escolham a vertente de patentes ou de licenciamento. “As nossas [i3S] patentes em licenciamento ou já vendidas renderam vários milhões. No Resolve, a escolha é feita analisando a via mais apropriada para a equipa e para a tecnologia, porque consideramos que nem todos os investigadores precisam de ser empresários ou empreendedores”, adianta João.

Assim, no instituto funciona um observatório de open innovation na área da saúde: duas grandes empresas que fazem soluções de tecnologia lançam uma proposta de procura, e as pessoas concorrem. “Através desse processo estamos a mostrar às nossas equipas não só que têm mercado para aquilo que procuram, como também a proporcionar-lhes a oportunidade para oferecerem as suas competências”, esclarece João. Finalmente, ao contrário do que fazem os aceleradores, o i3s oferece as duas saídas para negócio: via criação de spin-off (com encontros com investidores) ou licenciamento. “Muitas delas falham porque não têm o acompanhamento ajustado e rápido à tecnologia ou ao melhor licenciador. Temos uma carteira de clientes nossos, sabemos os caminhos certos, pomos as pessoas em contacto com os licenciadores corretos e mediamos o processo. A lógica é essa: fazemos validação de mercado e validação de tecnologia. Não queremos apenas dar um cheque às pessoas: o que oferecemos é uma espécie de passaporte de serviços, que faz a mediação de um plano de execução desses ensaios, ajudamos a preparar com a equipa e com o sítio onde isso será feito e pagamos o serviço.”

"A partir daí desenhamos com todas as equipas um roadmap, não só com as provas de conceito para a aplicação das ferramentas que forem selecionadas. Estas provas de conceito podem ir desde um valor de 20.000 a 75.000 euros por cada projeto, para executar durante os 12 meses.

João Cortez

i3s

“Quisemos maximizar as competências internas: somos um instituto de saúde com um ambiente com grandes capacidades internas, de conhecimento e competências, metodologias analíticas, provas de conceito em animais. Quisemos tornar o i3s um centralizador de saúde na zona norte. Por isso, se as tecnologias puderem ser validadas ou demonstradas aqui, ótimo. Caso contrário, dirigimos as pessoas ao centro que melhores competências oferece para as suas provas de conceito”, detalha João Cortez.

Cientistas, docentes e investigadores de três institutos juntam forças no i3s.José Pedro Tomaz/ECO

Daí a aposta em parcerias como os hospitais de Santo António e S. João, no Porto, ou a procura de parceiros para validação animal em condições de boas práticas laboratoriais (Good Lab Practises). “Portugal tem deficiência, de facto: executar uma prova de conceito num modelo animal seguindo uma série de normas chamadas boas práticas de laboratório é caro para certificar, caro para manter a certificação. Em Portugal não há financiamento para isso e, por outro, não há dimensão. Há algum investimento inicial mas existe uma série de empresas que o fazem a um nível europeu: estamos a ter de bater à porta dessas empresas a fim de pedir orçamentos. Temos de ir por instituições que façam esta prova de conceito das equipas”, conta.

O programa funciona com base num plano que desenhámos com sete ferramentas. Em que pensámos? Quisemos encontrar um gap no mercado em que, de facto, fizéssemos diferença. E encontrar o nosso nicho para termos o maior impacto possível para os investigadores.

João Cortez

i3s

“Eu acabo o meu projeto da FCT, de investigação. Tenho uma ideia que até consigo mostrar no laboratório que funciona. E depois, financiamento? A FCT já não financia mais. O que é que eu tenho como alternativa? O que há como opção a partir daqui? O projeto implica uma empresa com quem vou trabalhar ou tenho de ir para um consórcio internacional que me permita fazer isto? São poucas as opções em que eu, como investigador, consigo encontrar um financiamento adicional que me permita validar ainda mais a minha tecnologia mas já à frente do laboratório”, explica João Cortez. É precisamente nesta fase que o i3s intervém: na passagem de “um modelo válido e reconhecido testado e aplicado aos humanos”.

“Financiamos uma validação num animal de grande porte que é a forma aceitável antes de entrar nos humanos: o caso das ovelhas, por exemplo. Estes ensaios, no caso das ovelhas, precisam de ser feitos seguindo uma série de normas. (…) Vamos sentindo essas lacunas no dia-a-dia com os nossos investigadores, e foi isso que quisemos proporcionar. Por saber de experiência-efeito onde está a lacuna”, explica.

O apoio foi dado, por exemplo, a Mario Espinoza e Frederico Carpinteiro, fundadores da Addaptech, incubada na Founders Founders mas a viver entre o edifício da rua da Constituição e a investigação nos laboratórios do i3s.

Mario e Frederico fundaram a Addaptech.José Pedro Tomaz/ECO

"Desenhar para o futuro um programa que acompanha, antes e depois, é oferecer às equipas mais apoio: patentes, proteção de propriedade intelectual, design de produto, branding.”

João Cortez

i3s

Em relação ao planos para o futuro, João Cortez assegura que o próximo passo é fazer evoluir o programa para um Resolve +, uma espécie de versão 2.0.: “Vamo-nos apercebendo que o ideal seria ter mais algumas ferramentas à disposição destas equipas. Queremos oferecer este programa a todo o país e, não só aqui no norte. Esperamos conseguir financiamento que nos permita abrir o programa a todo o país. E, quem sabe, tornar isto um mecanismo adaptado a nível europeu”.

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