Será Lisboa a próxima capital tecnológica? The Guardian diz que sim

  • Ana Luísa Alves
  • 31 Outubro 2016

A cimeira do Web Summit vai marcar presença em Portugal este ano e nos próximos três. Será isto um sinal de que Lisboa reúne as condições necessárias para ser a próxima capital da tecnologia?

As comparações entre Lisboa e S. Francisco são, segundo o The Guardian, evidentes, e vão muito além da ponte (como é o caso da 25 de Abril), do elétrico ou das boas ondas para surfar. O jornal inglês diz que Lisboa tem vindo a preencher os requisitos para se tornar a próxima capital da tecnologia. Um dos passos dados nessa direção é ser o palco de mais uma edição do Web Summit, que decorre entre 7 e 10 de novembro, na capital portuguesa.

O evento é descrito como o “Glastonbury para os geeks”. Ainda assim, pode vir a revelar-se bastante lucrativo para Lisboa, atraindo mais de 50 mil pessoas de todo o mundo para ouvir os oradores internacionais, que vão do fundador do Tinder ao do CTO do Facebook, passando por nomes como o do futebolista Ronaldinho Gaúcho. Segundo o The Guardian, um evento como este pode ainda trazer para a economia Lisboeta 200 milhões de euros, além da reputação conferida à cidade.

Rendas mais baratas, o cenário cultural em ascensão, muitas horas de luz solar e elevada qualidade de vida podem ser alguns dos fatores que atraíram o talento jovem de todo o mundo a fixar-se na capital, nos últimos anos, ainda que o país viva nas sombras da crise financeira de 2007-2009 e o crescimento económico seja mais lento do que o esperado.

Manuel Caldeira Cabral, ministro da economia, esteve na passada quarta-feira a ouvir as preocupações de dezenas de jovens empreendedores no Museu da Eletricidade, e “sorriu” às semelhanças apontadas entre S. Francisco e Lisboa.

"Acho que a Califórnia é soalheira como Lisboa. E a nossa ideia é promover uma economia baseada no conhecimento e numa comunidade empresarial que está a aumentar.”

Manuel Caldeira Cabral

Ministro da Economia

Enquanto o Governo está a construir instrumentos financeiros para impulsionar as startups nacionais e atrair empresas estrangeiras como as do Reino Unido ou dos EUA, Lisboa está a desempenhar um papel-chave na regeneração económica do país.

“Estamos a atraí-los por diversas razões: porque temos um sistema de financiamento, um cenário competitivo para as startups, mas também devido ao estilo e qualidade de vida que os empreendedores encontram aqui”, acrescentou o ministro da economia.

Ridhi Kantelal, uma empreendedora de 26 anos, deixou Portugal para estudar e trabalhar no estrangeiro. Mas uma visita a casa persuadiu-a a voltar e a deixar o seu emprego como consultora em Londres. Já em Portugal criou a Noxidity, uma startup que usa sensores inteligentes para alertar acerca da corrosão da maquinaria industrial.

“Apercebi-me da quantidade de talento tecnológico que existe em Portugal”, explicou Ridhi, que considera que a atração existente em Lisboa vai além daquilo que está à vista de todos. “Toda a gente fala inglês, há muito talento, e o custo de vida é muito mais barato do que em Londres. Aqui consigo, com o que ganhava em Londres, viver melhor e ainda ir duas vezes ao Reino Unido por mês”, explica Ridhi ao jornal britânico.

Mas isto não é tudo. João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria e ex-diretor da incubadora Startup Lisboa, refere que não é só o ministro da Economia a tentar perceber o que se está a passar com Lisboa. “Para alguns é como se fosse Berlim, mas com sol. Para outros é Silicon Valley. Mas não é nenhum dos dois. Isto é Portugal e isto é Lisboa”, referiu o secretário de estado.

"Para alguns é como se fosse Berlim, mas com sol. Para outros é Silicon Valley. Mas não é nenhum dos dois. Isto é Portugal e isto é Lisboa”

João Vasconcelos

Secretário de Estado da Indústria

Para João Vasconcelos, o “renascimento” da cidade é parte de uma longa tradição de construção de laços internacionais, uma tradição que foi interrompida pelos anos de ditadura, revolução e, mais recentemente, pela crise económica. “Temos 500 anos de história em que lidámos com culturas diferentes e pessoas diferentes: é possível encontrar um português em todos os continentes”, acrescentou. “É algo que temos feito, e bem, desde o século XVI. E estamos a fazê-lo de novo com o empreendedorismo e as startups”.

Parte das startups que, na passada quarta-feira, foram até ao Museu da Eletricidade agradeceram os esforços do Governo para impulsionar a indústria tecnológica. No entanto, Joana Rafael, da Sensei, uma startup analítica, diz que a legislação laboral portuguesa precisa de ser reformulada.

“Estando à frente de uma startup, seria bom ter alguns benefícios para quando contratamos pessoas altamente qualificadas, ao nível dos salários e da Segurança Social”, explicou Joana Rafael. “Estamos a investir em criar um produto que não tem receita nos primeiros estádios de desenvolvimento, e seria bom ter o apoio do Governo ou financiamento público”, acrescenta.

Texto editado por Mariana de Araújo Barbosa.

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