Aprendemos com a crise? Carlos Tavares diz que não

Excesso de endividamento, tomada de riscos em demasia pelos agentes e pouca transparência nos mercados. Para Carlos Tavares, que está de saída da CMVM, pouco aprendemos com a crise financeira de 2008.

Aprendemos com os erros da crise financeira de 2008? Muito pouco ou quase nada, responde Carlos Tavares, presidente cessante da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), considerando que o mundo enfrenta hoje em dia uma situação muito semelhante àquela que levou à maior crise financeira e económica mundial em muitas décadas.

Num artigo científico publicado esta segunda-feira na CMVM, intitulado “A crise financeira: aprendemos as lições?”, o ainda presidente do regulador do mercado de capitais português concluiu que “encontramos hoje situações preocupantemente paralelas às que precederam os acontecimentos de 2007-2008”.

“São os casos do comportamento dos preços de vários ativos financeiros e reais, do excesso de endividamento da generalidade dos agentes, da disseminação e tomada de riscos excessivos por diversas categorias de investidores e da subsistência de partes substanciais dos mercados com défices de transparência“, explica Tavares.

Carlos Tavares considera que mesmo a ação dos bancos centrais mundiais, ao querer impulsionar as economias lançando liquidez na economia na sequência da crise, tem potenciado novos riscos nos mercados financeiros. “Vimos como a política monetária adotada em reação à crise tem contribuído para gerar novos riscos. Nova é também a situação de parte significativa dos riscos (sobretudo de taxa de juro) acumulados no mercado obrigacionista estarem nos balanços muito ampliados dos bancos centrais, o que, além do mais, representa um constrangimento à prossecução dos seus próprios objetivos”.

Sobre a atuação das autoridades internacionais na prevenção de novas crises, a opinião do futuro ex-presidente da CMVM também não é positiva. Se há hoje uma melhor perceção e conhecimento acerca dos riscos, já a resposta dos agentes no sentido de reduzi-los tem sido, no mínimo, deficiente: “Em particular, a visão das autoridades de supervisão de mercados e as dos supervisores prudenciais e dos bancos centrais nem sempre têm sido coincidentes e articuladas”.

“Não há bons modelos que resistam às más pessoas”

Carlos Tavares aproveitou ainda o working paper para se referir ao papel dos legisladores, reguladores — como a própria CMVM — e supervisores. Se aprenderam as lições da crise? “Acontece que as suas ações, por melhor que sejam, nunca serão suficientes para evitar crises financeiras”, afirma. “O papel principal será sempre o dos agentes do mercado — instituições financeiras, auditores, agências de rating, etc — que por comportamentos inadequados foram de fato os causadores da crise que ainda vivemos”, sublinha.

Neste âmbito, diz Tavares, “não há bons modelos que resistam às más pessoas” pois, “no final, tudo acaba por desembocar na questão essencial: a qualidade profissional e ética das pessoas que atuam nos mercados financeiros”.

“Porque por muito perfeitos que sejam os modelos de governo societário ou os modelos de supervisão, eles valerão de muito pouco se forem postos em prática pelas pessoas erradas (…) E é por isso que todos — mas mesmo todos — os que têm responsabilidades nos mercados financeiros não devem cansar-se de formular e procurar a resposta para a simples pergunta: aprendemos com os erros passados?”, questiona Carlos Tavares.

 

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