Como reage Wall Street aos Presidentes eleitos? E em Portugal?

Trump está a causar sensação nos mercados mundiais. Como vão reagir os investidores norte-americanos até à tomada de posse do republicano? E que efeito tem Marcelo Rebelo de Sousa no PSI-20?

Poucos pensariam que ao rally de mais de 13% no S&P 500 entre o momento em que o republicano Herbert Hoover foi eleito Presidente dos EUA, a 6 de novembro de 1928, e a sua tomada de posse, a 3 de março de 1929, iria suceder um dos episódios mais negros na bolsa norte-americana. Cerca de oito meses depois, a 29 de outubro, Wall Street entrou em profunda desgraça. Esse dia ficou para sempre celebrizado como a Terça-feira Negra, data que marcou o início de uma das mais graves crises económicas nos EUA, a Grande Depressão.

Ainda assim, foi com Hoover que os investidores mais se entusiasmarem no período entre a sua eleição e a tomada de posse. Foram cinco meses de euforia que levaram o S&P 500 a registar uma subida de 13,29%. Nenhum outro Presidente norte-americano registou um desempenho tão positivo na história da bolsa dos EUA, segundo os dados compilados pela MarketWatch.

Desempenho do S&P 500 entre a eleição e posse

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Fonte: MarketWatch (valores em percentagem)

Do lado negativo, é Barack Obama quem protagoniza o pior registo. Estávamos em janeiro de 2009 quando o democrata tomou posse para suceder a George W. Bush (o filho), numa altura em que a crise do subprime já tinha tombado vários bancos norte-americanos, com sérias implicações na atividade da economia. Entre as eleições que o indicaram como o primeiro inquilino negro da Casa Branca e a investidura, o índice de referência tombou quase 20%.

“A realidade é que se a economia está forte e não em recessão (como em 2008) ou a cair em recessão (2000), na maior parte das vezes os retornos foram bastante positivos no S&P 500”, referem os analistas da LPL Financial. E acrescentam: “Tendo em conta o atual estado da economia, temos provavelmente a melhor economia que um presidente eleito vai receber como herança desde Bill Clinton, em 1992. Isto poderá ser uma mais-valia para as ações depois desta eleição” em que Donald Trump levou de vencida a candidata democrata, Hillary Clinton.

"A realidade é que se a economia está num pé forte e não em recessão (2008) ou a cair em recessão (2000), na maior parte das vezes os retornos foram bastante positivos no S&P 500. Tendo em conta o atual estado da economia, temos provavelmente a melhor economia que um Presidente eleito vai receber como herança desde Bill Clinton, em 1992. Isto poderá ser uma mais-valia para as ações depois desta eleição.”

Analistas da LPL Financial

MarketWatch

E esse facto tem permitido que neste rescaldo das presidenciais norte-americanas, perante a expectativa de uma grande injeção de dinheiros públicos nomeadamente nas infraestruturas, os mercados acionistas tenham registado fortes valorizações. Apesar do stress logo após a vitória de Trump, as bolsas dos EUA têm disparado. O Dow Jones tocou máximos históricos consecutivos e o S&P 500 tem espreitado recordes. O Nasdaq, não. Mas a tendência começa a inverter-se.

Mário Soares, o Hoover do PSI-20

Os mercados norte-americanos são muito sensíveis às presidenciais. O português, não. A influência do Presidente da República na política orçamental está bastante longe de poder ser comparada com o impacto que o presidente norte-americano tem — aqui a política orçamental está do lado do Governo, enquanto o Presidente é garante do regular funcionamento das instituições democráticas. Ainda assim, o ECO replicou o mesmo exercício: entre a eleição e a tomada de posse, qual foi o Presidente mais querido pelos investidores?

Foi com Mário Soares, já a caminho do seu segundo mandato, que o bolsa portuguesa mais ganhou. Entre 13 de janeiro de 1991, dia em que Soares foi reeleito, e a tomada de posse, a 9 de março, o índice geral português somou 12,1%. Um desempenho melhor do que aquele que se observou em 2006, quando Cavaco Silva conquistou Belém a 9 de março. Até à tomada de posse, o índice valorizou quase 8,9%.

Desempenho da bolsa de Lisboa

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Fonte: Bloomberg (Valores em percentagem)

Apenas com Jorge Sampaio é a bolsa portuguesa registou uma performance negativa. Entre a reeleição do socialista em 14 de janeiro de 2001 e a sua posse em 9 de março, o índice geral português perdeu 2,2%. Também nesse período as bolsas mundiais viviam momentos particularmente conturbados após o rebentamento da bolha das dotcom, que derrubara o Nasdaq no ano anterior.

Já os afetos do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foram suficientemente calorosos para colocar em subida as ações portuguesas. Eleito a 24 de janeiro deste ano, Marcelo tomou posse a 9 de março. Em mês e meio, o índice geral português avançou, mas apenas 0,7%.

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