Com Trump, euro pode valer menos que o dólar

  • Rita Atalaia
  • 16 Novembro 2016

As promessas de investimento de Donald Trump vão pressionar Janet Yellen a subir os juros mais rapidamente. E isto deve levar o euro a valer menos que o dólar. Quando? Já no próximo ano.

Lembra-se quando um euro valia mais de 1,50 dólares? Já foi há alguns anos. A moeda única foi perdendo valor à boleia da política monetária do Banco Central Europeu (BCE), movimento que se está a acentuar. A moeda está a tocar mínimos do ano, e pode continuar a desvalorizar com a chegada de Trump ao “trono” dos EUA. Já há quem antecipe a paridade. E mesmo um euro que compre menos de um dólar.

A moeda única europeia acentuou a tendência negativa nas últimas semanas. E com a vitória de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas, a pressão vendedora tornou-se ainda mais expressiva. O euro chegou aos 1,0711 dólares, mas deve baixar ainda mais para chegar à paridade, ou seja, valer o mesmo que o dólar, o que não acontece há 14 anos. Traders dizem que há uma probabilidade de cerca de 45% de a divisa europeia afundar para um dólar até ao final do próximo ano. Há uma semana, as hipóteses eram de menos de metade, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Moeda única em mínimos do ano

Fonte: Bloomberg (Valores em dólares)
Fonte: Bloomberg (Valores em dólares)

E pode mesmo atingir os 0,95 dólares no próximo ano, o valor mais baixo desde 2002. Pelo menos é esta a previsão do Deutsche Bank. Este movimento reflete as diferentes expectativas para as taxas de juro da Reserva Federal dos EUA e do BCE, liderado por Mario Draghi.

A promessa do futuro presidente dos EUA de gastar muitos milhares de milhões de dólares deverá puxar pela inflação, levando Janet Yellen a subir rapidamente os juros e não gradualmente, como tem sido prometido. Esta possibilidade está a impulsionar o dólar para níveis máximos, já que a subida das taxas de juro torna a moeda norte-americana mais atrativa para os investidores à procura de retornos.

Por outro lado, o BCE deve continuar a injetar estímulos na economia, mantendo a taxa diretora num nível baixo durante um período prologando de tempo. Isto porque o banco central continua longe de cumprir o seu mandato que é o de alcançar uma taxa de inflação de perto, mas abaixo, da fasquia dos 2%.

O euro face ao dólar deve abandonar o intervalo entre 1,05 e 1,15 dólares para cair até à paridade no próximo ano, devido à nova subida do dólar após a vitória de Trump.

George Saravelos

Analista do Deutsche Bank

Para o Deutsche Bank, o quarto maior trader cambial do mundo, os resultados das eleições nos EUA são suficientes para retirarem o euro do intervalo atual, onde tem estado preso há vários meses, e levá-lo a valer o mesmo, ou menos, que o dólar em 2017. Quando o par entre o euro e o dólar “saiu, pela última, vez de um intervalo onde esteve durante um longo período”, os investidores foram apanhados de surpresa. E o “euro caiu 10% nas semanas que se seguiram”, diz George Saravelos, estratega cambial do Deutsche Bank. E é exatamente isso que está, agora, a verificar-se, o que suporta a tese de uma queda para a paridade, e até para valores abaixo. “A divergência está de volta”, diz o estratega.

O euro deverá afundar para a paridade no final do próximo ano, assumindo um alargamento no diferencial das taxas de juro entre a Zona Euro e o os EUA“, diz Daisaku Ueno, estratega-chefe do mercado cambial do Mitsubishi UFJ Morgan Stanley. Steven Santos, gestor do BiG, não acredita que estejamos novamente perante este cenário — já no final de 2015 se antecipava a paridade, algo que não aconteceu. O gestor explica ao ECO que a “possibilidade de o EUR/USD atingir a paridade é mais remota do que parece, devido ao excedente de balança comercial da Zona Euro, que se deve, em larga medida, à Alemanha”. O consenso em Wall Street também aponta para uma subida do euro. A moeda única vai subir para 1,11 dólares até ao final de 2017, de acordo com uma previsão média numa sondagem da Bloomberg.

Se a Reserva Federal dos EUA subir efetivamente as taxas de juro, “menor terá de ser o esforço do Banco Central Europeu para lançar novas medidas de estímulo, o que poderá, assim, reduzir pressão negativa sobre o euro. A redução gradual da compra de obrigações antes da conclusão do programa de quantitative easing [alívio quantitativo] tem vindo a ser discutida pelo BCE, o que reduziria a pressão descendente sobre o euro”, nota. Traders apostam numa probabilidade de cerca de 92% de a Fed subir as taxas já no próximo mês.

Trump não é o único culpado

O diferencial de taxa de juro entre os dois bancos centrais já existia ainda antes de Trump ser um fator nesta equação. A vitória do republicano apenas agravou a expectativa quanto a um acentuar desta divergência. Mesmo antes das eleições dos EUA, os riscos para o crescimento dos EUA estavam inclinados para a subida. O que não acontecia na Europa. E a recente subida das taxas da dívida soberana nos países do euro aumenta a probabilidade de um BCE manter uma política acomodatícia durante mais tempo.

O vice-presidente do banco central, Vítor Constâncio, refere mesmo a possibilidade de a inflação fraca atual poder “afetar as dinâmicas futuras da inflação, o que afeta a nossa política monetária”. Portanto, os banqueiros centrais podem ser obrigados a prolongar o programa de alívio. E esta intenção pode ser sinalizada já na próxima reunião de dezembro.

Vão ser conhecidas as novas projeções para a economia na reunião de dezembro, altura em que deverá tomar uma decisão sobre o programa de compras de dívida. “Não discutimos o prolongamento do alívio quantitativo na reunião de hoje”, disse Draghi na última reunião. Mas o programa de compra de dívida irá continuar até março de 2017 e além disso, caso se considere necessário.

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