Brexit ou Trump? BCE tem é medo da inflação

BCE deverá prolongar o plano de compra de ativos públicos por mais seis meses. E vai alargar limites de aquisição de dívida por governo para contornar escassez de títulos disponíveis no mercado.

Brexit, Donald Trump ou referendo italiano… se todos os problemas da Zona Euro fossem estes, muito provavelmente o Banco Central Europeu (BCE) iria anunciar uma redução dos estímulos monetários já esta quinta-feira. Ainda assim, nenhuma destas questões parece estar a materializar-se num risco tão grande para a região como o risco da inflação, que tem resistido em manter-se em mínimos perigosos para a estabilidade da economia. E é por isso que o mercado já só espera uma coisa de Mario Draghi, quando falar aos jornalistas ao início da tarde, após a reunião de dois dias do Conselho de Governadores: o reforço do programa de compra de ativos para estimular os preços na moeda única. Como vai reforçar a bazuca?

Sem exceção, todos os economistas sondados pela Bloomberg assumem já como adquirido um prolongamento do programa de compra de ativos no setor público (PSPP), na ordem dos 80 mil milhões de euros por mês, para lá de março de 2017. E, embora Draghi possa anunciar uma extensão por mais três meses, a maioria dos analistas aponta para mais seis meses de ação do BCE na aquisição de dívida dos governos do euro.

Acompanhando esta extensão temporal, também as regras do PSPP poderão ser alvo de uma revisão. Em março do próximo ano, quando está previsto o fim do programa, o balanço do banco central estará carregado com 1,7 biliões de euros em títulos de dívida da região. Ou seja, muitos dos títulos elegíveis para o programa já estarão na posse do BCE até então, limitando o poder de fogo da bazuca.

“O cenário colocado como mais provável será a possível extensão do atual programa de compra de ativos por mais três a seis meses, remetendo para próximas reuniões a revisão do prazo do mesmo”, explica José Lagarto, gestor de ativos da Orey Financial, ao ECO. “O atual montante de 80 mil milhões de euros por mês não deverá sofrer qualquer alteração, mas poderemos ver algum aumento nos limites por emitente/emissão, que de momento se encontram em 33%, devido a uma diminuição das obrigações elegíveis para o programa do BCE”, acrescenta o responsável.

"O atual montante de 80 mil milhões de euros por mês não deverá sofrer qualquer alteração, mas poderemos ver alguma alteração nos limites por emitente/emissão, que de momento se encontram em 33%, devido a uma diminuição das obrigações elegíveis para o programa do BCE.”

José Lagarto, gestor de ativos

Orey Financial

Uma flexibilização do programa poderá ser particularmente importante para Portugal. Em agosto, quando o BCE baixou o ritmo de compra de títulos portugueses, dispararam os alarmes dos mercados sobre uma eventual escassez de obrigações nacionais elegíveis para o programa. Algumas casas de investimento sugeriram então que até final do ano deixaria de haver dívida portuguesa disponível, uma perceção que fez subir momentaneamente os custos de financiamento do país.

Crítica alemã

Ainda assim, a última reunião do BCE do ano deverá ser tudo menos consensual. As certezas do mercado quanto à ação das autoridades monetárias estão longe de corresponder a um mesmo sentimento no seio dos vários governadores que compõem o Conselho de Governadores. Alguns responsáveis não querem tomar já decisões, preferindo adiá-las para 2017. E isto quando endurece a crítica alemã, que alerta para o risco de o banco central perder a sua independência ao pretender responder sistematicamente a riscos que vão surgindo no campo político.

A ideia de que os bancos centrais podem combater fontes de crises financeiras e de dívidas soberanas, os receios em torno da globalização ou o crescente populismo com dinheiro barato é muito perigosa“, declarou Jens Weidmann, do Bundesbank, no início desta semana. “Se o banco central continua a envolver-se no campo político ou mesmo a tentar influenciar os processos democráticos, isso vai resultar numa perigosa politização da sua independência”, frisou ainda.

"Se o banco central continua a envolver-se no campo político ou mesmo a tentar influenciar os processos democráticos, isso vai resultar numa perigosa politização da sua independência.”

Jens Weidmann

Governador do Bundesbank

O clima político na Zona Euro deverá permanecer com temperaturas elevadas em 2017, com eleições na Holanda, Alemanha e França, depois de um ano de 2016 já sobreaquecido pelo Brexit, pela eleição de Trump nos EUA e pela rejeição da reforma constitucional em Itália que conduziu à demissão de Matteo Renzi, num momento sensível para a banca italiana. E é neste cenário de eventual turbulência política que o BCE tem sido moderado quanto às perspetivas para a evolução da economia no próximo ano.

Para José Lagarto, um anúncio de uma estratégia de saída poderá revelar-se prematuro neste momento. “Poderíamos assistir a uma venda generalizada das obrigações europeias e, consequentemente, as economias da periferia poderiam ser as mais penalizadas pela subida das yields (aumento do serviço de dívida), criando assim novas ondas de choque na Europa e que terão sempre de ser evitadas, principalmente agora que a eleição de Donald Trump e o Brexit fazem crescer os partidos populistas e anti-projeto da União Europeia”, diz o responsável.

Em todo o caso, para manter uma linha de equilíbrio entre a manutenção do PSPP e a oposição alemã, Draghi poderá voltar a usar da palavra para incorporar no mercado uma ideia de que os estímulos não são para sempre. Segundo José Lagarto, Draghi deverá revelar que a bazuca pode ser prolongada além do novo prazo, mas apenas “caso seja absolutamente necessário”. Mas vai “alertar que o programa não terá uma duração ilimitada”, sublinha Lagarto.

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