Era uma vez um setor financeiro na bolsa portuguesa

A ascensão e queda da banca nacional na bolsa de Lisboa. Iminente saída do BPI deixou mercado praticamente coxo do sistema bancário que dominou no capitalismo popular e caiu com ele.

Era uma vez um setor financeiro que durante anos exerceu domínio na bolsa nacional. Eram bancos que davam expressão à negociação em Lisboa, mas cuja influência no mapa bolsista se foi desvanecendo ao longo do tempo por entre fusões e aquisições, falências e bancarrotas. Apareceram como cogumelos em plena era de “capitalismo popular” nos anos 90. BES, BCP e BPI estavam acompanhados por outros bancos como o Banco Mello, Totta & Açores, Fonsecas & Burnay, Pinto & Sotto Mayor… Mas como apareceram na bolsa, também desapareceram. E hoje é o BCP a assumir protagonismo em Lisboa.

A iminente saída do BPI do mercado acionista, depois do sucesso da Oferta Pública de Aquisição (OPA) do CaixaBank ter retirado o banco português do PSI-20, é o último episódio da perda de força bolsista que a banca observou nas últimas décadas. Faz sentido manter o BPI cotado na bolsa? “A intenção é mantê-lo em bolsa… mas temos de analisar se a liquidez é suficiente. E que alternativas temos”, declarou Gonzalo Gortázar, presidente do CaixaBank, abrindo a porta à saída do mercado. Mais uma…

Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa.Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

“É a consequência da crise financeira internacional, assim como da forte recessão pela qual passou a economia portuguesa. Forçou uma significativa recapitalização do setor“, refere Albino Oliveira, da Patris Investimentos. “A própria aquisição do BPI pelo CaixaBank poderá ser vista como sinal do enfraquecimento do setor bancário português, com o processo de venda de ativos, reforço da base de capital e a melhoria da qualidade do balanço a criar um ambiente propício à realização de fusões e aquisições“, contextualiza.

"A aquisição do BPI pelo CaixaBank poderá ser vista como sinal do enfraquecimento do setor bancário português, com o processo de venda de ativos, reforço da base de capital e a melhoria da qualidade do balanço a criar um ambiente propício à realização de fusões e aquisições”

Albino Oliveira

Patris Investimentos

O Banif foi o último banco a desaparecer do mapa. Foi em dezembro de 2015 que o Banco de Portugal aplicou uma medida de resolução semelhante ao que aplicara ao BES ano e meio antes. Na ocasião, decidiu-se pela venda do banco fundado por Horácio Roque ao Santander Totta, por 150 milhões de euros, depois de o processo de venda voluntária ter falhado.

O Banif havia sido intervencionado no final de 2012 através de uma recapitalização de 1.100 milhões de euros com recurso aos cofres públicos, passando para a esfera pública. Falhou o reembolso da ajuda ao Estado em 2014, situação que levou a que a Direção-Geral da Concorrência Europeia (que avalia as ajudas estatais) a exigir um desfecho para o banco que garantisse o pagamento da dívida. Sem um plano de recapitalização avalizado por Bruxelas, a resolução aplicada ao Banif foi a solução encontrada por Lisboa para proteger os depositantes.

A medida imposta ao Banif seguiu os mesmos moldes da aplicada ao BES, em agosto de 2014, e que culminou no colapso do universo Espírito Santo, incluindo a Espírito Santo Financial Group, que chegou a pertencer ao clube do PSI-20. A resolução do BES implicou a divisão da instituição em duas partes: o banco bom que se passou a chamar Novo Banco e cujo processo de venda se arrasta desde então; e o banco mau, que ficou com os ativos problemáticos do antigo BES e que já entrou em liquidação.

Os loucos anos 90

Mas foi na década de 1990 que a preponderância do setor financeiro na bolsa mais se fez sentir. Após a nacionalização de várias instituições bancárias nacionais no período que se seguiu à revolução do 25 de abril de 1974, a reversão das nacionalizações deu lugar a inúmeras privatizações no setor: Banco Totta & Açores, Banco Português do Atlântico, Banco Espírito Santo e Comercial, Banco Fonsecas & Burnay, Crédito Predial Português, União de Bancos Portugueses, Banco Pinto & Sotto Mayor e Banco de Fomento e Exterior.

A opção bolsa para muitos destas instituições financeiras dá-se também num contexto favorável de incentivos fiscais criados pelo Governo de Cavaco Silva, no âmbito da Lei Sapateiro, o pacote legislativo que resultou no Código de Valores Mobiliários publicado em 1991.

Este processo foi aproveitado sobretudo por parte de BPI, BCP e Caixa Geral de Depósitos para reforçar a sua quota de mercado em Portugal, dando início a uma período de forte concentração do setor em Portugal que se prolongou até à década seguinte:

  • O BCP adquiriu Banco Português do Atlântico, Banco Pinto & Sotto Mayor, Banco Chemical e Banco Mello (inclui a União de Bancos Portugueses);
  • O BPI adquiriu Banco Fonsecas & Burnay, Banco de Fomento e Exterior e Banco Borges & Irmão;
  • O Santander adquiriu Banco Totta & Açores, o Crédito Predial Português e mais recentemente o Banif;
  • A Caixa Geral de Depósitos adquiriu Banco Nacional Ultramarino.

Albino Oliveira lembra que este período “ficou marcado por um crescimento do crédito bem acima do ritmo de expansão da economia, o que acabou mais tarde por levar o país a atravessar uma forte recessão e solicitar um programa de assistência financeira aos seus parceiros europeus”. Este excesso na concessão de empréstimos “levou a que os últimos anos fossem marcados por um significativo processo redução do endividamento por parte de famílias e empresas, traduzindo-se num ciclo de crédito desfavorável para o setor“.

Foi num cenário de forte quebra da rentabilidade que o setor empreendeu um duro processo de reestruturação nos últimos anos, que passou pela diminuição do negócio através do fecho de agências e despedimentos em larga escala. Instituições como o BPN ou BPP desapareceram. O BES sucumbiu na complexa rede de financiamento a outras sociedades do Grupo Espírito Santo. A banca socorreu-se da ajuda do Estado para se capitalizar.

"Em suma, os últimos anos para o setor bancário em Portugal apresentam semelhanças ao observado não só neste setor em outras crises financeiras de outros países (exemplo, Suécia em 1992), como também noutros setores de atividade (tecnologia em 2000 e imobiliário em 2017, ambos nos EUA).”

Albino Oliveira

Patris Investimentos

“Em suma, os últimos anos para o setor bancário em Portugal apresentam semelhanças ao observado não só neste setor em outras crises financeiras de outros países (exemplo, Suécia em 1992), como também noutros setores de atividade (tecnologia em 2000 e imobiliário em 2017, ambos nos EUA)”, recorda Albino Oliveira. “Em qualquer dos casos, foi observado uma redução no tamanho do setor, como consequência da crise observada após um período de excessos“, frisa.

 

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