Nuno Amado limpa mais de seis mil milhões de imparidades

  • Rita Atalaia
  • 7 Março 2017

Desde que entrou no BCP, Nuno Amado tem arrumado a casa. O processo de "limpeza" de imparidades arrancou logo em 2012, em plena crise, e ganhou agora um novo impulso por causa da CGD.

Nuno Amado, presidente executivo do BCP, durante a apresentação dos resultados de 2016.

Desde que entrou no Banco Comercial Português (BCP), Nuno Amado tem feito um esforço para arrumar a “casa”. Limpou, limpou e limpou… imparidades. Ao todo, foram mais de seis mil milhões de euros os créditos em incumprimento que o gestor reconheceu nas contas do banco, com custos para os acionistas. Só no último ano foram mais 1,6 mil milhões de euros que varreu do balanço. Porquê? A resposta está na Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Nuno Amado entrou no BCP em 2012. Em plena crise financeira, com o país sob resgate, o incumprimento de crédito entre famílias, mas especialmente entre as empresas, agravou-se ainda mais. Crédito malparado no valor de milhares de milhões de euros que se continuou a avolumar, obrigando a administração do banco a atacar o problema. Logo nesse ano, o BCP reconheceu imparidades de mais de mil milhões de euros.

O gestor registou perto de 1,2 mil milhões de euros logo em 2012, sendo que o valor reconhecido como perda nas contas do banco apenas ficou abaixo dos mil milhões já em 2015. Mas esta tendência não durou muito tempo, já que no último ano o montante refletido nas contas da instituição voltou a disparar.

Em 2016 — ano em que o banco registou um lucro líquido de 23,9 milhões — o valor das imparidades registadas acelerou para os 1,6 mil milhões, elevando assim o total de perdas com malparado reconhecidas por Nuno Amado enquanto presidente executivo do BCP tenha superado a fasquia os seis mil milhões de euros.

Caixa regista imparidades… e o BCP também

Mas porquê tantas imparidades em 2016? A resposta está na CGD. É que o banco do Estado disse que iria acelerar o ritmo de reconhecimento de imparidades e o BCP não teve outra opção que não acompanhar. Em causa está o facto de haver empresas com créditos em ambos os bancos, situação que leva a que se um reconheça perdas, o outro tenha de fazer o mesmo.

O presidente do BCP reconheceu que o facto de a CGD ter acelerado o reconhecimento de imparidades teve impacto no banco privado — a CGD anunciou imparidades de 2,7 mil milhões de euros. “Sim, houve um efeito colateral”, disse o gestor, recentemente, ao Expresso. E acrescentou: “Tivemos de reforçar as imparidades e fizemos bem”.

“Temos um nível de imparidades que foi absolutamente excecional”, disse Nuno Amado na apresentação das contas do ano passado, salientando que houve um “sobre provisionamento muito grande”. Um nível excecional que só foi possível com ajuda dos seus acionistas. É que o banco realizou este ano um aumento de capital de 1,3 mil milhões de euros em que contou com o forte apoio da Fosun (reforçou para 23,92%), mas em que a Sonangol também contribuiu com a sua parte, permanecendo com cerca de 15% do BCP.

Depois das imparidades de 2016, fica a garantia para os investidores: “não se vai repetir em 2017”, notou o presidente do conselho de administração do maior banco privado português, isto apesar de a exposição do BCP a créditos em risco continuar a ser avultada: cerca de 8,5 mil milhões. Deverá encolher para 7,5 mil milhões no final deste ano — o banco tem de apresentar um plano para estes ativos ao Banco Central Europeu.

Rumo aos dividendos

 

Mas perante a exposição a crédito em risco será que é necessário outro aumento de capital? “Claro que não”, deixou claro Nuno Amado. “Fizemos este aumento de capital porque precisávamos de pagar os CoCos que nos custavam 10% ao ano. Já pagámos a última tranche de 700 milhões” ao Estado. Estes CoCos tiveram um grande peso nas contas do banco nos últimos: o custo para o banco foi de mil milhões desde 2012.

Sem este fardo, mas também com o malparado controlado, bem como rácios de capital “já alinhados com os objetivos que definimos no aumento de capital [acima de 11%]”, o presidente executivo do BCP diz que o banco está agora “melhor preparado”. Está lançada a base para que o banco comece a apresentar resultados positivos organicamente, acredita o responsável. E até para voltar a pagar dividendos.

O banco apontou, ainda antes do aumento de capital realizado no arranque deste ano, para um “potencial regresso ao pagamento de dividendos” e assumindo um “objetivo para payout ratio igual ou superior a 40% em 2018, sujeito a requisitos regulamentares”. Esta perspetiva tem por base a expectativa do banco de conseguir voltar a uma situação de normalização em 2018. Algo que Nuno Amado espera que aconteça.

Então e os custos da dívida subordinada?

Apesar do cenário mais positivo para as contas do banco, será preciso ter em conta os custos que o BCP, tal como outros bancos, terá com as obrigações de elevada subordinação. A CGD vai “dar o corpo às balas”. O banco estatal vai tentar obter mil milhões de euros desta dívida de elevado risco de forma a cumprir com os rácios exigidos pela regulação, títulos que terão uma taxa de juro anual em torno dos 8% a 10%.

A CGD vai já, mas o banco liderado por Nuno Amado vai aguardar, provavelmente até ao próximo ano — embora não consiga fugir ao encargo extra. O BPI, por seu lado, pode não fazê-lo já, mas assim que o fizer já tem um comprador garantido: o CaixaBank. Gonzalo Gortázar, o administrador delegado do banco espanhol que controla a instituição financeira portuguesa, afirmou que está disponível para subscrever até 250 milhões de euros em títulos de dívida subordinada de que o BPI precisar.

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