Zero duvida de cumprimento de metas de reciclagem sem alteração de medidas

  • Lusa
  • 5 Abril 2017

Só apostando na recolha porta-a-porta e numa taxa que desincentive incineração e aterro é que o Governo conseguirá cumprir as metas de reciclagem, alerta a associação ambientalista Zero.

A associação ambientalista Zero considera “altamente questionável” o cumprimento das metas de reciclagem se o Governo não seguir uma “alteração radical” de políticas e medidas, apostando na recolha porta-a-porta e numa taxa que desincentive incineração e aterro.

“Ainda há muito caminho a fazer para atingirmos a meta de 50% de reciclagem, em 2020, e, à partida, o cenário [de cumprimento] é altamente questionável”, disse hoje à agência Lusa Rui Berkemeier, da Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero.

A atual reciclagem, com base em dados de 2015, “não permite indicar que se vá cumprir a meta, só se houver uma alteração radical de políticas e de medidas”, defendeu o ambientalista.

A Zero analisou informação disponibilizada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) apontando que os materiais reciclados, no lixo urbano, correspondem a cerca de 74%, abrangendo orgânicos e materiais como vidro, papel e cartão, metais e plásticos.

E concluiu que “são inequívocas as evidências de que a meta de 36% prevista para 2016 e de 50% para 2020 já estão praticamente fora do alcance”, com a taxa de preparação para a reciclagem em 2015 a não ultrapassar 28%.

"São inequívocas as evidências de que a meta de 36% prevista para 2016 e de 50% para 2020 já estão praticamente fora do alcance.”

Rui Berkemeier

Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero

Rui Berkemeier listou os fatores que tornam complicado atingir as metas de reciclagem, como a opção pela recolha seletiva pois “está evidenciado” que, através de ecopontos, “não se resolve o problema”.

“Estagnamos na recolha seletiva e já devíamos ter mudado há muito tempo para a recolha seletiva porta-a-porta, claramente [a opção] que apresenta resultados melhores”, especificou o ambientalista.

"Estagnamos na recolha seletiva e já devíamos ter mudado há muito tempo para a recolha seletiva porta-a-porta, claramente [a opção] que apresenta resultados melhores.”

Rui Berkemeier

Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero

Portugal, defendeu, já devia ter avançado com a recolha seletiva de resíduos orgânicos, além de ter um sistema de tarifa de resíduos que não incentiva a separação.

“Como não temos um sistema porta-a-porta, não podemos ter o sistema ‘pay-as-you-throw’ [pagar conforme a quantidade de lixo gerada], sem o qual os cidadãos que separam são penalizados face a quem não separa”, explicou Rui Berkemeier.

Quanto à Taxa de Gestão de Resíduos (TGR), “tal como existe hoje, não é um incentivo para a separação dos resíduos e para a reciclagem, não tem a ver com os cidadãos, tem a ver com os sistemas de tratamento de resíduos que, se apostarem na reciclagem pouco ganham”, defendeu.

Um sistema que aposte em queimar resíduos, exemplificou, como a Lipor e a Valorsul, “não é penalizado por não reciclar através da TGR” porque a taxa para quem incinera “é muito baixa”.

“Como enviar para aterro é muito barato, compensa”, disse ainda o especialista da Zero, realçando que “há que revolucionar as tarifas da TGR para premiar quem recicla e penalizar quem não recicla” e lembrando que “Portugal tem metas para cumprir na reciclagem e não na incineração”.

"Como enviar para aterro é muito barato, compensa. Há que revolucionar as tarifas da TGR para premiar quem recicla e penalizar quem não recicla.”

Rui Berkemeier

Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero

O ambientalista apontou que o Plano Estratégico dos Resíduos Urbanos (PERSU) prevê que “as grandes metrópoles, nomeadamente Lisboa e Porto, onde existe incineração de resíduos, tenham metas de reciclagem mais baixas, o que é um absurdo”, pois ali “é mais fácil fazer recolha seletiva”.

“Não se justifica que tenham de ser zonas como Alentejo, Beira Interior ou Trás-os-Montes a contribuir para as percentagens maiores de reciclagem”, concluiu.

A Zero elaborou um barómetro da reciclagem e entre os sistemas de gestão de resíduos urbanos com mau desempenho aponta os exemplos da Ambisousa (apenas 8% de encaminhamento para reciclagem), Valorminho (11%), refere a surpresa dos valores encontrados para a Valorsul (19%), Amarsul (20%) ou Resinorte (23%) e destaca pela positiva a Valnor (78% de encaminhamento para reciclagem) ou a Resíduos do Nordeste (68%).

O jornalismo continua por aqui. Contribua

Sem informação não há economia. É o acesso às notícias que permite a decisão informada dos agentes económicos, das empresas, das famílias, dos particulares. E isso só pode ser garantido com uma comunicação social independente e que escrutina as decisões dos poderes. De todos os poderes, o político, o económico, o social, o Governo, a administração pública, os reguladores, as empresas, e os poderes que se escondem e têm também muita influência no que se decide.

O país vai entrar outra vez num confinamento geral que pode significar menos informação, mais opacidade, menos transparência, tudo debaixo do argumento do estado de emergência e da pandemia. Mas ao mesmo tempo é o momento em que os decisores precisam de fazer escolhas num quadro de incerteza.

Aqui, no ECO, vamos continuar 'desconfinados'. Com todos os cuidados, claro, mas a cumprir a nossa função, e missão. A informar os empresários e gestores, os micro-empresários, os gerentes e trabalhadores independentes, os trabalhadores do setor privado e os funcionários públicos, os estudantes e empreendedores. A informar todos os que são nossos leitores e os que ainda não são. Mas vão ser.

Em breve, o ECO vai avançar com uma campanha de subscrições Premium, para aceder a todas as notícias, opinião, entrevistas, reportagens, especiais e as newsletters disponíveis apenas para assinantes. Queremos contar consigo como assinante, é também um apoio ao jornalismo económico independente.

Queremos viver do investimento dos nossos leitores, não de subsídios do Estado. Enquanto não tem a possibilidade de assinar o ECO, faça a sua contribuição.

De que forma pode contribuir? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

Obrigado,

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Zero duvida de cumprimento de metas de reciclagem sem alteração de medidas

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião