O 123 do ABC: os números da Feira do Livro de Lisboa

  • Ana Batalha Oliveira
  • 18 Junho 2017

Acaba este domingo o 87.º capítulo da Feira do Livro de Lisboa, a "maior de sempre". Conheça os livros e as novidades que marcaram a edição deste ano. No total foram vendidos cerca de 400 mil livros.

Foi “maior feira do livro de sempre”. Terminou este domingo a 87.ª edição da Feira do Livro de Lisboa (FLL), edição que contou com o maior número de stands. No entanto, os números não são só espaciais: calcula-se que tanto as vendas como os visitantes tenham seguido esta tendência. O ECO conversou com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e alguns participantes e, entre palavras… fez as contas.

A 87.ª edição da feira do livro contou com dez novos participantes que elevaram a fasquia para os 122. Durante todo o mês de junho, mudaram-se para o Parque Eduardo VII e distribuíram-se por 286 stands, formando a família que deu corpo à “maior Feira do Livro de Lisboa de sempre”, regista a APEL, que organiza o evento desde a primeira edição. Nas ruas da feira, as grandes editoras dominam as praças, mas comerciantes mais pequenos, desde livrarias a alfarrabistas também marcam presença.

O número total de visitantes desta edição ainda não foi fechado… mas é muito provável que se ultrapasse o recorde de meio milhão, atingido em 2014, estima o secretário-geral da APEL, Bruno Pacheco. Os feriados e vésperas de feriado são os dias mais movimentados, assim como os fins de semana: geralmente são cerca de 40.000 as visitas diárias.

Dias fracos que viram fortes

Mas a grande diferença este ano foi nos dias de semana, nos quais a enchente foi “notavelmente maior”, observa Bruno Pacheco. A APEL espera assim que o dia a menos que a feira tem este ano e os dias de intenso calor sejam compensados pelo aumento da afluência durante a semana.

O transeunte mais assíduo? Vem no feminino: as jovens universitárias são os melhores clientes da feira. Mas o convite é para toda a família: mãe, pai… e mesmo o cão. Este ano, uma das novidades foi o RefresCão, um lounge que recebeu os amigos de quatro patas enquanto os donos dedicavam a atenção aos livros. E a pensar nos pais com bebés, até um fraldário foi instalado, para que os mais pequenos pudessem “acompanhar” as compras.

Bruno Pacheco acredita que a adesão à feira se justifica precisamente porque esta “está mais convidativa no seu todo”, apontando para o esforço das editoras. Um dos fenómenos mais importantes e “gratificantes” para Bruno Pacheco é a “segunda vida” que se dá a livros que já haviam sido retirados das prateleiras e que, portanto, os leitores só conseguem encontrar na feira.

Mas não é a única razão de atratividade. Os lançamentos são outro grande chamariz: os 1618 eventos trouxeram cerca de 1100 autores a Lisboa. Os três momentos de maior concentração na feira terão mesmo sido a presença Paula Hawkins, autora do livro A Rapariga no Comboio, o psiquiatra Augusto Cury e a apresentadora de televisão Cristina Ferreira, cujo público ascendeu aos milhares.

Outros escritores, como Lobo Antunes, passearam-se entre os leitores cerca de meia dúzia de vezes durante o mês. O interesse dos leitores foi tal que houve autores que pediram mesmo para prolongar as sessões de autógrafos ou repeti-las.

Os livros, que dão nome à feira, carregam muitas outras assinaturas. No top 10 das vendas da Porto Editora na feira, todos os lugares são ocupados por autores que marcaram presença na FLL, exceção feita a dois nomes emblemáticos: José Saramago e Isabel Allende. Saramago consegue este lugar com o livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, mesmo sem nunca ter sido destacado como “Livro do Dia”. Já O Amante Japonês, de Isabel Allende, mereceu este destaque por duas vezes.

Os livros do dia são definidos por cada editora e, para além de anunciados no site e na app, têm um lugar de destaque nos stands. Estes livros têm de ter o mínimo de 40% de desconto. Para além dos descontos do “Livro do Dia”, existe ainda a Happy Hour, que dá 50% de desconto em todos os livros nas compras feitas todos os dias entre as 22h e as 23h. Graças à Lei do Preço Fixo, qualquer livro com menos de 18 meses não pode ter mais de 10% de desconto, exceto na feira, local em que o desconto pode ir até aos 20%. Por isto mesmo, livros com mais de 18 meses desde o lançamento permitem geralmente uma maior poupança.

Preferem os clássicos?

Apesar de alguns dos livros mais antigos terem preços mais convidativos, os visitantes continuam a preferir as novidades. Outra constante entre os dez mais vendidos da Porto Editora é o ano de edição: 2017. A regra só é novamente quebrada pelos mesmos dois autores, Saramago e Allende, desta vez em conjunto com Richard Zimmer e o seu Anagramas de Varsóvia.

O balanço que a APEL faz com base no contacto diário com os participantes é que, “de uma forma geral, as vendas cresceram em comparação com o ano passado”. Alguns participantes estimam mesmo um crescimento na ordem dos dois dígitos. A Porto Editora dá como “quase certo” que a receita da edição deste ano ultrapassará a das últimas edições, mas fala em ganhos “tangíveis e intangíveis”. Garante que não é na feira que a editora recolhe “o grosso da faturação” mas que o “ambiente formidável” que é criado com os leitores que “vêm e deixam-se estar”, compensa. Quer-se no fundo construir uma verdadeira “festa do livro”.

Do outro lado do jardim, os livros são mais velhos, e quem os vende é o alfarrabista Paulo da Costa Domingues, o responsável da loja Frenesi. Durante o resto do ano, só vende livros online. A FLL é o único ponto de encontro que tem com o público — este ano, já dois clientes vieram conhecê-lo pessoalmente após vários contactos por telefone e email. Esta é ainda a oportunidade de vender livros mais baratos pois, pela internet, “feitas as contas”, só compensa vender acima dos 17 euros, afirma o proprietário. Junho, o mês da FLL, é o mês em que vende mais, só comparável ao mês de dezembro, no qual costuma enviar catálogos com descontos para a casa dos clientes.

Uns metros mais perto do Marquês de Pombal assentou o Armazém 111, uma livraria que existe há dez anos e há seis que marca presença na FLL. Miguel Oliveira, o responsável, explica que embora já tivesse tido um espaço físico, agora só vende em feiras — mas não porque fosse mais lucrativo; foram problemas logísticos que ditaram esta mudança. Em relação à FLL, diz que “vai compensando” mas que os grandes encargos e a elevada concorrência, que força os preços baixos, limitam muito a margem de lucro. Já notou, inclusivamente, algumas desistências de colegas.

Sempre a somar

Quanto custa estar presente na Feira do Livro de Lisboa? Um stand custa 1800 euros… que sobem para mais de 2400 com o IVA. E falta ainda o custo de ser sócio da APEL, de 150 euros por ano, e o terminal multibanco, que também tem uma anuidade de 200 euros, partilha Miguel Oliveira. Feitas as contas, o investimento fica perto dos 2800 euros. Bruno Pacheco acredita que o valor “deverá estar adequado” uma vez que o número de participantes tem vindo a aumentar e não existem reclamações. Deixa ainda a ressalva de que existe um espaço, a tenda dos Pequenos Editores, cujo custo mais baixo procura permitir a presença independentemente da dimensão.

Para todos os efeitos, mais consensual será o facto de a Feira do Livro ser “um momento alto para o setor do livro”, nas palavras de Bruno Pacheco. A APEL acredita que a impacto desta feira se fará sentir durante o resto do ano, pelo destaque que o livro tem na imprensa durante este mês e pelo gosto que é estimulado pela leitura. A Porto Editora concorda que este evento é importante para “editores e autores conquistarem e reconquistarem leitores” sobretudo numa altura em que a crise no setor, que começou em 2009, apresenta “alguns sinais relativamente positivos” mas “ainda não se pode respirar de alívio.”

Quanto se vendeu?

Segundo os dados divulgados esta segunda-feira pela agência Lusa, quatro em cada cinco visitantes da Feira do Livro comprou um livro. No total foram vendidos cerca de 400 mil livros, revelou o secretário-geral da APEL, Bruno Pacheco, o que se traduz em quatro milhões de euros em vendas. “Em média, um pavilhão vende cerca de 15.000 euros em livros na Feira. Multiplicando pelos 286 participantes deste ano, chegamos a um valor superior a quatro milhões de euros”, indicou Bruno Pacheco à agência Lusa. O preço médio rondou os dez euros.

 

Segundo o responsável, este valor de vendas corresponde a cerca de 2% do mercado de venda de livros em Portugal, que se situa nos 177 milhões de euros, sem manuais escolares (com estes ultrapassa os 200 milhões). No que respeita ao número de títulos editados por ano em Portugal, Bruno Pacheco revelou que em 2016 foram libertados 14 mil para o mercado, o que se traduz numa média de 38 por dia, em 2016.

Editado por Mariana de Araújo Barbosa (mariana.barbosa@eco.pt)

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