O regresso do Algarve ao boom do turismo

  • Filipe S. Fernandes
  • 7 Agosto 2017

Mais pequena do que outras regiões nacionais, a riqueza do Algarve representa 4,5% do PIB nacional. Turismo tem sido grande motor da região ao longo dos anos.

“As minhas primeiras palavras são para dizer que me sinto bem no Algarve mas, quem é que não se sente bem no Algarve? Qualquer português se sente bem e qualquer forasteiro tem a obrigação de se sentir bem se tiver bom gosto”, referiu o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa quando presidiu à sessão de encerramento do 1.º Congresso da AlgFuturo – “Pela Excelência da Economia do Algarve – Superar os bloqueios e vencer os desafios”, que decorreu no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve em Faro.

Desde os anos de 1960, quando o Algarve chegou ao milhão de turistas, que a vida económica, social e cultural da região é marcada pelo fenómeno turístico. Esta predominância tem os seus aspetos positivos e negativos. Baseou-se na exploração dos recursos naturais (clima e paisagem), que fez do Algarve o destino turístico mais importante do país e um destino de referência na Europa, com base essencialmente no produto “sol e mar”.

O Algarve tem algumas especificidades. A sua estrutura territorial é a mesma desde a Reconquista e, atualmente, é a única região em que a NUTS II e NUTS III coincidem. Constituída por dezasseis municípios — Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Castro Marim, Faro, Lagoa, Lagos, Loulé, Monchique, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel, Silves, Tavira, Vila do Bispo e Vila Real de Santo António –, a região tem características e recursos distintos, com a estrutura urbana a estar centrada na dinâmica de duas áreas principais (Faro-Loulé-Olhão e Portimão-Lagos-Lagoa) que, de certo modo, concentrou o investimento no turismo e desenvolvimento na região.

Um dos polos de crescimento futuro é o eixo de 144 quilómetros de orla marítima por explorar, como referiu recentemente o Financial Times, que destacou as potencialidades da região entre Olhão e Vila Real de Santo António.

O Algarve é, como referido, uma região de pequenas dimensões em relação às restantes regiões nacionais e às regiões europeias, com uma produção de riqueza (PIB) que representa cerca de 4,5% do total nacional. No entanto, nas últimas décadas a região revelou capacidade de atração de população, tendo sido a NUTS II com o maior crescimento, cerca de 14% (entre os censos de 2001 e 2011) e 16% (entre 1991-2001). Dos 440 mil habitantes, 49% da população vive numa faixa de dois quilómetros ao longo da costa (9% do território) e apresenta índices de envelhecimento elevados na zona do Baixo Guadiana (Alcoutim e Castro Marim), serra (Monchique) e costa vicentina (Aljezur e Vila do Bispo).

O Algarve tem 22% dos 1.945 empreendimentos turísticos existentes em Portugal, 32% das 139.739 unidades de alojamento (quarto ou apartamento) com, juntamente a Madeira, e a maior dimensão média dos empreendimentos turísticos com 103 unidades de alojamento. Em 2016 registou 18,1 milhões de dormidas, o que representa 51% do total de dormidas em solo nacional, segundo dados do Atlas de Hotelaria da Deloitte.

O turismo tornou-se o principal motor económico da região, estimulando outras atividades como, por exemplo, construção e imobiliária, que foram essenciais para o processo de desenvolvimento em termos de emprego, de criação de riqueza, qualificação, competências e qualidade de vida. Por sua vez, o foco nestas atividades condicionou a inovação e a diversificação da economia regional.

Algarve é sol e mar

Este crescimento intenso foi baseado na exploração dos recursos naturais (clima e paisagem), que fez do Algarve o destino turístico mais importante do país e um destino de referência na Europa, com base essencialmente no produto “sol e mar”. Esse crescimento promoveu um setor turístico dinâmico, baseado fundamentalmente em PME que, segundo o Atlas da Hotelaria de 2017 da Deloitte, representam 81% dos alojamentos turísticos (35.787) num total de 44.032 alojamentos turísticos. Os grupos hoteleiros dominam o restante, com o grupo Vila Galé Hotéis, a deter uma quota de 5% (2.140) tal como Pestana Hotels & Resorts / Pousadas de Portugal (2.066), seguindo-se o Tivoli Hotels & Resorts 4% (1.650), NAU Hotels & Resorts 3% (1.309) e MGM Muthu Hotels 2% (1.080).

A estrutura empresarial do Algarve caracteriza-se essencialmente pela existência de grande proporção de microempresas, isto é, empresas com menos de dez empregados, que representavam cerca de 95% do tecido empresarial da região. A reduzida dimensão das empresas regionais está relacionado com o facto de uma maioria significativa corresponder, em termos jurídicos, a empresas individuais, característica que também tem maior peso no Algarve.

O turismo na região é uma atividade altamente sazonal, pouco diversificada, dependente dos mercados externos e com centros de decisão fora da região. Os desafios do turismo algarvio passam por combater a sazonalidade, atrair novos mercados turísticos e não descaracterizar a região. “Os destinos de lazer, de férias e de sol e praia são muito dominados pelos mercados inglês e alemão. O mercado inglês conhece os destinos portugueses e, no verão, o Algarve está ligado pelo transporte aéreo a trinta cidades do Reino Unido”, diz José Theotónio, CEO do Grupo Pestana. Neste segmento assinala que há possibilidades de crescer no mercado alemão, porque os alemães são uns dos principais clientes da Espanha no sol e mar.

Ninguém quer pagar 500 euros no Algarve em tempo de chuva.

José Theotónio

Grupo Pestana

Salientou ainda os sinais positivos do mercado francês, que conhecia pouco Portugal. “Na Madeira, começou por chegar em low cost através de operadores de baixo custo e com preços baixos mas, depois, criou a visibilidade do destino e, em alguns períodos em Lisboa, o mercado francês é o mais forte e foi em cinco a seis anos. Agora vêm os nichos todos”, resume José Theotónio.

O combate da sazonalidade é mais complexo. “A sazonalidade até pode ser reduzida em termos de procura mas há uma sazonalidade de preço porque ninguém quer pagar 500 euros no Algarve em tempo de chuva. A região não tem os atrativos das capitais europeias para quebrar a sazonalidade” diz Jose Theotónio.

O sal do sol a sul

“A atividade económica beneficiou, em larga medida, do aumento do turismo”. No entanto, o turismo tornou-se a atividade dominante focada no produto “sol e mar” levando a uma especialização da base económica regional. Esta forte especialização acabou por criar restrições noutros setores da economia, alguns deles com vitalidade, como era o caso da agricultura e das pescas, uma vez que o turismo absorveu a maior parte da atenção dos decisores políticos e “capturou” a maioria dos investimentos e da capacidade de mobilização e de empreendedorismo dos atores privados.

Essa especialização permitiu ao Algarve sustentar o crescimento — baseado fundamentalmente no turismo e na construção e imobiliária — e teve como consequência “uma forte concentração do emprego e um investimento residual nos setores transformadores e tecnológicos”, refere-se no Estratégia Regional de Investigação e Inovação para a Especialização Inteligente da AMAL. Mas há outro “mar e sol” na economia algarvia que se revela nas pescas, aquacultura, sal e citrinos.

Há mar e mar, há ir e… ficar?

O mar é um recurso estratégico para Portugal e decisivo para o Algarve e tem uma importância na imagem cultural e na identidade regional e peso no emprego nas zonas costeiras. No entanto, a imagem que muitas vezes se tem é a de um “setor improdutivo e que vive em declínio irre­versível, marcado pela diminuição dos stocks de espécies de peixes tradicionalmente capturadas pela frota regional. No Algarve, em particular, existem recursos oceânicos, uma frota pesqueira significativa e conhecimento tácito acumulado”.

Em termos de pescadores licenciados, o Algarve tem 16,6% do todo nacional, tendo o norte 26,1% e o centro 23,1%. Em 2016, a importância relativa dos pescadores mais jovens foi maior nos Açores (34,3%) e na região centro (30,0%, que compara com 29,3% em 2015). Os pescadores mais idosos operaram em Lisboa (29,7%) e no Algarve (26,5%), em comparação com 26,1% e 27,5% em 2015, respetivamente.

As regiões do norte e centro registaram os maiores abates em número de embarcações. Em termos de arqueação bruta e de potência propulsora, os maiores decréscimos ocorreram nas regiões do norte, Algarve e Lisboa que, em conjunto, arcaram com 73% e 64% do GT e potência total abatidos à frota nacional em 2016, considerando que os abates recaíram sobre embarcações de grande porte.

Em 31 de dezembro de 2016 estavam registadas 7.980 embarcações na frota de pesca nacional, com uma arqueação bruta de 93 609 GT e uma potência propulsora de 355 062 kW, que reflete decréscimos face a 2015, quer no número de embarcações (-74 unidades, correspondente a -0,9%), na arqueação bruta (GT) (-1,3%) e na potência (kW) (-0,8%).

A frota licenciada em 2016 (frota com autorização para operar com pelo menos uma arte de pesca, numa zona específica e por um determinado período) totalizou 4.075 embarcações, que equivaleram a 51,1% do número total de embarcações, a 82,0% do total da arqueação bruta e a 80,2% do total da potência da frota registada em 31 de dezembro de 2016. O Algarve tinha 1.749 embarcações (21,9% do todo nacional) com um total de GT de 11.225 e 1.534 com motor

Em termos do volume de descarga em portos nacionais, na distribuição regional das capturas de pescado fresco ou refrigerado, o Algarve reduziu para 15,2% depois de ter registador 17,7% em 2015. Em termos do valor das capturas, manteve-se a relevância da região centro (26,9% do valor total em 2016) e do Algarve (20,0%). Em 2015, as capturas foram de 24.909 toneladas no valor de 54 milhões de euros e, em 2016, 18.901 de toneladas e 54 milhões de euros. As capturas de peixes marinhos foram de 14.523 toneladas e, de moluscos, 3.879 de toneladas, tendo sido a região que liderou na captura de crustáceos com 495 toneladas.

A costa algarvia oferece condições únicas para a exploração em aquicultura. O mar e os recursos hídricos representam um desafio e uma oportunidade para o Algarve. Na aquicultura, o Algarve representou, em 2015, 50% do volume de produção com 4.620 toneladas, e 58,7% do valor da produção aquí­cola de Portugal com 30,754 milhões de euros e Portugal 9 131 toneladas. Estes impressionantes resultados estão ligados as unidades licenciadas que atuam em duas excelentes áreas de lagoa (a Ria Formosa e a Ria de Alvor). Tem ainda a ver com as dificuldades que a unidade de produção de pregado em Mira tem atravessado e tendo sido declarada insolvente recentemente.

O Algarve tem condi­ções naturais favoráveis ao desenvolvimento da aquicul­tura, em particular em modo extensivo e semi-intensivo. A produção nacional continua a não ser suficiente para cobrir as necessidades de consumo, devendo continuar a apostar-se no incentivo à atividade, a racionalização dos custos de produção, a investigação em torno da introdução de novas espécies, e a sensibilização no que se refere a opções e hábitos de consumo.

No Algarve consideram o sal como o seu “ouro branco” que tem como grande centro de produção as salinas tradicionais de sal do mar premium situadas nas reservas naturais da costa atlântica, dentro da protegida Ria Formosa e Sapal de Castro Marim.

A salicultura é outra atividade relevante no Algarve. Em termos de condições edafoclimáticas, é no Algarve que se encontram reunidas as melhores condições para a produção de sal marinho, tendo este salgado representado, em 2016, cerca de 94% da produção nacional, tal como em 2015. A produção média anual em Portugal é de cerca de 2.500 toneladas por lagoa de sal. O Algarve regista uma produti­vidade mais elevada, cerca de 3.500 toneladas. Salienta-se que o número de salinas em 2016 (69 unidades), manteve-se estável em relação a 2015. O número de unidades apuradas em 2016 resultou numa área de produção no Continente de 1.309 hectares (área média das salinas foi de 19 hectares) e em 106 mil toneladas de sal marinho produzidas (117 mil toneladas produzidas em 2015). A produção média anual por salina foi de 1.535 toneladas, enquanto o rendimento por hectare se situou nas 81 toneladas.

O Algarve tem a região de montanha com as serras do Caldeirão e de Monchique e o barrocal algarvio, que constrói um outro universo que está em grande mutação com problemas de desertificação mas também de novas oportunidades para os produtos tradicionais.

A indústria agroalimentar no Algarve tem sido caracterizada por uma baixa incorporação de tecnologia e inovação. No entanto, tem algum potencial de inovação nos seus processos económicos e produtivos, mas tem de oferecer qualidade e certificação das produções. Devem ser adotados sistemas de gestão de qualidade, automação, controlo, certificação e segurança alimentar que garantam que as exigências dos consumidores e a legislação sejam cumpridas.

Como referiu recentemente Fernando Severino, diretor regional da Agricultura e Pescas do Algarve, com o PRODER (2010-2015) — e um investimento de 260 milhões de euros — e do PROMAR, com 100 milhões de euros, permitiram o aparecimento de 500 jovens agricultores com investimentos nos citrinos, frutos vermelhos, horticultura tradicional, floricultura e plantas ornamentais, fruticultura, pomar tradicional – alfarrobeira, figueira, olival, fruticultura de regadio, apicultura (nas vertentes produtivas de mel, pólen e geleia), agro-indústria (adegas de quinta, transformação de alfarroba, centrais citrícolas e hortícolas, etc.).

Em 2016, a produção de citrinos atingiu os 62,4 milhões de euros, os frutos vermelhos, os 30 milhões de euros, a meloa, 928 mil euros, o tomate, 4,5 milhões de euros, a alfarroba, 15 milhões de euros, a apicultura, 15 milhões, os dióspiros, 3,8 milhões e o abacate, 3,2 milhões.

 

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