A nova indústria do Norte celebra com vinho verde

  • Filipe S. Fernandes
  • 4 Setembro 2017

O noroeste português constitui, a par da região metropolitana de Lisboa, um dos grandes motores regionais de desenvolvimento do país.

A região de Entre Douro e Minho tem 31% da população portuguesa, cerca de 3,2 milhões, concentra a população mais jovem do país. Constitui ainda hoje a maior concentração de emprego industrial do país, e o peso relativo da população formalmente empregada no setor primário é bastante reduzido.

O Entre Douro e Minho tem como símbolo o vinho verde, coincide geograficamente com a Região Demarcada dos Vinhos Verdes e estende-se pelo noroeste de Portugal, do rio Minho — que estabelece parte da fronteira com a Espanha –, a sul o rio Douro e as serras da Freita, Arada e Montemuro, a Este as serras da Peneda, Gerês, Cabreira e Marão e a Oeste o Oceano Atlântico. Em termos de área geográfica, é a maior região demarcada portuguesa, e uma das maiores da Europa. Conta-se que os vinhos verdes foram os primeiros vinhos portugueses a ser exportados durante os séculos XVI e XVII. Seguiam dos Vales do Minho e do Lima para o norte da Europa nos barcos que traziam o bacalhau e produtos manufaturados.

Mito ou facto, a história revela a abertura ao exterior desta região, na qual hoje as exportações dos vinhos verdes representam 50% do volume de negócios no setor. Como referiu Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) em 2000, as exportações de vinho Verde representavam apenas 15% das vendas mas fecharam 2016 “como o nosso ano recorde de exportação”, que tem como principais mercados os Estados Unidos da América e a Alemanha. Segundo a CVRVV, que tem 63 aderentes, o vinho Verde é já o segundo vinho mais vendido em Portugal, com 16,8% da quota de mercado, sendo 86% das vendas em vinhos verdes brancos.

A principal empresa portuguesa de vinhos, a Sogrape, foi fundada por Fernando Van Zeller Guedes que estava nos negócios dos vinhos verdes originários da quinta da família Aveleda e dos negócios do vinho do Porto que conhecia. Lançou-se com o vinho rosé Mateus que se tornou um best-seller através das rotas abertas pelo vinho do Porto, “o mais antigo cluster exportador do noroeste” como lhe chamou Felix Ribeiro, que se organizou em torno da produção, envelhecimento e exportação do Vinho do Porto, mais tarde alargando a sua atividade à produção e exportação de vinhos de mesa e que ainda conta com a presença grupos empresariais ingleses como Symington Family Estates, Fladgate, e franceses como a Gran Cruz Porto, Quinta do Noval.

As cepas de vinha subsistem tal como o milho e a indústria que no século XIX colonizaram a paisagem do Entre Douro e Minho, que assim se manteve até aos anos 70/80 do século XX. “A hegemonia da agricultura como principal atividade ocupadora do território dá então lugar a uma nova paisagem marcada por três fenómenos: edificabilidade associada à urbanização dos campos e do litoral; introdução da rede de autoestradas; e apropriação pelas plantações de eucalipto das áreas mais acidentadas e ocupadas por matos, bouças ou pinhais” refere José Manuel Félix Ribeiro e João Ferrão, na obra “Noroeste Global”, uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian 2014.

As fileiras agrícolas da região

A agricultura da região de Entre Douro e Minho caracteriza-se, para além da viticultura, pela especialização produtiva em “leite e bovinos de carne”, a horticultura intensiva combinada com extensiva, e a floresta de produção. Como se refere em Noroeste Global, “a consolidação das fileiras de matriz produtivista, que jogam em mercado aberto e competitivo e que, para sobreviverem, mantêm baixos custos unitários de produção (…) Territorialmente cada vez mais circunscritas, apresentam grande concentração produtiva, elevados índices de motorização e recurso às TIC e a serviços de apoio à produção”.

No leite, a progressão tem sido assente na Agros, cooperativa de leite dominante e um dos pilares da empresa Lactogal, a empresa líder de mercado em Portugal no setor dos produtos lácteos. Nesta bacia leiteira de Entre Douro e Minho existiam em 1998 mais de 37 mil produtores, sendo hoje menos de 3.000. Além de pequenas queijarias, a Nestlé — que já tinha em Avanca uma fábrica de farinhas lácteas –, comprou nos anos 1980 a fábrica de iogurtes Longa Vida. Mais recentemente surgiu uma empresa especializada no fabrico de componentes para iogurtes – a Frulact.

A fileira hortícola tem expressão sobretudo na faixa arenosa litoral ao longo das dunas secundárias entre o Mindelo (Vila do Conde) e a Apúlia (foz do Cávado, Esposende). São as chamadas terras de areia por contraste com a terra “preta”, a nascente. Abrange uma área de cerca de 15.000 hectares e expandiu-se em finais do século XIX. Uma boa parte do processo produtivo é endógena e vai desde os viveiros à logística de distribuição (transporte e armazenamento) como refere a obra Noroeste Global.

O livro acrescenta que está também a surgir “a rendibilização de práticas agro-florestais mais brandas, filiadas no pós produtivismo e em modelos eco rurais (agricultura biológica, multifuncionalidade no interior das explorações agrícolas, práticas produtivas mais brandas, ditas agroecológicas, recurso a um maior valor acrescentado pelas IGP – Indicação Geográfica Protegida, DOP – Denominação de Origem Protegida ou ETG – Especialidade Tradicional Garantida), valorizando e rendibilizando componentes imateriais – paisagem e memória do período de saber fazer e viver camponês – da ruralidade ou processos de renaturalização, que procuram compatibilizar produção material e proteção ambiental, reorientando a nossa relação com a natureza e recreando uma nova forma de olhar o campo”.

Com vários centros piscatórios na costa de Viana do Castelo a Espinho-Ovar, a região tem em Matosinhos, Vila do Conde e Póvoa do Varzim, as principais exportadoras de conservas de peixe, como a Ramirez, a Conserveira Poveira, a Gencoal e o Grupo de Conservas Portugal Norte. A região deu ainda origem à indústria de cordoaria para as pescas e a agricultura, em que pontifica a Cotesi do Grupo Violas, o maior produtor mundial de fio agrícola. Do fabrico de cordas, cabos e redes de fibras naturais evoluiu para a cordoaria em materiais sintéticos e, mais recentemente, para a cordoaria metálica para a exploração petrolífera offshore, em que se destacam empresas como a Lankhorst Euronete Portugal, a Cordex, a Sicor ou ainda a Cordenet.

Um motor de desenvolvimento de Portugal

O noroeste português constitui, a par da região metropolitana de Lisboa, um dos grandes motores regionais de desenvolvimento do país. A região de Entre Douro e Minho tem quase 1/3 da população portuguesa, concentra a população mais jovem do país, embora esteja a diminuir o peso quando comparado com Lisboa, e tem um elevada percentagem de população ativa.

Em termos de regiões metropolitanas, o Porto tem 1,7 milhões de habitantes e Lisboa 2,8 milhões, segundo dados do INE de 2015. Em termos de PIB, a região representa 26,6%, com a área metropolitana do Porto a deter uma fatia de 24%. A área metropolitana de Lisboa, onde se situa a capital e se concentram grande parte da administração pública, representa 36,4% do PIB.

Esta região de Entre Douro e Minho constitui ainda hoje a maior concentração de emprego industrial do país, e o peso relativo da população formalmente empregada no setor primário é bastante reduzido. O emprego terciário é importante nos municípios da área metropolitana do Porto, em Braga e, em menor escala, Guimarães e Viana do Castelo.

A região conta hoje também com marcas poderosas e com capacidade de atração e que tem tido impacto no turismo: a região do Douro e os seus cruzeiros e a cidade do Porto que foi eleito o melhor destino europeu de 2017, depois de o ter sido também em 2012 e 2014 pela European Best Destinations. Foi escolhida por 135 mil viajantes (44 mil dos quais em Portugal) num total de mais de 420 mil pessoas de 174 países.

“A visibilidade que este prémio traz é especialmente útil para o setor do turismo, mas é também uma forma de chamar a atenção do Porto como oportunidade de investimento e de empreendedorismo”, refere Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto e da Associação de Turismo do Porto e norte de Portugal.

O povoamento desta região apresenta-se disperso, fragmentado, descontínuo e, de baixa densidade em certas regiões, e é compacto em algumas áreas e disperso noutras. Mas está a sofrer processos de urbanização profundos com um crescimento urbano por extensão-agregação a partir do Grande Porto e de outros núcleos tradicionais (Braga, Aveiro, Guimarães, Santo Tirso, Vila Nova Famalicão, Barcelos, Penafiel-Paredes, Espinho, Viana do Castelo, etc.) da região metropolitana. Por outro lado, crescimento urbano por dispersão, isto é, desenvolvimento de urbanizações autónomas em relação aos tecidos urbanos existentes e localizadas sobretudo em áreas de transição entre o urbano e o rural: numa primeira fase, preferencialmente junto de estações ferroviárias e associadas a habitação secundária (por exemplo, entre Vila do Conde e Póvoa do Varzim ou entre Francelos e Granja); numa segunda fase, dinamizadas pela proliferação de infraestruturas viárias, localizando-se sobretudo ao longo das vias ou em torno dos nós de maior acessibilidade; mais recentemente, baseadas na infraestruturação dos meios rurais.

É uma região densamente povoada com a coroa de concelhos mais interiores a sofrerem com a perda de população e a registar alguns níveis altos de envelhecimento. Se a área metropolitana do Porto apresenta uma evolução positiva no domínio das qualificações, nas outras regiões verifica-se um aumento mas o peso das baixas qualificações não deixa de afetar a produtividade do trabalho e o crescimento.

Portos, auto-estradas e aeroportos

O Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões foi considerado o Edifício do Ano 2017 na categoria de Arquitetura Pública pelo website ArchDaily. O projeto de Luís Pedro Silva foi inaugurado em julho de 2015. O Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões alberga o Parque de Ciência e Tecnologias do Mar da Universidade do Porto e várias unidades de investigação com vocação marítima (da Biologia à Robótica), e ainda o CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha da Universidade do Porto, uma das mais relevantes unidades de investigação nacionais na área das Ciências Marinhas, integrado num dos únicos 25 Laboratórios Associados ao Estado do país. Em 2016, recebeu 84 navios e 71.799 passageiros, um pouco menos do que em 2015, em que registou 85 navios e quase 80 mil passageiros.

Este terminal faz parte do Porto de Leixões, um dos maiores do país, e é a maior infraestrutura portuária do Norte de Portugal, contando com 5 Km de cais, 55 ha de terraplenos e 120 ha de área molhada e tem terminais de granéis sólidos e líquidos, granéis sólidos agroalimentares, terminais petroleiro e oceânico, cimenteiro, contentores norte e sul (com capacidade conjunta de 600 mil TEU’s), Ro-Ro, Polivalentes. E ainda, conta com o porto de Viana do Castelo como apoio.

Este novo edifício é um símbolo da modernidade da malha de acessibilidades que recobre o Entre Douro e Minho. Há uma rede apertada de autoestradas como a A1 que vai do Porto a Lisboa, a A28 do Porto a Valença pelo litoral, a A4 que liga o Porto a Quintanilha passando por Penafiel e Vila Real.

A rede mais densa do noroeste é composta pelas estradas secundárias (EN, ER e EM) que organizam os interstícios dos eixos de alta capacidade no território metropolitano. Por exemplo, no Ave, muitas vezes esta rede em que se mistura a estrada e a rua, com densidade e contiguidade do edificado com usos mistos (habitação indústria, armazéns, edifícios-montra, etc.), congestionadas, misturando tráfegos de passageiros e mercadorias com locais de atravessamento geram alguma confusão viária e urbana. O Alto Minho ou o Vale do Cávado têm acessibilidades rodoviárias, quer inter, quer intra-regionais com fortes ligações de Braga, Barcelos e Esposende ao Vale do Ave e área metropolitana do Porto, a sul, e ao Minho-Lima e Espanha, a norte.

Em termos de eixos ferroviários tem a linha do Norte, a linha do Douro e as urbanas para Espinho, Aveiro, Caíde e Braga. Braga e Guimarães destacam-se, sendo esta última a única sede de concelho que se encontra integrada nos serviços Alfa Pendular até Faro (passando por Porto e Lisboa) e Inter-Cidades. A Linha do Minho, que faz a ligação da Galiza à Área Metropolitana do Porto. Merecem ainda referência as ligações à Galiza permitidas pelo atravessamento do rio Minho através de ferry boat (a partir de Caminha e de Vila Nova de Cerveira), da nova Ponte Internacional Cerveira/Goian e também da ponte rodoferroviária de Valença (conhecida por Ponte de Valença ou Ponte Internacional de Tuy).

O aeroporto do Porto foi considerado o melhor aeroporto da Europa para estruturas com dimensão entre cinco e 15 milhões de passageiros, distinção atribuída pelo ACI no âmbito do estudo ‘Airport Service Quality’ (ASQ) e baseada em inquéritos de satisfação dos passageiros, tendo registado em 2016 9,4 milhões de passageiros, uma subida de 16% face ao ano anterior). Já o Centro Logístico de Carga Aérea do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, construído pela ANA – Aeroportos de Portugal e com capacidade instalada de 60 mil toneladas/ano, destina-se, no essencial, aos grandes operadores de carga, nomeadamente os Integrators. Além do fomento do turismo com as ligações low cost, permite ligações diretas a Lisboa e às maiores capitais económicas europeias (Madrid, Barcelona, Paris, Londres, Roma, Bruxelas, Frankfurt, Munique, Milão, Dublin).

As plataformas logísticas (Maia/Trofa, Leixões e Valença) localizadas nas proximidades de nós de autoestradas dependem da existência de uma rede integrada de transportes de mercadorias. É relevante ainda a articulação com os portos galegos de Ferrol, Corunha e Vigo e outras infraestruturas de transporte, como revela o facto de a fronteira de Tui-Valença ser, a seguir a Vilar Formoso, a segunda com maior tráfego médio de veículos pesados.

O noroeste português detém uma rede de infraestruturas e equipamentos de elevada qualidade, com plataformas logísticas em rotas estratégicas de distribuição, uma boa cobertura por redes de telecomunicações, o aproveitamento das quotas mais elevadas a leste para a exploração da energia eólica e, ainda, o saber e conhecimento acumulados nas várias universidades sediadas na região nestes domínios.

O contexto de acessibilidades inter-regionais reforça o posicionamento do Cávado no noroeste português, ou na “Região urbano-metropolitana do Noroeste”, favorecendo, simultaneamente, o acesso a infraestruturas logísticas de grande escala, designadamente a plataforma urbana do Porto, a plataforma portuária de Leixões, o aeroporto internacional do Porto, a plataforma transfronteiriça de Valença e ainda os portos de Viana do Castelo e Vigo, o aeroporto de Vigo e a plataforma logística de Salvaterra do Miño (Galiza).

A região de Entre Douro e Minho

Considerou-se para análise a região de Entre Douro e Minho como formada pelas seguintes comunidades intermunicipais: Alto Minho (Arcos de Valdevez, Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Valença, Viana do Castelo. Vila Nova de Cerveira), Cávado (Amares, Barcelos, Braga, Esposende, Terras de Bouro e Vila Verde), Ave (Cabeceiras de Basto, Fafe, Guimarães, Mondim de Basto, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão e Vizela), Área Metropolitana do Porto (Arouca, Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Oliveira de Azeméis, Paredes, Porto, Póvoa de Varzim, Santa Maria da Feira, Santo Tirso, São João da Madeira, Trofa, Vale de Cambra, Valongo, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia) e do Tâmega e Sousa (Amarante, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Penafiel e Resende).

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