Há ainda um mistério por explicar nas contas da Yupido

"Depósitos à ordem" de 243 milhões e 28,8 mil milhões de capital social "subscrito e realizado em dinheiro" são dois dos aspetos mais intrigantes nas contas da empresa. O ECO falou com contabilistas.

Ainda mais um mistério nas contas da Yupido, a empresa portuguesa que tem inscrito um capital social de 28,8 mil milhões de euros. Ao que o ECO apurou, há pelo menos dois detalhes nas contas da companhia que estarão a merecer mais atenção por parte de quem está a acompanhar o caso.

A Yupido foi constituída em 2015 com um capital social superior a 243,3 milhões de euros. De acordo com um documento obtido pelo ECO, intitulado “Documento Particular que titula o Contrato de Sociedade Anónima”, esse valor corresponde, na esmagadora maioria, a entradas “em espécie” — concretamente, um “software de gestão para empresas”, avaliado por um revisor oficial de contas em 243 milhões de euros.

A esse valor, acrescem as entradas “em numerário”, no valor total de 35.002 euros. É, segundo a documentação do ECO, o único dinheiro em cash da empresa, que foi “depositado na conta da sociedade”. Ora, na prestação de contas individual, a Yupido tem inscritos mais de 243 milhões de euros na rubrica “caixa e depósitos bancários”, mais especificamente em “depósitos à ordem”.

O ECO analisou as contas da Yupido com três contabilistas certificados. Um deles, que não quis ser identificado argumentando que não queria comentar o trabalho de um colega, explicou que essa rubrica só deveria contemplar “moedas, notas ou cheques”: “Esse é o valor das disponibilidades. Tem de ser a coisa mais líquida da empresa. Só contempla notas, moedas e, no limite, cheques. Se é um ativo intangível, teria de estar numa rubrica de ativos intangíveis.” Ao ECO, outro contabilista corroborou esta informação, mas não quis entrar em mais detalhes sobre este caso concreto.

Rubrica “depósitos à ordem” com 243,3 milhões de euros inscritos.

Já Sofia Filipe, contabilista com 15 anos de experiência, quando questionada acerca da possibilidade de esse valor estar na rubrica dos “depósitos à ordem”, explicou que “possível é, se tiverem esse dinheiro” na empresa. “É sempre possível. É uma questão de, na contabilidade, haver suporte documental fiscalmente aceite que justifique esse saldo”, indicou. E foi mais longe: “Pode ter sido uma venda, pode ter sido alguém que depositou esse dinheiro, pode ter sido um sócio ou não sócio que tenha esse dinheiro. Pode ter vindo de qualquer sítio.”

As únicas entradas em dinheiro, segundo os documentos obtidos pelo ECO

Capital social “realizado em dinheiro”. Será?

No entanto, o grande mistério não são os 243,3 milhões de euros, a maioria derivados da avaliação de um software. O ECO sabe que, entre as entidades oficiais, são os 28,8 mil milhões de euros de capital social o valor a provocar o maior desconforto. Como o ECO avançou em exclusivo, resultaram da avaliação de um outro ativo intangível — uma “plataforma digital inovadora” de media. A grande questão é que o valor surge inscrito no pacto social da empresa como sendo capital social “integralmente subscrito e realizado em dinheiro”.

“Parece-me esquisito. Não percebo. Claramente não está correto”, disse um contabilista. Sofia Filipe também mostrou algum ceticismo: “O que é estranho, para mim, é a subscrição e a realização do capital social de 28,8 mil milhões de euros. Se está realizado em dinheiro, significa que os sócios tiveram que entrar com esse dinheiro. Tem de haver entrada desse valor”, indicou.

No entanto, a contabilista sublinhou: “Pode estar perfeitamente justificado e dentro de toda a legalidade. Basta que haja um adiantamento de um cliente qualquer, ou de vários clientes, que justifique esse montante. Não se pode dizer que alguma coisa esteja ilegal, porque só vendo na contabilidade. Não dá para especular. Não sabemos.”

O que é estranho, para mim, é a subscrição e a realização do capital social de 28,8 mil milhões de euros. Se está realizado em dinheiro, significa que os sócios tiveram que entrar com esse dinheiro.

Sofia Filipe

Contabilista

O ECO contactou o contabilista responsável pelas contas da Yupido, João Dias de Melo, que não quis fazer comentários. Quando questionado acerca do capital social, Francisco Mendes, porta-voz da Yupido, afirmou não poder falar de “questões contabilísticas”, mas garantiu que está tudo legal. José Rito, o auditor das contas da empresa, não estava disponível quando contactado pelo ECO — a renúncia ao cargo de fiscal único foi efetivada esta quinta-feira.

Por esta altura, as contas da Yupido já estarão a ser passadas a pente fino pelas autoridades. Na semana passada, a Polícia Judiciária confirmou ao Expresso estar a analisar o caso. O Ministério Público também indicou estar a acompanhar a situação. Já a CMVM e a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas iniciaram diligências para analisar as avaliações dos ativos intangíveis elaboradas pelo ROC António Alves da Silva.

A Yupido ainda não tem operações nem vendas, e também não tem funcionários. Registou cerca de 30.000 euros de prejuízo entre 2015 e 2016.

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