Smart cities: Ser mais smart, pôr a city no mapa

Sensores de monitorização, fibra ótica na montanha e sessões de Skype comunitário para os idosos. Ser mais smart é a preocupação de cada vez mais autarcas. Conheça quatro exemplos nesta área.

Os municípios portugueses estão cada vez mais smart. A criação de redes e as parcerias entre entidades estão a potenciar o fenómeno, que está cada vez mais na agenda dos autarcas.Pixabay

Portugal é um polo de inovação na Europa e muitas cidades portuguesas ambicionam ser cada vez mais smart. No campo das smart cities, o selo de “cidade inteligente” faz-se com dois carimbos: por um lado, o da tecnologia, por outro, o dos projetos que visam melhorar a vida dos munícipes e que não têm de ser necessariamente tecnológicos. Ora, nesta altura do campeonato, construir municípios mais inteligentes é uma prioridade para cada vez mais autarcas. Por isso, com as eleições à vista, o ECO foi conhecer quatro municípios portugueses com projetos que se destacam neste ramo.

Cascais

Existem vários exemplos incontornáveis e Cascais é um deles — aliás, o ECO já lá organizou uma conferência sobre o tema. Aqui, a inteligência surge na forma de melhoria da qualidade de vida. Por isso, não é de estranhar que num discurso sobre smart cities, Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, tenha dado como um bom exemplo o orçamento participativo do concelho. “Uma smart city tem necessariamente de ser democrática. Temos por isso o maior orçamento participativo da Europa”, anunciou.

Falar de smart cities é ainda falar de outra tendência: a das parcerias. As entidades começam a perceber que juntando esforços se vai mais longe. Por isso é que, nesse evento do ECO em cascais, Diogo Santos, associate partner da consultora Deloitte, afirmou com todas as letras: “O que está a ser mais decisivo em Portugal, mais do que a tecnologia, é a colaboração e o estabelecimento de parcerias.”

Por isso é que no site da autarquia de Cascais encontramos diversos projetos colaborativos que tornam a autarquia numa cidade mais smart. Um deles é a “Brigada Caça Watts”. Graças a uma parceria da Câmara Municipal de Cascais com a empresa municipal Cascais Próxima e a tecnológica Cloogy, os munícipes podem solicitar uma auditoria às suas casas e receber um relatório de eficiência energética com recomendações para poupar na conta da luz ao fim do mês.

Outro projeto impactante em Cascais é a aplicação fixCascais, que permite a qualquer pessoa reportar uma situação ou problema no concelho — ou, como disse ironicamente Carlos Carreiras, permite a qualquer pessoa “trabalhar à borla para a Câmara”. São apenas dois exemplos, mas… é ou não é smart?

“O século XXI será o século das cidades”, defendeu Carlos Carreiras na conferência Smart Cities & Smart TourismECO

Sabugueiro

Este exemplo não é uma cidade e talvez por isso seja ainda mais notório. No topo da Serra da Estrela encontra-se a primeira aldeia inteligente de montanha em Portugal. Trata-se do Sabugueiro, uma terra histórica do concelho de Seia, onde até já há cobertura de fibra ótica, num esforço conjunto da autarquia e da Fundação Vodafone, num investimento próximo dos 300.000 euros.

É comum encontrar-se a aldeia coberta de neve. E também é comum ver a população, tendencialmente envelhecida, visitar o centro de dia local para realizar breves testes de monitorização de sinais vitais. Graças a uma rede inovadora, foi possível reduzir a distância entre estes utentes e os médicos lá longe, na cidade. A estes dados podem aceder os profissionais na unidade de saúde mais próxima, permitindo um acompanhamento contínuo da saúde dos habitantes do Sabugueiro.

Além dos cuidados de saúde, da cobertura de fibra e da iluminação pública em LED, o Sabugueiro beneficia também de sensores para monitorizar o abastecimento de água, tomadas elétricas ligadas à internet para reduzir os consumos de energia em muitos dos lares e um carro elétrico Nissan Leaf que funciona como um táxi ecológico, servindo deslocações à cidade por razões de saúde de algum habitante ou para outros trabalhos administrativos.

Ao ECO, Célia Gonçalves, da Câmara Municipal de Seia e coordenadora técnica da Rede das Aldeias de Montanha, explicou que “as coisas estão a funcionar”. “Há uma maior familiarização da população com as novas tecnologias, também fruto da fibra ótica e da velocidade de dados”, explicou.

E acrescentou: “Já é comum haver algumas sessões de Skype comunitário na aldeia. Nas festas da aldeia houve uma. São sessões em que os moradores falam com pessoas e familiares que estão no estrangeiro.” O projeto de aldeia inteligente do Sabugueiro foi apresentado ao público em fevereiro de 2016.

O Sabugueiro é uma aldeia a 1.100 metros de altitude, em plena Serra da EstrelaFlávio Nunes/D.R.

Já é comum haver algumas sessões de Skype comunitário no Sabugueiro. Nas festas da aldeia houve uma.

Célia Gonçalves

Coordenadora técnica da Rede das Aldeias de Montanha

Águeda

No ranking dos municípios mais smart em Portugal, que avalia as áreas como a inovação, a sustentabilidade e a qualidade de vida, Águeda surge em segundo lugar, atrás do Porto. Tem já uma rede de bicicletas elétricas partilhadas, iluminação pública em LED (permite reduzir significativamente o consumo de energia) e, de acordo com o Público, existem planos para colocar sensores nos postes para monitorizar a temperatura, a qualidade do ar e por aí em diante.

Como nota o jornal, o facto de Águeda, com pouco mais de 47.700 habitantes em 2011, ser um município relativamente pequeno, isso não impediu o concelho de estar entre os grandes nesse ranking, estando mesmo acima de Cascais.

A par do Porto, é também o único a ter disponível uma plataforma na internet em que os cidadãos podem ter uma conta e ter acesso a um conjunto diversificado de serviços — a “área de munícipe”, com autenticação por email, número de identificação fiscal, ou mesmo via leitor de cartão de cidadão.

Mas nem tudo é um mar de rosas. Segundo o jornal local Região de Águeda, um concurso público para a compra de 10.000 luminárias LED para iluminação pública foi cancelado pelo presidente da Câmara Municipal, o socialista Gil Nadais, após forte contestação da oposição, que considerou que o processo não servia os interesses do município. Num estudo, o CDS concluiu que a compra estava “sobredimensionada” e que iria obrigar “à redução da qualidade da iluminação pública para alcançar poupanças adicionais”.

Concurso público em Águeda para compra de luminárias LED no valor de cinco milhões de euros foi cancelado após forte contestação da oposiçãoWikimedia Commons

Viseu

“A melhor cidade para viver.” É uma frase bem conhecida dos viseenses e que surge muitas vezes nos vídeos que a Câmara Municipal de Viseu publica no YouTube. Alguns deles servem para explicar os projetos que colocam Viseu como um município exemplar quando se fala em cidades inteligentes.

Um dos projetos mais ambiciosos enquadra-se na área da mobilidade e dá-se pelo nome de MUV, sigla para Mobilidade Urbana de Viseu. Num vídeo, a autarquia explica que “há novos desafios na mobilidade de Viseu” e que esta precisa de ser “mais eficiente, mais amiga do ambiente, mais amiga das pessoas e para todos, sem exclusões”. Segundo o município, o MUV trará a Viseu uma mobilidade “mais inteligente, mais integrada, mais verde, mais barata e mais bonita”.

Concretamente, o MUV engloba uma nova rede de concessão de transportes públicos, uma nova rede de parques de estacionamento com gestão integrada, uma central de mobilidade de Viseu com “sistemas smart“, transporte a pedido para freguesias de baixa densidade e uma rede urbana de ciclovias que deverá nascer em 2018, de acordo com o vídeo. A ideia é ter até 66 quilómetros de ciclovias, permitindo evitar “mais de 5.000 toneladas de dióxido de carbono” emitidas para a atmosfera até 2025.

Atualmente, a Câmara Municipal de Viseu é presidida por Almeida Henriques, que lidera a secção de smart cities da Associação Nacional de Municípios. Em março, numa entrevista ao Jornal de Negócios, defendeu que a reprogramação do Portugal 2020 deveria dar “mais enfoque” à “lógica integrada de cidade, incluindo o financiamento à tecnologia”. E explicou, por fim, qual é a lógica de os municípios se tornarem mais smart: “O cidadão é exigente, e nós temos de prestar um serviço de qualidade, mas os nossos orçamentos não são elásticos. Desta forma, é preciso usar a tecnologia para poder diminuir o custo”, defendeu.

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