Catalunha: Governo fala em 465 feridos. Serviços de saúde confirmam 91

A intervenção policial para impedir o referendo já provocou diversos feridos. O Governo catalão atualizou o número de feridos identificados para 465, acima dos 91 confirmados pelos serviços de saúde.

A votação do referendo à independência arrancou, este domingo, com forte intervenção da Polícia Nacional espanhola que procura fechar assembleias de voto. A votação terminou às 20 horas locais, ou 19 em Lisboa, e várias imagens mostraram os Mossos d’Esquadra, a polícia regional catalã, a transportar urnas para fora de locais de voto improvisados.

O governo regional catalão atualizou para 465 o número de feridos na sequência de distúrbios relacionados com a realização do referendo pela independência na Catalunha. Este número surge depois de os Serviços de Saúde da Catalunha terem informado que o número de pessoas feridas nos distúrbios relacionados com o referendo ascende, a 91 pessoas, menos de um terço dos mencionados anteriormente (337) pelo governo regional.

Um porta-voz dos Serviços de Saúde catalães precisou que “deram entrada nos hospitais e centros de saúde 337 pessoas, a maioria por se terem sentido mal ou por problemas ligeiros, mas entre eles 90 feridos e um ferido grave, num olho“.

Relativamente à votação, o governo de Espanha diz que não houve referendo hoje. A Vice-Presidente do Executivo liderado por Mariano Rajoy pediu que se acabe com o que apelida de “irresponsabilidade” e elogiou a atuação das forças de segurança por terem cumprido com as ordens. “Não houve referendo nem aparência de referendo”, disse Soraya Sáenz, em conferência de imprensa, acrescentando que “nunca teve sentido seguir por esta senda de irracionalidade, e não tem sentido continuar”.

Relativamente à atuação das forças policiais, a governante defendeu que “atuaram com profissionalismo e de modo proporcional e proporcionado”.

Pouco antes da hora programada para o arranque da votação, às 9h00 locais (8h00 de Lisboa), enquanto os catalães guardavam e aguardavam para votar, a polícia espanhola ocupou o pavilhão desportivo da escola em Girona onde deveria votar o líder da ‘Generalitat’, Carles Puigdemont, fazendo cumprir a ordem judicial de impedir o referendo à independência da Catalunha. A polícia nacional antimotim forçou a entrada no local usando escudos e equipamentos para quebrar as correntes que protegiam o local e levou as urnas de voto.

Esta ação policial foi semelhante à que está a ocorrer em vários locais de votação e que tem elevado o nível de tensão e já terá provocado várias dezenas de feridos, segundo os Serviços de Saúde da região.

Várias pessoas ficaram feridas após uma ação da polícia antimotim da Guardia Civil quando tentavam entrar na sala de exposições de Sant Carles de la Ràpita (Tarragona), enquanto em Barcelona a polícia disparou balas de borracha. De acordo com Efe, cerca das 09:30 (08:30 em Lisboa), nas portas do pavilhão onde todas as assembleias de voto da cidade foram concentradas estavam cerca de 200 pessoas esperando para votar quando chegaram várias carrinhas da Guardia Civil. Diante da resistência, os agentes usaram os bastões para entrar no local e apreender o material eleitoral. Após uma primeira tentativa em que foram impedidos de aceder, os agentes solicitaram reforços e tentaram uma segunda carga policial.

Nessa ocasião, o presidente da Câmara, Josep Caparrós (ERC), chegou ao local e pediu às pessoas concentradas que se dispersassem e deixassem entrar os agentes no local, que apreenderam o material eleitoral.

Uma ambulância chegou ao lugar para assistir vários feridos e alguns manifestantes tinham sangue no rosto. No exterior de uma assembleia de voto em Barcelona, a polícia antimotim disparou balas de borracha contra manifestantes, fazendo vários feridos.

Ação policial não impede voto do líder da Catalunha

A atuação policial, no entanto, não foi suficiente para impedir que o líder da Catalunha votasse. Carles Puigdemont, evitando o centro desportivo escolar onde estava inscrito, por ter sido ocupado pela polícia, acabou por votar em Cornellà de Terri, a 15 km de distância.

A partir da sua conta da rede de mensagens Twitter, o presidente da Assembleia Nacional Catalã, Jordi Sánchez, publicou uma foto em que aparece Puigdemont a introduzir o boletim e voto na urna, numa das mesas autorizadas em Cornellà de Terri. “O presidente Puigdemont vota. Não podem silenciar a voz de um povo. Votaremos e ganharemos”, escreveu Sánchez.

Entretanto, também Carles Puigdemont, criticou a repressão das autoridades policiais, dizendo que foi “injustificada, excessiva e uso irresponsável de violência”. “Não terminou o desejo dos catalães de votar e decidir de forma livre sobre o seu futuro, mas ajudou a responder a todas as questões que temos a colocar hoje”, disse o líder da Catalunha em Girona, citado pela Bloomberg. E acrescentou: “hoje, o Estado espanhol perdeu”.

Procuradoria espanhola vai agir contra os Mossos d’Esquadra

Entretanto, a Procuradoria-Geral de Espanha vai agir contra os Mossos d’Esquadra por entender que a polícia regional da Catalunha agiu como uma “polícia política”, por não ter acatado a ordem de fechar várias assembleias de voto no referendo catalão.

Fontes da Procuradoria-Geral do Estado espanhol citadas pelo jornal El País manifestaram o seu “mal-estar” quanto à atuação dos agentes da polícia autonómica por “terem atraiçoado a confiança que os juízes e os procuradores depositaram neles até ao último momento”.

Desde sexta-feira que várias escolas – designadas pelo Governo regional como assembleias de voto do referendo de hoje – estavam ocupadas por pais, alunos e residentes na Catalunha, para garantir que os locais não eram fechados pelas autoridades.

Ainda assim, os Mossos d’Esquadra (polícia catalã) fecharam dezenas de colégios eleitorais em toda a Catalunha, embora em alguns locais se tenham limitado a registar a concentração popular e saído sob aplausos da população.

Face à inação da polícia regional em alguns locais, foram chamadas a Guardia Civil e a Polícia Nacional espanhola. Foram estes corpos de polícia de âmbito nacional que então protagonizaram os maiores momentos de tensão para tentar impedir o referendo.

De acordo com a agência espanhola EFE, a decisão da Procuradoria não vai ser tomada senão no final do dia.

Entretanto, as cinco organizações sindicais representativas do Corpo Nacional de Polícia de Espanha anunciaram este domingo, em comunicado conjunto, que vão agir legalmente contra os Mossos d’Esquadra pela forma como a polícia regional catalã atuou no referendo da Catalunha.

Não só se esquivaram a cumprir o que foi ordenado pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, como agiram com uma ligeireza vergonhosa, se não mesmo com obstrucionismo, inclusivamente manipulando dados sobre os centros de votação”, asseguram as associações numa nota à imprensa.

A nota foi assinada pelo Sindicato Unificado da Polícia, a Confederação Espanhola de Polícia, a União Federal de Polícia, o Sindicato Profissional da Polícia e a Alternativa Sindical de Polícia.

As associações de polícia consideram que o dispositivo formulado pela “chefia deste Corpo [os Mossos d’Esquadra] foi insuficiente, deliberadamente débil, com uma equidistância que envergonha” e, por isso mesmo, anunciaram o início de ações legais contra o líder dos Mossos, Josep Lluis Trapero, e a sua “equipa diretiva”.

Também vão mover processos contra todos os Mossos “que apareceram hoje nas imagens a dificultar o trabalho da Polícia Nacional e da Guarda Civil ou agindo com uma claríssima falta de respeito pelas ordens judiciais”.

Artigo atualizado pela última vez às 19.30.

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