Empresa portuguesa resolve problema de 45 anos à Mattel

Imagine que é daltónico. Agora tente jogar às cartas, nomeadamente ao UNO. Impossível? Agora já não. A Mattel debatia-se há 45 anos com este problemas. A portuguesa ColorADD resolveu.

Sair de casa com uma meia de cada cor. Ser incapaz de introduzir num documento as correções que o chefe pediu, porque não consegue distinguir as anotações feitas a vermelho e a verde. Ir ao hospital e não perceber o grau de prioridade que lhe foi dado no atendimento. Ser incapaz de jogar Uno. Este é o dia-a-dia de 350 milhões de pessoas em todo o mundo. Pessoas que sofrem de daltonismo.

Foi a pensar nelas que nasceu o ColorADD. Um sistema de identificação de cores inventado pelo português Miguel Neiva (que não é daltónico) e que permite através de símbolos — traços e triângulos — perceber as diferenças. A ideia, inédita a nível mundial, partiu de um exercício de escola. A cada cor primária (amarelo, vermelho e azul) atribuir um símbolo e depois combiná-los da mesma forma como se combinam as cores.

“Assim nasceu uma linguagem de 27 carateres que pode ser usada em qualquer parte do mundo“, explicou Miguel Neiva, numa apresentação de projetos de Inovação Social. E é exatamente isso que está a acontecer. A equipa está a trabalhar com o metro de Londres e de Madrid para usarem o código para identificar as diferentes linhas, que são distinguidas por cores, isto depois de uma experiência com o metro do Porto. Mas está também em conversas com a Liga de Clubes e com a UEFA na organização dos estádios, sendo que no capítulo do futebol a grande vitória para os daltónicos foi conseguir que a bola não fosse laranja.

O grande marco para a ColorADD foi conseguir resolver um problema com 45 anos à Mattel. A multinacional norte-americana fabricante de brinquedos veio encontrar em Portugal a solução para o seu jogo mais vendido em todo o mundo — o UNO.

O jogo UNO, nos Estados Unidos, já vem equipado com o código de identificação de cores da ColorADD. Na União Europeia só em Novembro.

Miguel Neiva conta que, para já, o jogo identificado com o código de cores só está disponível nos Estados Unidos mas, na primeira semana de novembro, passará também a estar na União Europeia. Esta alteração permitiu que as vendas subissem 66%. “É a prova de que é possível pôr as empresas a ganhar dinheiro e fazer o bem às pessoas”, sublinhou o designer gráfico.

A ajuda que é dada já valeu à ColorADD o reconhecimento por parte da ZeroDiscrimination, das Nações Unidas, mas também um prémio do Banco Europeu de Investimento, que validou o modelo de negócio da empresa. Este modelo consiste na cobrança de uma taxa às empresas, que varia de acordo com a sua dimensão. Ou seja, a Mattel pagará um valor superior ao do Continente, por exemplo, que também usa este código universal e não discriminatório no semáforo nutricional dos produtos ou nas roupas da Zippy, ou o Hospital de São João do Porto que rotula os fármacos no bloco operatório para evitar a troca de seringas, ou ainda a Viarco que o usa para identificar os lápis de cor, uma opção que também ajudou a recuperar as vendas, diz Miguel Neiva. Exceção feita para o setor da educação que, no entender do promotor do projeto, deve ser gratuita.

Para este projeto, Miguel Neiva contou com um apoio muito importante do Portugal Inovação Social — cerca de 250 mil euros para apoiar a execução do “programa ColorADD nas Escolas” na região Norte e Alentejo — da Fundação Calouste Gulbenkian. O Portugal Inovação Social resulta da opção de Portugal destinar 150 milhões de euros do Fundo Social Europeu para a inovação social. Foi o primeiro Estado membro a fazê-lo. O dinheiro é atribuído aos projetos através de candidaturas, a quatro linhas de financiamento.

Através das Parcerias para o Impacto já foram aprovados 35 projetos, que terão um apoio de 7,5 milhões de euros do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego (POISE) e três milhões de investidores sociais como a Gulbenkian, as câmaras municipais, etc.. O projeto de Miguel Neiva foi um dos vencedores, assim como um outro de inclusão social de reclusos, através da sua participação na criação de uma ópera e da gestão de um novo espaço dentro da prisão dedicado às artes performativas.

Estas parcerias destinam-se a promotores que queiram implementar um plano de desenvolvimento de um a três anos, para alcançarem maior escala e impacto. O instrumento financia os custos elegíveis num valor superior a 50.000 euros de subvenção não reembolsável do Portugal 2020 e até um máximo de 70% das suas necessidades de financiamento, sendo o restante financiamento suportado por investidores sociais.

Já no âmbito dos Títulos de Impacto Social, outra das linhas de financiamento possível também já foi aberto um aviso de candidaturas e aprovados três projetos que vão receber um apoio de 1,5 milhões de euros do POISE. De salientar que estes Títulos funcionam “numa lógica de Parceria Público Privada ao contrário”, explicou Filipe Almeida, presidente do Portugal Inovação Social, numa apresentação aos jornalistas, em antecipação da conferência europeia para promover a inovação social, que se realiza a 27 e 28 de novembro. “Nos Títulos de Impacto Social, o risco é transferido para os parceiros, já que são contratualizados resultados e só se estes forem alcançados, o projeto poderá ser financiado a 100%”, acrescentou o responsável.

O Portugal Inovação Social também já fez previamente um concurso para capacitação para o investimento que tinha por objetivo “ajudar a desenvolver as equipas de gestão que vão desenvolver estes projetos”, disse Filipe Almeida. Em causa estava uma dotação de três milhões de euros, um valor que se mostrou aquém do entusiasmo desenvolvido. Foram apresentadas 168 candidaturas, que correspondem a 7,85 milhões de euros de necessidades de financiamento. Estas candidaturas foram distribuídas da seguinte forma: Norte – 81 candidaturas (3,8 milhões de euros); Centro – 72 candidaturas (3,4 milhões) e Alentejo – 15 candidaturas (700 mil euros).

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