UTAO estima défice orçamental de 0,3% até setembro

  • Margarida Peixoto
  • 5 Dezembro 2017

O défice registado nos primeiros nove meses do ano foi de 0,3%, na contabilidade que importa para Bruxelas. São boas notícias, mas não tão boas como parece.

É mais uma boa notícia para o ministro das Finanças, Mário Centeno. No dia seguinte à sua eleição como presidente do Eurogrupo, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) enviou uma nota de análise aos deputados da Assembleia da República onde estima um défice orçamental de apenas 0,3% do PIB nos primeiros nove meses de 2017. O valor compara favoravelmente com a meta definida pelo Governo para o ano completo, de 1,4%. Mas calma: o número é bom, mas não tão bom como parece.

Os peritos em contas que dão apoio ao Parlamento estimam que “o défice das administrações públicas em contabilidade nacional” — a ótica de análise que interessa a Bruxelas — “registado até setembro se tenha situado entre 0,6% e 0% do PIB”, lê-se na nota enviada aos deputados, a que o ECO teve acesso. Ou seja, “de acordo com a informação disponível, a estimativa realizada aponta para que o valor central do défice tenha ascendido a 0,3% do PIB no período de janeiro a setembro“, continua a análise da UTAO, realizada no âmbito da divulgação dos dados de execução por parte da Direção-geral do Orçamento.

O número compara favoravelmente com a meta de 1,4% do PIB, revista em baixa no âmbito do Orçamento do Estado para 2018, face aos iniciais 1,6%. Mas não é extraordinário: não deverá ser suficientemente baixo para colocar Centeno em apuros na hora de explicar as contas aos parceiros políticos da esquerda que sustentam o Executivo socialista — e que por variadas vezes têm criticado o défice demasiado baixo. Apesar de o valor do défice estar aquém da meta, deverá chegar ao final do ano em linha com o previsto.

Os peritos avisam que o último trimestre do ano deverá ser mais negativo, o que equilibrará o resultado final para um número em linha com a meta. “No último trimestre de 2017 é, contudo, previsível que a melhoria do défice face ao período homólogo se reduza e que o défice global se aproxime mais do objetivo anual em virtude de um conjunto de pressões”, lê-se no documento.

Porquê? Os peritos identificam cinco efeitos:

  1. Efeito PERES em 2016. A UTAO nota que o saldo orçamental de 2016 estava positivamente influenciado no final do ano pelo Programa Especial de Recuperação de Dívidas ao Estado, um impacto que agora não se vai repetir;
  2. Efeito pre-paid margins. No final de 2016 Portugal também recebeu por parte do Fundo Europeu de Estabilidade as pre-paid margins. Este efeito também não se repete.
  3. Alteração do perfil de pagamento dos subsídios de Natal. Os funcionários públicos e os pensionistas passaram de um sistema em duodécimos em 2016 para um sistema em que metade do subsídio é paga em duodécimos, mas a outra metade é paga em novembro. Esta diferença beneficiou o défice em termos acumulados até setembro, mas vai prejudicar no último trimestre do ano. A UTAO estima este efeito, em termos líquidos, em 0,8% do PIB.
  4. Eliminação gradual da sobretaxa. Como a sobretaxa de IRS foi sendo eliminada ao longo de 2017, consoante os rendimentos dos contribuintes, o maior impacto desta medida será sentido no final do ano. Em termos anuais o efeito esperado é de 0,1% do PIB.
  5. Atualização das pensões em agosto. Os pensionistas tiveram um aumento extraordinário das pensões em agosto o que faz engordar a despesa a partir desse mês, quando comparada com os valores da primeira metade do ano. O acréscimo anual dos gastos previsto pelo Governo é de 0,1% do PIB.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

UTAO estima défice orçamental de 0,3% até setembro

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião