Exclusivo Administrador financeiro da Associação Mutualista votou contra aumento de capital no Montepio

  • Margarida Peixoto
  • 5 Janeiro 2018

Miguel Coelho, o administrador com o pelouro financeiro, votou contra o aumento de capital de 250 milhões de euros no Montepio. Mesmo assim, a operação avançou.

Tomás Correia, presidente da Associação Mutualista, conseguiu a aprovação do aumento de capital da Caixa Económica Montepio Geral no valor de 250 milhões de euros, de acordo com o exigido pelo Banco de Portugal.Paula Nunes / ECO

Miguel Coelho, administrador financeiro da Associação Mutualista Montepio, votou contra a decisão, tomada em junho, de aumentar o capital da Caixa Económica em 250 milhões de euros, apurou o ECO. O administrador apresentou uma declaração de voto onde se mostrou preocupado com as contas da Mutualista e com o facto de o investimento implicar uma perda de rendimento para a associação.

A 30 de junho, o banco Montepio comunicou à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) um aumento de capital de 250 milhões de euros, integralmente realizado pela Associação Mutualista. O banco ficou com um capital de 2.020 milhões de euros e este foi o culminar de uma decisão, tomada nesse mesmo mês, pelo Conselho de Administração e pelo Conselho Geral da Associação. Uma decisão que, ao que apurou o ECO, não foi simples de tomar.

Na declaração de voto que apresentou, Miguel Coelho, o administrador da Associação com o pelouro financeiro, mostrou-se preocupado com as contas da Associação e notou que para concretizar o aumento de capital em causa, a Associação teria de retirar poupanças que estavam aplicadas em instrumentos financeiros dos quais obtinha alguma rendibilidade. Nesse sentido, investir no banco Montepio fragilizaria as contas da Associação, colocando-as na circunstância de se, um dia mais tarde, fosse necessário nova injeção de capital, poder não ter condições para o fazer.

O aumento de capital foi concretizado através da conversão de obrigações de curto prazo, que estavam investidas na Caixa Económica, em capital do banco. Mas isto quer dizer que a Associação Mutualista prescindiu de ser reembolsada daquele montante, passando a ser antes detentora de ações da instituição, no mesmo valor.

Miguel Coelho acabou assim por votar contra o aumento de capital. Já Fernando Ribeiro Mendes absteve-se. O presidente da Associação Mutualista, António Tomás Correia, e os restantes dois vogais — Virgílio Lima e Carlos Morais Beato — votaram a favor e aprovaram a injeção de capital.

Não obstante quaisquer posições individuais dos seus membros, na liberdade e independência que lhes assiste no exercício das suas funções, e discussões internas sobre os temas em agenda, as decisões são colegiais.

Associação Mutualista Montepio

Assessoria de imprensa

Do lado dos conselheiros, a maioria votou a favor da mobilização dos meios necessários. Houve conselheiros que interpretaram o voto contra do administrador financeiro como um sinal de risco para as contas da associação, mas compreenderam que não fazia sentido deixar o banco sem o reforço de capital exigido pelo Banco de Portugal — uma necessidade que tinha, na verdade, sido afastada pelo presidente do banco, José Félix Morgado, cerca de um mês antes.

Além disso, havia já conversações sobre a possibilidade de a Santa Casa da Misericórdia entrar no capital do banco. Mais: acreditava-se na hipótese de essa entrada de capital ser feita por contrapartida de uma redução da exposição da própria Associação Mutualista, e não para aumentar o capital total do banco — na prática, seria uma espécie de venda de parte do capital da Associação à Misericórdia, permitindo à Associação recuperar parte do investimento em causa.

Terá sido por isso que, embora constrangidos, muitos conselheiros votaram favoravelmente o aumento de capital no Montepio.

O ECO contactou diretamente Miguel Coelho, que se escusou a fazer quaisquer comentários e remeteu a resposta para a assessoria de imprensa da Associação Mutualista. Contactada, fonte oficial desvalorizou as divergências de opinião entre os membros do conselho de administração e do conselho geral.

“Não obstante quaisquer posições individuais dos seus membros, na liberdade e independência que lhes assiste no exercício das suas funções, e discussões internas sobre os temas em agenda, as decisões são colegiais”, defendeu. E frisou que, “no estrito cumprimento das disposições regulamentares que estiveram na origem do aumento de capital” de 30 de junho, o Conselho de Administração deliberou pela sua subscrição e o Conselho Geral deliberou pela mobilização dos recursos necessários para a concretização dessa subscrição.”

A CEMG obteve, no fecho de contas do terceiro trimestre de 2017, um rácio de Common Equity Tier I de 13,0% e um rácio de Total Capital de 13,2%, ambos em phasing-in, solidez que lhe permite ser atualmente uma das mais bem capitalizadas Instituições Financeiras a operar no mercado português.

Associação Mutualista Montepio

Assessoria de imprensa

A mesma fonte oficial recordou ainda que participaram na decisão o conselho de administração, composto por cinco administradores, e o conselho geral, “composto por 23 conselheiros“. E fez ainda questão de recordar que com o aumento de capital em causa, o banco conseguiu “no fecho de contas do terceiro trimestre de 2017, um rácio de Common Equity Tier I de 13% e um rácio de Total Capital de 13,2%, ambos em phasing-in, solidez que lhe permite ser atualmente uma das mais bem capitalizadas instituições financeiras a operar no mercado português.”

Confrontada especificamente com o voto contra de Miguel Coelho e a abstenção de Ribeiro Mendes, fonte oficial da Associação não quis acrescentar mais comentários e frisou apenas que a posição assumida pela assessoria de imprensa é corroborada pelo próprio administrador financeiro, Miguel Coelho.

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