Quanto vale o Montepio? Muito menos do que a Associação diz que vale

Quanto vale o Montepio? Tomás Correia avalia o banco em 2.000 milhões. Mas o mercado torce o nariz. Múltiplos apontam para um valor de mercado de 1.300 milhões. E não dão mais do que 1.700 milhões.

Tomás Correia não quer dar descontos, mas investidores torcem o nariz à avaliação que a Associação Mutualista faz do Montepio.

Afinal, quanto vale o Montepio? A julgar pelo valor que o mercado está a atribuir ao BCP e ao setor financeiro europeu, o banco da Associação Mutualista deverá valer aproximadamente 1.300 milhões de euros. Até pode estar avaliado em 1.700 milhões, nas melhores estimativas. Mas, seja como for, os investidores torcem o nariz à avaliação que Tomás Correia faz da Caixa Económica: 2.000 mil milhões de euros. É muito dinheiro e a Santa Casa já disse que vai querer um desconto.

À espera da avaliação independente do Haitong, que deverá trazer maior clareza em relação àquilo que a Santa Casa poderá investir no Montepio, a Associação Mutualista tem já um valor fixado pelos 10% do banco que quer alienar à instituição liderada por Edmundo Martinho: 200 milhões de euros. E Tomás Correia parece pouco disponível para rever esta avaliação que tem implícita uma regra de três simples — se o banco está contabilizado no balanço da Mutualista em cerca de 2.000 milhões de euros, logo 10% custam 200 milhões. Simples? Não é bem assim.

Fontes do mercado explicaram ao ECO que valor contabilístico do Montepio não é o indicador mais razoável para calcular o valor justo do banco. Isto porque o valor patrimonial resulta de uma avaliação que a própria associação fez do banco num determinado momento no tempo. Além disso, também incorpora ativos intangíveis (como a marca e reputação, por exemplo) e que são de difícil mensuração, trazendo subjetividade a um exercício de avaliação de uma empresa.

Alternativamente, o mercado recorre com frequência a indicadores financeiros mais objetivos para isolar essa análise de elementos de dúvida. Desse modo, os investidores conseguem comparar determinada empresa com a avaliação que se faz dos pares: são os chamados múltiplos. Foi esse exercício que fizemos, com a ajuda de analistas.

Afinal, quanto vale?

Um analista esclareceu que o total dos capitais próprios do Montepio “é um bom proxy, uma boa aproximação ao valor do banco em termos daquilo que está a ser negociado nos mercados”. “Mas depois há muitas especificidades em cada banco, e isso pode fazer toda a diferença”, sinalizou a mesma fonte. Ou seja, este exercício também não está isento de “impurezas”.

Em todo o caso, essa informação está disponível na demonstração de resultados trimestrais do banco — aliás, é com base em dados na sua maioria já conhecidos que os especialistas do Haitong estão a fazer a sua análise. O Expresso revelou que não foi feita qualquer due dilligence, um procedimento habitual nestas avaliações e que iria permitir verificar toda e qualquer informação financeira.

Adiante. A 30 de setembro, o total dos capitais próprios do Montepio situava-se nos 1.764 milhões de euros. A partir deste valor é possível comparar com o BCP, por exemplo, que está cotado na bolsa portuguesa. O banco liderado por Nuno Amado apresentava-se na mesma data com capitais próprios de cerca de seis mil milhões de euros. Mas os investidores avaliam-no em apenas 4,3 mil milhões. Isto quer dizer que o mercado dá apenas 72% pelo banco face ao total dos capitais próprios, incorporando um múltiplo de 0,72.

Se aplicássemos o múltiplo do BCP ao Montepio, o banco da mutualista apresentar-se-ia com uma avaliação de 1.270 milhões de euros se estivesse cotado na bolsa. E, nesse caso, os 10% custariam aos cofres da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa aproximadamente 127 milhões de euros — acima, ainda assim, do teto de 75 milhões estabelecido pelo parecer não vinculativo da Santa Casa que recomenda que a Misericórdia não aplique mais do que 10% do seu ativo de 743 milhões de euros num único investimento.

Múltiplos para Santa Casa ver

Fonte: BCP e Reuters

Na Europa, o setor da banca está a negociar com um múltiplo mais alto, de 0,87 — o que na prática quer dizer que os investidores avaliam o setor a um nível mais próximo dos capitais próprios. Num exercício semelhante, este múltiplo europeu aplicado ao Montepio permitiria chegar a um valor de mercado de 1.500 milhões de euros. E, comparando com o setor espanhol, o múltiplo de 0,97 daria uma avaliação de 1.700 milhões de euros à Caixa Económica, a melhor avaliação de todas.

Explicou uma fonte do setor ao ECO: “Aplicando o múltiplo do BCP e da média espanhola e europeia, conseguimos ter uma amplitude razoável relativamente à avaliação do banco”. A Santa Casa decide até final do mês.

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