A pomba Yellen voa da Fed. Vem aí o falcão Powell?

Duas aves, cada uma com a sua política monetária. Mas serão assim tão diferentes? Yellen tem a sua última reunião hoje. Powell entra em jogo na próxima segunda-feira.

Yellen e Powell, a pomba e o falcão. Fotomontagem: Lídia Leão.Fotomontagem: Lídia Leão.

Quatro anos depois, Janet Yellen vai abandonar a Reserva Federal. É um mandato único que termina pela vontade de Donald Trump. Esta quarta-feira é a sua última reunião à frente da Fed. Para o lugar, o Presidente dos EUA nomeou Jerome Powell. Yellen, descrita como pomba (mais cautelosa) pelos mercados, vai dar lugar a um falcão (mais agressivo), Powell. Será mesmo assim?

Na reunião desta quarta-feira os dois vão estar sentados à mesa das decisões do Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC). “Ambos vão querer transmitir continuidade“, diz Vincent Reinhart, um ex-economista da Fed. Não haverá conferência de imprensa. Os mercados terão de esperar por março para ouvir Jerome Powell pela primeira vez que irá, possivelmente, anunciar a primeira subida da taxa de juro de 2018.

“Quase que nos esquecíamos que havia uma reunião”, comenta o economista-chefe da Standish (parte da BNY Mellon), dado que não deverão existir novidades. A principal é mesmo a saída de Yellen e a entrada de Powell. “Vai ser interessante ver se o novo presidente da Fed está disposto a abrir o debate sobre a possibilidade de abandonar a meta da inflação, considerada por alguns como sendo muito rigorosa“, aponta Franck Dixmier, diretor global de Fixed Income da AllianzGI.

Há décadas que nenhum presidente da Reserva Federal ficava no cargo menos do que dois mandatos. É o que vai acontecer a Janet Yellen que deixa o cargo este sábado, dia 3 de fevereiro. Em cena entra Jerome Powell, uma escolha pessoal de Donald Trump. E não é por acaso que numa das primeiras vezes que falou após ter sido nomeado disse que apoiava um aumento da taxa de juro.

O que é que os pássaros têm a ver com a política monetária? A dicotomia é simplista, mas dá uma ideia do que cada um defende. Na gíria dos mercados, uma pomba (“dove”) é alguém cauteloso quanto ao futuro, que prefere estimular a economia dando mais ênfase a ter uma taxa de desemprego baixa. Por outro lado, o falcão (“hawk”) tem como principal prioridade manter a inflação baixa, apertando a política monetária de forma a não criar distorções nos mercados acionistas.

Contudo, é preciso ressalvar que estes conceitos são condicionados pelos ciclos económicos e a política monetária em curso, não só a nacional mas também a internacional. Nos anos 90, por exemplo, Janet Yellen era considerada um falcão antes de se dar a bolha das dot com por defender o aumento da taxa de juro.

Quando passou a liderar a Fed, Yellen sucedeu a Ben Bernanke, a quem coube iniciar a política monetária de estímulos para fazer face à crise financeira de 2008. Em 2014, a atual presidente da Fed herdou o quantatitive easing e ficou com a responsabilidade de acertar no momento exato para tirar os estímulos da economia norte-americana. Uma suave transição que aconteceu, sobretudo, nos últimos dois anos.

Yellen começou no final de 2015 a retirar os estímulos da economia. Em 2017 chegaram mais três subidas no “preço do dinheiro” e a Fed prevê agora três aumentos da taxa de juro em 2018. Mas Powell pode ter outra ideia em mente, principalmente se Donald Trump — que já criticou Yellen — o pressionar a ser mais brusco.

Desde 2012 na Fed, Jerome Powell — o primeiro presidente em três décadas que não é doutorado em economia — formou-se em ciências políticas e depois em direito. Tem uma fortuna de muitos milhões de dólares. Apesar de ter sido escolhido a dedo por Trump, há a dúvida sobre se Powell será um verdadeiro falcão ou se adotará uma postura mais moderada. Em causa está, por exemplo, a atenção dada à inflação e à sua meta de médio prazo.

A Fed vê a previsibilidade como uma virtude.

Vincent Reinhart

Economista-chefe da Standish

“Contra um cenário recente e dececionante de dados débeis para a inflação, o racional de manter um objetivo demasiado rígido pode ser posto em causa”, considera Franck Dixmier, assinalando que “a meta da inflação pode ter efetivamente ofuscado a interpretação pelo mercado das intenções da Fed”.

Mas a atitude da Fed mudará realmente em 2018? Vincent Reinhart considera que a Fed vê a “previsibilidade como uma virtude”. O economista-chefe argumenta que nada é feito de forma brusca, dando tempo ao mercado para absorver as mudanças de forma gradual. É o que está a acontecer, segundo Franck Dixmier: “O antecipado ciclo de subidas tem vindo a ser incorporado no preço dos ativos (priced-in) ao longo das últimas semanas, em forte contraste com a anterior impermeabilidade do mercado à abordagem mais conservadora da Fed”.

Reinhart, que trabalhou durante décadas na Reserva Federal, aponta para uma manutenção: “Vemos a Fed a continuar o mesmo guião este ano, aumentando a taxa de juro quatro vez em 25 pontos base e continuando com o seu plano de cortar o seu balanço de forma gradual e transparente”. A primeira decisão prevê-se que seja já a 20 e 21 de março, altura em que os governadores voltam a reunir-se.

Os quatros aumentos, em vez dos três inicialmente planeados, podem vir a tornar-se realidade caso a economia avance mais do que o esperado. Os efeitos da reforma fiscal de Trump podem ser um dos motores desse crescimento económico que vai poupar milhões às empresas norte-americanas. Existe “mais otimismo na situação económica, tanto em termos de crescimento como de inflação, confirmada pela subida da perspetiva inflacionista nas últimas semanas”, refere Franck Dixmier.

Não é só ao nível das decisões de política monetária que Powell pode diferenciar-se. No seu leque de funções, a Fed também está focada na regulação e na supervisão financeira. A Casa Branca tem vindo a prometer um alívio nas medidas de regulação financeira que foram adotadas por Barack Obama e o novo presidente da Reserva Federal pode ser um dos vértices das mudanças que Steve Mnuchin, secretário do Tesouro, quer fazer.

Além disso, o conselho de governadores pode mudar radicalmente em 2018. Segundo a Forbes, Donald Trump poderá ter de nomear sete nomes para o conselho, alterando a composição deste órgão mais a seu gosto. Normalmente existem sete governadores com um mandato de 14 anos, mas as demissões de Daniel Tarullo e Stanley Fischer deixaram desfalcada uma equipa que já tinha duas vagas por preencher. Se nomear pessoas da sua confiança, a atitude “falcão” poderá dominar a Fed e as taxas de juro começarem a subir mais depressa.

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