Cerca de metade das PME portuguesas entraram num novo mercado em 2017

O segundo Observatório INSIGHT aponta para uma intensificação da atividade externa das PME. As perspetivas para o futuro também são positivas, com a restauração e a hotelaria a destacarem-se.

Em 2017, a atividade internacional das pequenas e médias empresas (PME) nacionais intensificou-se e trouxe mais resultados. A conclusão é do segundo Observatório INSIGHT, uma parceria entre a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) e a E-Monitor que tem como objetivo compreender a realidade da internacionalização das PME.

Das 761 empresas que quiseram incluir no Observatório INSIGHT a sua experiência de internacionalização, 46% entraram em pelo menos um novo mercado em 2017, sendo que 21% internacionalizaram-se em dois ou mais novas localizações. No topo das localizações estão os Estados Unidos, o destino de 9,2% das empresas, seguindo-se Espanha (7,0%) e o Reino Unido (6,6%).

É o caso da Trim NW, um produtor de não-tecidos industriais e componentes para a mobilidade, que apesar de focar a sua atividade internacional na Europa, começou no ano que passou a expandir os seus horizontes. “Começámos a olhar para o norte de África, nomeadamente para a Tunísia e Marrocos, e este ano esperamos já ter resultados”, conta ao ECO Rui Lopes, presidente executivo da empresa com sede em Santarém.

"Começámos a olhar para o norte de África, nomeadamente para a Tunísia e Marrocos, e este ano esperamos já ter resultados.”

Rui Lopes

Presidente executivo da Trim NW

O estudo mostra ainda que 65% das empresas já estão a pensar em iniciar atividade pelo menos um mercado externo durante este ano que se segue, sendo que 19% destas apontam para cima da margem mínima. Também nas perspetivas, os Estados Unidos são o país mais apetecível para entrar no próximo ano, mesmo com todas as medidas protecionistas que têm sido implementadas por esta nova administração e todas as outras que ainda estão na linha de montagem.

Exportar versus internacionalizar

Durante 2017, a exportação foi o modelo de internacionalização mais adotado pelas PME portuguesas, com cerca de 15% das empresas inquiridas a terem uma presença física nos mercados externos. São os setores da construção, dos serviços e dos transportes que mais pensam na internacionalização em termos físicos, apresentando uma percentagem maior de estabelecimento de sucursais ou filiais próprias, bem como unidades de fabrico próprio.

"Internacionalização para as PME é quase exclusivamente sinónimo de exportações.”

Observatório INSIGHT

“Internacionalização para as PME é quase exclusivamente sinónimo de exportações”, pode ler-se neste segundo relatório da CCIP e da E-Monitor. Um dos exemplos que ilustra esta afirmação é o grupo WeedsWest Global Solutions que, ainda que esteja presente em mercados como Espanha, Moçambique, Angola, Irlanda e Vietname, não conta com produção própria em nenhum desses mercados.

“Desde sempre nos viramos para os mercados internacionais em todas as áreas de atividade”, aponta Fernando Costa, Business Development Manager da holding que conta com setores como Oil&Gas, água e construção. “Só produzimos em Portugal, de resto, estamos presentes nesses mercados indiretamente através dos nossos clientes que utilizam a nossa tecnologia, como é o caso da Total e da Cepsa, por exemplo”.

A exportar ou a produzir lá fora, 74% das empresas que integraram este relatório assumem que a atividade internacional já está a gerar resultados positivos para os resultados da empresa, sendo que 57% declararam crescimento no decurso do exercício de 2017.

"Só produzimos em Portugal, de resto, estamos presentes nesses mercados indiretamente através dos nossos clientes que utilizam a nossa tecnologia, como é o caso da Total e da Cepsa, por exemplo.”

Fernando Pinto

Business Development Manager da WeedsWest Global Solutions

Estes dados estão em linha com os dados das exportações relativos a 2017, com a venda de bens para mercados externos a atingir o maior peso no PIB desde os últimos 17 anos. Em termos anuais, traduz-se num avanço de 10,1% face a 2016. Ainda assim, a balança comercial nacional continua deficitária, registando-se uma diferença de 13,8 mil milhões de euros entre importações e exportações.

Fonte: Instituto Nacional de Estatística

Mood das empresas é positivo

Este ano, a CCIP e a E-monitor introduziram no seu estudo um novo indicador do otimismo e confiança das PME nacionais. O chamado “índice Mood” pretende conjugar a visão que os inquiridos têm sobre a situação presente das suas empresas e as suas perspetivas de futuro. Assim, perguntou-se às empresas como evoluíram as expectativas do futuro da atividade internacional desde o último ano e como estão estas para os próximos dois a três anos.

A isto, 49% das empresas apresentaram-se com um mood — estado de espírito, em português — positivo, com as empresas do setor Horeca — hotéis, restaurantes e cafés — e as empresas presentes em mais mercados externos a serem as mais otimistas. Os setores mais dependentes da procura externa, como a construção, apresentam-se muito menos otimistas.

Nem as incertezas macroeconómicas abalam as perspetivas dos empresários nacionais. Numa escala em que um significa “ter pouco impacto” e cinco, “ter muito impacto”, os empresários classificam com um 2,3 as políticas protecionistas de Trump e a crise independentista da Catalunha e um 2,8% a mais recente proposta do Orçamento do Estado para 2018, que pressupunha o aumento da derrama. O que levanta mais preocupações entre os empresários e que poderá ter mais impacto é a reforma da União Europeia para terminar com a isenção de IVA nas exportações, algo que estes atribuem um 3,8.

Cada mercado é um mercado

Cada cliente é um cliente. É esta a máxima da MDS, grupo multinacional de origem portuguesa, que atua na área de corretagem de seguro e resseguro e de consultadora de risco. A empresa, que começou a sua internacionalização para acompanhar a expansão internacional do seu principal acionista e um dos principais clientes, a Sonae, é atualmente líder de mercado em Portugal, top quatro no Brasil e tem uma forte presença em Angola, Moçambique, Espanha, Reino Unido, Suíça e Malta. Fechou 2017 com um volume de faturação de 50 milhões de euros.

Mas a MDS não é só uma empresa internacional e que trabalha em todo o mundo. Mário Vinhas, Deputy Executive Diretor da MDS Insure, acrescenta que, para além da atividade no estrangeiro, o grupo “acompanha todas as empresas sejam elas exportadoras, como empresas fortemente internacionalizadas”. Mário Vinhas diz que muitas vezes as empresas, sobretudo as PME, descuram o conhecimento dos mercados para onde querem expandir, sendo que há dados importantes a ter em conta: o de saber como funciona a segurança social, o regime fiscal, os costumes culturais.

Também Fernando Costa que as empresas para se aventurarem para fora de Portugal devem ter em conta as especificidades de cada mercado. “Não há chapas cinco, os mercados são todos diferentes uns dos outros e são todos muito sui generis“, refere o gestor.

Então, qual é o caminho para a internacionalização?

Com a internacionalização a ser considerada pelas PME que compõem o estudo o principal caminho para o crescimento e 25% das empresas inquiridas a terem já na atividade internacional mais de 80% do seu volume de negócio — com o relatório a sublinhar uma “evidente correlação entre a antiguidade do processo de internacionalização e o número de mercados em que as empresas estão presentes” — qual é que são os passos necessários para ter sucesso lá fora?

Como afirma ao ECO Fernando Costa, não há um modelo já feito que funcione para todas, contudo há aspetos comuns à maioria das empresas. As missões empresariais e feiras são alguns dos mecanismos que os responsáveis da Trim utilizam para penetrar em novos mercados, sendo que 55% dos inquiridos do INSIGHT concordam muito ou totalmente com a ideia de que “participar em feiras é uma das estratégias mais consagradas de promoção comercial, prospeção de mercado e angariação de clientes nas suas empresas”.

De resto, ainda a semana passada a Trim integrou uma missão empresarial ao México. “Para já estamos a sondar o mercado, o México é ‘só’ o quarto maior produtor e exportador de carros do mundo, logo é apetecível para nós”, assegura o CEO da empresa que adianta “os mexicanos estão muito focados no mercado americano, mas devido ao Trump começam a olhar para a Europa com outros olhos. Digamos que o Trump nos está a dar uma mãozinha”.

Os empresários veem também a sua atividade internacional facilitada pelas ferramentas digitais, evidenciando a facilidade de identificar e comunicar com novos clientes através da internet, bem como de encontrar e consultar a informação necessária sobre os mercados. Assim, o email, as plataformas digitais como o Skype e até os sistemas de mensagens instantâneas são cada vez mais formas de fazer negócio com o estrangeiro.

Para trás ficam estratégias como a contratação de consultores externos para definição da estratégia de abordagem a mercados e a participação em programas de formação certificada.

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