Cotadas têm mais lucros, mas acionistas vão receber os mesmos dividendos

Cotadas viram o lucro subir, mas vão dar menos dinheiro aos acionistas. Dividendos deverão ficar nos 2,3 mil milhões de euros. Por cada euro lucrado, 65 cêntimos vai para o bolso dos investidores.

Os lucros até podem ter subido em 2017 à boleia da economia, mas as cotadas do PSI-20 nem por isso vão partilhar mais dinheiro pelos acionistas. Contas feitas, por cada euro lucrado no ano passado, 65 cêntimos vão parar ao bolso dos acionistas, uma remuneração inferior à do ano passado. O bolo total dos dividendos deverá manter-se nos 2,3 mil milhões de euros.

Está a chegar uma das épocas mais interessantes para os investidores: os dividendos. Mas se 2017 foi um bom ano para as cotadas portuguesas, que terão visto o lucro subir 10%, elas vão distribuir menos dos seus rendimentos pelo mercado: apenas 65% dos resultados vai servir para remunerar os acionistas (o chamado payout), segundo as estimativas dos analistas sondados pela agência financeira Reuters. Em 2017, o payout foi superior a 70%.

“A política de dividendos pode ser utilizada para transmitir sinais aos investidores, mas a sua evolução é geralmente lenta, traduzindo o facto de a principal preocupação ser evitar o anúncio de um corte no dividendo a pagar, tendo em conta o impacto negativo em termos de sentimento”, explica Albino Oliveira, gestor da Patris, ao ECO.

“A política de dividendos está usualmente relacionada com a evolução da situação financeira das empresas, as oportunidades de crescimento disponíveis e as expectativas para a evolução da atividade operacional nos próximos anos. (…) A manter-se um enquadramento económico favorável, a expectativa seria de subida no montante total de dividendos distribuídos pelas cotadas”, contextualiza.

Empresas só vão dar 60% do lucro que tiveram em 2017

 

Em Lisboa, as contas finais ainda estão longe de fechadas. Na verdade, a temporada de resultados no PSI-20 ainda vai a meio. Ainda assim, o cenário tem sido globalmente positivo até ao momento: das nove cotadas que já prestaram contas, seis superaram as estimativas dos analistas.

Esse foi o caso do BCP, que registou lucros de 186 milhões de euros, mas não vai dar dividendos — isso só deverá acontecer em 2019, já avisou o presidente Nuno Amado. Foi também o caso da Galp. O lucro da petrolífera portuguesa subiu para 602 milhões de euros e deu margem a Carlos Gomes da Silva para premiar os acionistas com um aumento do dividendo em 10%, dos 50 cêntimos para os 55 cêntimos. Vai assim entregar 75% do resultado, cerca de 456 milhões de euros a dividir pela Amorim Energia (da família Amorim, Sonangol e Isabel dos Santos), Estado português (Parpública) e demais acionistas.

Mais de metade do valor global dos dividendos vem de duas cotadas: a Galp e a EDP. Não é propriamente uma novidade que elétrica liderada por António Mexia dá dividendo mais interessante para os acionistas em termos absolutos. Mas este ano há dois fenómenos que reforçam este estatuto: a Naturgas e EDP Gas, cujas vendas permitiram um encaixe superior a 3.000 milhões de euros. Foi dinheiro extra que entrou nos cofres da EDP e que foi canalizado em parte para abater a dívida. Outra parte transitou para o lucro de 1.113 milhões anunciado esta quinta-feira e chegará às mãos dos acionistas sob a forma de dividendo de 19 cêntimos.

Quem paga mais dividendos em Lisboa?

Fonte: Reuters

Nem tudo são boas notícias. Que digam os CTT, que baixaram o dividendo dos 48 para os 38 cêntimos por causa da deterioração do negócio do tráfego postal. Francisco Lacerda já abriu a porta a mais cortes na remuneração acionista ao anunciar que o dividendo vai acompanhar a evolução dos resultados, e isto numa altura em que o plano de reestruturação anunciado em dezembro sob forte contestação pública e política. As contas do operador postal só serão apresentadas a 7 de março e as estimativas apontam para um lucro de apenas 46 milhões de euros… bem abaixo dos 56,7 milhões que vai dar aos acionistas em dividendos. Ou seja, o payout deverá situar-se nos 122%.

Olhando para o panorama da bolsa portuguesa encontramos mais situações em que os dividendos vão superar os lucros: na Nos, há expectativa de que a operadora venha a distribuir 129 milhões de euros pelos acionistas face ao lucro de 118 milhões; na Sonae Capital, apesar dos prejuízos, a empresa deverá manter o dividendo de 24,45 milhões. A Jerónimo Martins lucrou menos, mas avançou com uma remuneração extraordinária, entregando todo o lucro de 2017 aos investidores.

Mas atenção, alerta a equipa de research do BiG: “Caso a empresa pague de forma consistente (por vários anos) mais em dividendos do que gera em lucros, ou seja tem um payout superior a 100%, a sustentabilidade dos dividendos poderá ser um fator de preocupação, dado que a empresa terá que aceder a reservas de capital próprio, ou ao mercado de dívida, para obter o diferencial entre os dividendos distribuídos e os lucros gerados, uma ‘solução’ que é insustentável se aplicável repetidamente.”

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