Retaliar taxas do aço de Trump com Levi’s e whisky. Porquê?

  • Ana Batalha Oliveira
  • 10 Março 2018

Se Trump avançar com as tarifas sobre o aço, a Europa pode taxar alguns produtos mais peculiares: whisky, calças Levi's, até manteiga de amendoim. Porquê? Bruxelas e os especialistas explicam ao ECO.

O presidente Trump começou a “guerra comercial”: os EUA anunciaram tarifas sobre as importações de aço e alumínio, que pretendem aplicar nos próximos quinze dias. A Europa prepara uma “resposta proporcional” que estará “pronta a usar, se necessário”, reiteram o presidente e vice-presidente da Comissão Europeia. A lista definitiva de produtos que o Velho Continente pode vir a taxar será emitida em breve, mas já há vários pensados para a integrarem: das motas Harley-Davidson ao whisky, passando pela manteiga de amendoim.

“A lista não pode ser finalizada antes de sabermos exatamente como os EUA irão formular as medidas e qual será o respetivo impacto. Mas iremos focar-nos em produtos emblemáticos, de interesse comercial para os EUA“, afirmou fonte oficial de Bruxelas ao ECO. As medidas da União Europeia aparecem na sequência do anúncio do presidente norte-americano, que pretende taxar as importações de aço e alumínio em 25% e 10%, respetivamente.

A ação mais imediata, caso Trump avance com a decisão, será a implementação de taxas em produtos importados dos EUA. “Alguns tipos de bourbon, manteiga de amendoim, mirtilos, sumo de laranja, entre outros”, anunciou a Comissária europeia para o Comércio Internacional, Cecilia Malmström, em conferência de imprensa.

Antes, o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já tinha dado outros exemplos: motas Harley-Davidson e calças Levi’s. Fontes da Bloomberg acrescentam outros itens curiosos à lista: camisas, cosméticos e até barcos a motor. No total, a comunidade de países europeus planeia atingir importações no valor de 2,8 mil milhões de euros, informa a agência noticiosa.

Para a consultora EY, contactada pelo ECO, existem outras razões que justificam a escolha de produtos com os quais a Europa pretende retaliar. “São produtos produzidos em Estados republicanos com elevada importância eleitoral“, explica a consultora. “Por exemplo, o whisky Jack Daniels é destilado no Kentucky, Estado de Mitch McConnell, que lidera os republicanos no Senado”. Já o sumo de laranja é produzido na Florida, “um ‘swing state’ crítico nas eleições norte-americanas“, concluem estes especialistas. Já o fabricante de calças de ganga, Levi Strauss, tem sede em São Francisco, o distrito de um membro da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, nota a Bloomberg.

O economista César das Neves tem outra visão acerca das opções da UE, que atribui ao facto dos setores em causa terem “mais influência em Bruxelas que os outros setores”, pelo que “ganharam este protecionismo”. E lamenta: “quem perde sempre neste jogo são os consumidores, que ficam com produtos mais caros”. Renato Carreira, consultor na Deloitte, aponta mais duas vítimas: “o comércio livre internacional e, consequentemente, as indústrias afetadas”.

A bloco europeu está ciente dos riscos, e por isso mesmo a hipótese de diálogo ainda está de pé. “Continuaremos o nosso trabalho em medidas de reequilíbrio, esperando que não sejamos forçados a usá-las”, anunciou esta sexta-feira o vice-presidente da Comissão Europeia, Jyrki Katainen. “Precisamos de dialogar com os EUA“, reiterou, relembrando que os critérios ainda não foram discriminados pelo Governo americano.

China faz pontaria ao carvão

A ameaça de retaliação mais concreta veio da indústria metalúrgica chinesa, que esta sexta-feira apressou Pequim a atuar. Esta é a sugestão: atacar o setor do carvão e outros que sejam chave para o eleitorado de Trump. Os produtos eletrónicos também estão na lista de possíveis alvos. Pequim já havia prometido esta quinta-feira adotar uma “resposta adequada e necessária”. O ministro do Comércio veio mais recentemente assegurar que a nação iria avaliar os potenciais prejuízos e “defender firmemente os direitos e interesses legítimos”.

Diálogo? Falemos do NAFTA, diz Casa Branca

Todos querem escapar às tarifas, mas até agora os EUA só abriram esta porta ao Canadá e ao México… caso aceitem assinar um novo Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) que vá ao encontro da satisfação dos EUA, diz o conselheiro da Casa Branca para a área do comércio, Peter Navarro, citado pela Bloomberg. Se as negociações falharem, mantêm-se as políticas. Deixou ainda o recado aos restantes aliados: esta pode ser a via para evitar as tarifas lançadas pela Casa Branca.

No rescaldo da primeira intervenção de Trump sobre as tarifas, o Governo canadiano declarou-se “surpreendido” e considerou a aplicação destas tarifas “inaceitável”. A ministra dos Negócios Estrangeiros canadiana, Chrystia Freeland, relembrou: “Os EUA têm um excedente de dois mil milhões de dólares — 1,6 mil milhões de euros — no comércio do aço com o Canadá”. O sindicato norte-americano dos siderúrgicos, ativo tanto nos Estados Unidos como no Canadá, mostrou-se indignado uma vez que “o Canadá não é claramente um dos ‘maus atores’ implicados no comércio injusto e dumping de alumínio e aço para os EUA”.

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