Paddy Cosgrave retira convite a Le Pen para o Web Summit

A organização do Web Summit decidiu retirar o convite a Marine Le Pen, depois das pressões para que a líder da extrema-direita não estivesse presente no evento em Lisboa.

Um dia depois de Paddy Cosgrave ter dito que a presença de Marine Le Pen no Web Summit, como oradora, dependia do Governo português, e de este ter remetido a responsabilidade dos convites para a organização, o organizador anunciou esta quarta-feira que a política francesa não marcará presença no evento.

“É claro para mim, agora, que a decisão correta para o Web Summit é retirar o convite a Marine Le Pen”, disse o organizador, na sua página do Twitter.

Numa longa mensagem publicada esta terça-feira na sua página de Facebook, o irlandês que fundou a cimeira de empreendedorismo tecnológico começou por recordar o conflito na Irlanda e a forma como este como foi tratado. “Lembro-me de quando homens que mataram crianças e mulheres inocentes falaram na minha universidade. Uns tinham detonado bombas em Londres, outros tinham cometido os atos humanos mais hediondos na ilha da Irlanda. Alguns eram republicanos irlandeses, outros eram unionistas britânicos”, escreveu. “Eram os meados dos anos 2000. Na altura, ninguém se opôs. Ninguém se opôs, principalmente, porque o extremismo, a violência, o ódio e o horror que dividiram comunidades na Irlanda do Norte durante décadas, tirando milhares de vidas inocentes, tinha sido substituído por paz”, continuou.

Flickr / Rémi NoyonFlickr / Rémi Noyon

O irlandês recorda até que, anos antes, alguns conteúdos chegaram a ser banidos da televisão, por se considerar que não deveria ser dada uma “plataforma fácil àqueles que propagam o terrorismo”. Por outro lado, argumentou, “silenciar estas vozes cheias de ódio apenas serviu para aumentar o sentimento de marginalização das comunidades que os governantes prometeram representar”.

Na análise que faz dos dias de hoje, Paddy Cosgrave vê uma Europa onde “políticos extremistas”, que a seu ver são “detestáveis”, estão a ser eleitos. “Há uma necessidade palpável de debate e discussão sobre este fenómeno, as suas causas e o papel que a tecnologia está a desempenhar”, considerou.

O Web Summit é um fórum para o debate e discussão de muitos pontos de vista, e não uma plataforma política para um só ponto de vista”, salienta, chegando a comparar o convite dirigido a Marine Le Pen com a vinda de sindicalistas a edições anteriores do Web Summit. “Em 2017, por exemplo, alguns dos mais poderosos líderes esquerdistas de sindicatos, que representam centenas de milhões de trabalhadores em todo o mundo, falaram pela primeira vez. E não pela primeira vez, políticos socialistas europeus defrontaram-se com investidores liberais de direita americanos. Cada um considera a ideologia do outro perigosa”.

Assim, garantiu, a edição de 2018 do Web Summit “não será diferente”, até porque os oradores não são convidados para “fazer um discurso incontestado”, mas para “terem os seus pontos desafiados e escrutinados por jornalistas”. “Se os nossos anfitriões, o Governo português, nos pedirem para cancelar o convite a Marine Le Pen, respeitaremos esse pedido imediatamente”, afirmou Cosgrave, esta terça-feira.

Paddy Cosgrave, CEO e cofundador do Web Summit.Seb Daly/Web Summit 6 Novembro, 2017

A resposta do Executivo a Paddy Cosgrave foi conhecida no dia seguinte: “Estando, pelo seu impacto, empenhado no acolhimento deste evento privado, [o Governo português] não tem, como em outros eventos, intervenção na seleção de oradores“, sublinha uma nota do Ministério da Economia enviada às redações. Para o Executivo, o Web Summit é “um fórum alargado de discussão de tendências de mercado, cujo alinhamento – oradores e programa – é da exclusiva responsabilidade da organização”.

Bloco de Esquerda já tinha pressionado Governo

Desde que foi noticiado que Marine Le Pen é uma das convidadas do Web Summit, as críticas têm sido várias nas redes sociais. As vozes levantaram-se, sobretudo, à esquerda, como é o caso de João Galamba, Isabel Pires e Fabian Figueiredo, que não pouparam nas críticas.

Antes de a organização do Web Summit ter mostrado disponibilidade para cancelar o convite, o Bloco de esquerda (BE) já tinha pressionado o Governo e a Câmara de Lisboa para tomarem posição sobre esse cancelamento. “Neste momento, tem de haver uma tomada de posição e tem de ficar esclarecido qual é a posição do Governo e da Câmara de Lisboa sobre este convite“, disse a deputada Isabel Pires, em declarações aos jornalistas.

Não é aceitável que dinheiros públicos possam ser utilizados para, na verdade, ajudar Marine Le Pen a ter mais uma plataforma para passar mensagens de xenofobia e de racismo, como é a sua linha política. É um evento que tem um investimento público, há um contrato que foi feito em que estão investidos 3,9 milhões de euros durante estes três anos, divididos ao longo dos mesmos”, continuou.

BE saúda retirada de convite a Le Pen mas falta posição do Governo e CML

O Bloco de Esquerda saudou esta quarta-feira a decisão da Web Summit de retirar o convite à líder francesa de extrema-direita, Marine Le Pen, defendendo que seria importante uma posição do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa. “É a decisão mais acertada, também considerando as pressões que foram feitas e a própria pressão social que existiu relativamente ao convite que tinha sido feito à Marine Le Pen” para participar na Web Summit, disse à agência Lusa a deputada e dirigente do BE Isabel Pires.

No entanto, “apesar de saudarmos esta decisão, a única incógnita que se mantém é de facto [que] o Governo e a Câmara Municipal de Lisboa não tiveram uma única palavra sobre o assunto e isso lamentamos“, acrescentou. Para Isabel Pires, “seria importante haver uma tomada de posição considerando que existem dinheiros públicos nesta organização”.

A declaração do organizador retirando o convite a Marine Le Pen “denota que assumiram o erro e não tinham talvez noção da importância que teria este convite“, referiu ainda a deputada do Bloco de Esquerda.

(Notícia atualizada às 16h06 com mais informação)

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