FMI pede travão no crédito. Elevado endividamento está a pôr em risco a estabilidade financeira

Christine Lagarde está preocupada com o elevado endividamento. Teme o impacto negativo que pode ter na estabilidade financeira global, pelo que pede mais ação dos reguladores.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está preocupado com excesso de endividamento, tanto das empresas como das famílias. Teme o impacto negativo que tal pode ter na estabilidade financeira global. São receios que ganham ainda maior relevância num contexto de subida dos juros, alerta a entidade liderada por Christine Lagarde que pede políticas que permitam garantir a resiliência do setor financeiro.

A chamada de atenção surge no Relatório de Estabilidade Financeira Global divulgado pelo FMI nesta quarta-feira, onde o organismo internacional salienta que “os riscos de curto prazo à estabilidade financeira aumentaram de forma modesta, enquanto os riscos de médio prazo se mantêm elevados devido às persistentes vulnerabilidades financeiras associadas aos níveis de dívida altos e às avaliações esticadas dos ativos“.

Um dos riscos para o curto prazo apontados por aquele organismo prende-se com a “normalização das políticas monetárias mais rápida do que o antecipado“. Tal pode “conduzir a um aperto súbito das condições financeiras globais“, alerta.

Face a este cenário, a entidade liderada por Christine Lagarde diz que as “vulnerabilidades financeiras mantêm-se elevadas”, considerando o elevado endividamento como um “desafio-chave”.

“As políticas monetárias não convencionais implementadas desde a crise financeira global visaram aliviar as condições financeiras para suportar a recuperação económica. Perante um ambiente desses, a dívida total do setor não financeiro […] expandiu-se a um ritmo muito mais rápido do que a taxa de crescimento da economia”, explica o FMI, alertando que a “dívida mais alta tornou o setor não financeiro mais sensível a mudanças das taxas de juro“.

“Devedores com rácios de serviço da dívida esticados, provavelmente vão ter maior dificuldade em pagar as suas dívidas caso as taxas de juro subam ou os rendimentos caiam”, contextualiza o fundo com sede em Washington.

Este alerta surge num contexto marcado por sucessivos aumentos dos juros nos Estados Unidos e numa altura em que também se aproxima a altura de o Banco Central Europeu também começar a elevar as taxas de referência para a Zona Euro. Tudo aponta para que tal possam acontecer já no verão do próximo ano.

O FMI mostra um grau de preocupação com algumas economias desenvolvidas, sobretudo aquelas que estiveram mais expostas a subidas dos preços das casas — caso da Austrália, do Canadá e dos países nórdicos –, considerando que a alavancagem das famílias nesses países constitui uma “área chave de preocupação“.

Aceleração dos preços das casas

Portugal, não é um dos países referidos no relatório do FMI. Contudo, há cerca de um mês, o fundo tinha alertado para o elevado nível de endividamento das famílias portuguesas, alertando que num cenário de subida de juros estas estariam “vulneráveis” não só a “choques negativos de rendimentos” como a “picos de juros”.

Combinar políticas para travar riscos

Aos países com graus elevados de alavancagem do setor não financeiro, o FMI aconselha a combater esta realidade. Missão que considera deve ser feita através da combinação de políticas macroeconómicas e prudenciais. “As ferramentas macroprudenciais devem ser implantadas de forma proativa para corresponder aos riscos sistémicos, em conjugação com as políticas macroeconómicas”, diz o FMI. E acrescenta que “atendendo à subida dos níveis de endividamento, do aligeirar dos critérios de concessão e as avaliações esticadas do mercado imobiliário em vários países, é imperativo que os decisores políticos implementem ferramentas de políticas macroprudenciais de maneira oportuna e eficaz”.

"Atendendo à subida dos níveis de endividamento, do aligeirar dos critérios de concessão e as avaliações esticadas do mercado imobiliário em vários países, é imperativo que os decisores políticos implementem ferramentas de políticas macroprudenciais de maneira oportuna e eficaz.”

FMI

Neste âmbito, o FMI apela assim para que haja uma utilização mais ativa de ferramentas abrangentes, incluindo almofadas de capital contracíclicas por parte da banca. “Essas ferramentas podem ajudar a reduzir a exuberância e abrandar o crescimento do crédito no médio prazo e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência da banca em antecipação de um eventual aperto das condições financeiras”.

É também aconselhada a monitorização pelos reguladores do financiamento por parte dos bancos aos setores privados não financeiros “altamente endividados”. O FMI diz assim que a “recalibragem periódica de ferramentas que limitam o acesso das famílias ao crédito ou a exposição dos credores às famílias pode ser necessária para limitar efetivamente o acumular contínuo de endividamento pelas famílias.

"A recalibragem periódica de ferramentas que limitam o acesso das famílias ao crédito ou a exposição dos credores às famílias pode ser necessária para limitar efetivamente o acumular contínuo de endividamento pelas famílias.”

FMI

Em Portugal, já têm vindo a ser tomadas algumas medidas que visam travar a concessão de crédito às famílias que se encontra em máximos de 2010, com vista a evitar situações de sobreendividamento. Ainda no início do ano, o Banco de Portugal anunciou que iria criar um conjunto de três limites que deveriam ser respeitados pelos bancos na hora de dar crédito, revelando especial preocupação com o crédito à habitação.

A recomendação entrou em vigor no início de julho, mas em termos dos montantes dos empréstimos concedidos não é perceptível um eventual impacto. Ainda esta terça-feira, estatísticas divulgadas pelo Banco de Portugal mostram que em agosto o crédito às famílias voltou a acelerar para novos máximos de 2010. Também se têm sucedido as revisões em baixa dos spreads do crédito à habitação.

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