Famílias portuguesas estão vulneráveis a picos nos juros, alerta o FMI

O fundo liderado por Christine Lagarde diz que o elevado nível de endividamento torna as famílias mais frágeis num cenário de subida das taxas de juro. Na habitação, estão os maiores receios.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está preocupado com o elevado nível de endividamento das famílias portuguesas. A instituição liderada por Christine Lagarde diz que essa elevada alavancagem as torna “vulneráveis” não só a “choques negativos de rendimentos” como a “picos de juros”.

No relatório em que apresenta a conclusão da consulta de 2018, ao abrigo do Artigo IV, para Portugal, divulgado esta quinta-feira, o fundo olha especificamente para o mercado de crédito. O FMI salienta que “a elevada alavancagem torna as famílias portuguesas e empresas vulneráveis a choques negativos no rendimento e a picos nas taxas de juro”.

"A elevada alavancagem torna as famílias portuguesas e empresas vulneráveis a choques negativos no rendimento e a picos nas taxas de juro”.”

FMI

A instituição liderada por Christine Lagarde suporta a sua avaliação nos dados sobre a concessão de crédito. Lembra que no ano passado o saldo de crédito das famílias se tornou positivo pela primeira vez desde 2011. Ou seja, os montantes dos novos empréstimos concedidos mais do que compensaram os valores que venceram, movimento que foi conduzido pelo aumento do crédito ao consumo e à habitação. Refere também a baixa taxa de poupança das famílias portuguesas, lembrando que no ano passado esta se fixou em apenas 5,4% do rendimento disponível.

“Estes desenvolvimentos traduzem-se num abrandamento do processo de desalavancagem”, avisa o FMI que acrescenta ainda na fórmula o elevado nível de endividamento privado. No ano passado, as dívidas das famílias portuguesas representavam 73,4% do Produto Interno Bruto (PIB), o que compara com um rácio de 56,2% da média da Zona Euro.

Este alerta do FMI surge numa altura em que se aproxima a inversão do ciclo de juros historicamente baixos. Os atuais sinais apontam para uma subida das taxas de juro de referência da Zona Euro a partir do verão do próximo ano. O rumo das Euribor — os indexantes de grande parte dos empréstimos para a compra de casa em Portugal — acompanham o movimento dessas taxas.

É neste contexto que surge a preocupação do organismo internacional face a eventuais “picos de juros”, falando precisamente na “preponderância de empréstimos com taxas variáveis” em Portugal, mas também nas “longas maturidades dos empréstimos (33 anos em média), que se estendem pelos anos da reforma”.

FMI aplaude travão do BdP, mas pede mais

A longa maturidade dos empréstimos para a compra de casa já gerou, aliás, a preocupação do Banco de Portugal (BdP). A instituição liderada por Carlos Costa incluiu uma redução desses prazos no conjunto de três recomendações que fez aos bancos para serem aplicadas a partir do início de julho, com vista a prevenir o facilitismo na concessão de crédito.

Essas incidem sobre a limitação das maturidades dos empréstimos, dos rácios de financiamento e do serviço da dívida, medidas que são aplaudidas pelo FMI. “A equipa recebe com agrado a ativação desses instrumentos macroprudenciais nesta conjuntura em que os quando os padrões do crédito começavam a aliviar”, afirma o FMI, antecipando que a medida “irá conter esse alívio, reforçando a resiliência das instituições financeiras e das famílias às variações de preços imobiliários, taxas de juro e rendimentos“. Mas a instituição liderada por Christine Lagarde pede que as autoridades portuguesas monitorizem com proximidade a efetivação das medidas”, bem como as “complementem caso se justifique”.

Atenção aos preços das casas

Também será importante acompanhar a evolução dos preços no mercado imobiliário, diz o FMI. Após uma subida de cerca de 20% dos preços das casas em Portugal no espaço dos últimos quatro anos (7,9% em 2017), o fundo pede às autoridades que melhorem a qualidade dos dados e de ferramentas de análise do imobiliário para melhor se poderem medir os riscos neste setor.

O fundo pede ainda que se “monitorizem os mercados de financiamento e a evolução dos riscos para os bancos dos desenvolvimentos dos mercados imobiliários”. O FMI aplaude a redução do malparado por parte dos bancos nacionais, mas teme que um choque no imobiliário possa pôr em causa todos os esforços feitos no sentido de limpar os balanços para poderem dar o seu contributo no crescimento da economia nacional.

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