SNS precisa de mais 5.500 médicos, 30 mil enfermeiros e 140 farmacêuticos

  • Lusa
  • 27 Novembro 2018

"Os hospitais vivem das horas extra. Os hospitais fecham portas se os médicos deixarem de fazer horas extra", disse Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) precisa de mais 5.500 médicos, 30 mil enfermeiros e de 140 farmacêuticos para os hospitais, segundo um retrato apresentado esta terça-feira em Lisboa pelas ordens profissionais.

Da parte da Ordem dos Médicos, o bastonário estima que seriam necessários mais 5.500 médicos, a avaliar pelos 120 milhões de euros pagos a prestadores de serviços médicos no ano passado e tendo em conta que as horas extraordinárias representam 21% da remuneração dos médicos. “Os hospitais vivem das horas extra. Os hospitais fecham portas se os médicos deixarem de fazer horas extra”, sublinhou Miguel Guimarães, durante um debate sobre os recursos humanos no SNS promovido pela consultora multinacional IASIST.

Quanto ao crescimento de médicos no SNS que tem sido referido pelos dados oficiais, o bastonário frisa que são sobretudo médicos internos, ainda em formação.

No que respeita aos enfermeiros, a Ordem que os representa estima que estejam em falta 30 mil profissionais. A bastonária Ana Rita Cavaco recorda que o rácio de enfermeiros por mil habitantes está nos 4,2 quando a média dos países da OCDE é de 9,2. “Não temos nenhum hospital que cumpra a dotação segura relativamente ao número mínimo de enfermeiros. Há muitos hospitais com um enfermeiro sozinho por turno”, indicou a bastonária.

Também no caso dos enfermeiros, as horas extraordinárias assumem um peso significativo e, segundo as contas da Ordem, o “Estado deve mais de dois milhões de horas” a estes profissionais. Ana Rita Cavaco renovou o apelo para que os enfermeiros deixem de fazer horas extraordinárias.

Aquando da mais recente passagem, em julho, das 40 para as 35 horas de trabalho semanais foram contratados 1.100 enfermeiros, mas seriam necessários pelo menos mais 600 apenas para suprir as alterações das horas contratuais. “Esses 600 não entraram”, recorda Ana Rita Cavaco.

Quanto aos farmacêuticos, a Ordem diz que faltam nas farmácias hospitalares pelo menos 140 profissionais, a que acrescem naqueles serviços 140 técnicos de diagnóstico e terapêutica em falta e também entre 60 a 70 assistentes operacionais. Ana Paula Martins, bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, lembrou ainda a importância das carreiras para os profissionais de saúde, salientando que a dos farmacêuticos ainda não avançou na prática. “A falta de profissionais ou a sua falta de organização faz com que haja tensões desnecessárias e um clima de enorme conflitualidade”, salientou a bastonária.

Ordem dos enfermeiros avisa que SNS não tem capacidade para reprogramar “milhares de cirurgias” adiadas

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE) avisa que o SNS não terá capacidade para reprogramar nos próximos anos as “milhares de cirurgias” canceladas devido à greve dos enfermeiros em blocos operatórios.

“Estamos a falar de milhares de cirurgias adiadas nos blocos operatórios dos cinco hospitais aderentes à greve cirúrgica e nem uma palavra sobre o assunto [incluindo de partidos políticos]. Toda a gente percebe que o SNS não vai ter capacidade para reprogramar nos próximos anos essas cirurgias”, afirmou esta terça-feira Ana Rita Cavaco aos jornalistas. A greve começou na quinta-feira e dura até 31 de dezembro, com a OE a estimar que estejam a ser canceladas ou adiadas cerca de 500 cirurgias por dia.

A bastonária acusa o Ministério da Saúde de estar “completamente capturado pelo Ministério das Finanças” e considera que a proposta que o Governo apresentou aos sindicatos de enfermeiros não é uma proposta da saúde. “Esta proposta, na verdade, é da equipa das Finanças, que teima em não ter sensibilidade nenhuma para perceber que se a Ordem atribui um título de especialista, essa categoria tem de estar numa carreira. Não podemos continuar a ter enfermeiros sem carreira”, declarou.

Para a bastonária, a equipa do Ministério da Saúde “está completamente de mãos e pés atados”. “Não basta mudar de ministro. Se a obsessão pelo défice zero continuar na mesma, não há proposta que se consiga fazer e chegar a consensos. Hoje não temos Ministério da Saúde”, adiantou. Ana Rita Cavaco diz que a equipa anterior da Saúde, no tempo do ministro Adalberto Campos Fernandes, tinha uma proposta “que era boa para os enfermeiros”, mas que “não foi aceite pelas Finanças”.

Segundo a bastonária da OE, a proposta da equipa ministerial anterior contemplava a categoria de enfermeiro especialista e valorizava as competências acrescidas dos enfermeiros que lhes são reconhecidas pela Ordem.

O secretário de Estado Adjunto e da Saúde considerou que estas declarações “não correspondem a uma análise factual”, frisando que o Governo apresentou uma proposta que tentou ir ao encontro das aspirações sindicais, em termos de estrutura de carreira e de desenvolvimento profissional, reconhecendo a figura do enfermeiro especialista e as funções de gestão.

Os sindicatos já têm dito que reconhecer a figura do enfermeiro especialista não corresponde a integrá-la na carreira, como é a pretensão sindical. Quanto às cirurgias adiadas, o secretário de Estado Francisco Ramos disse que serão “naturalmente reprogramadas na primeira oportunidade, preferencialmente no SNS”.

O Governo mantém, segundo Francisco Ramos, a expectativa de que os sindicatos reconheçam a tentativa de chegar a um acordo e apela à responsabilidade dos enfermeiros. “Sabemos que os enfermeiros são uma profissão responsável e farão todos os possíveis para resolver a questão e minimizar as consequências para os portugueses”, declarou Francisco Ramos aos jornalistas, no final da atribuição dos prémios “TOP 5” da IASIST aos hospitais do SNS.

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