BCE já começou reinvestimentos. Portugal foi um dos sete países em que compra de dívida até aumentou

A mudança na política monetária da Zona Euro começou em janeiro, mas os desafios são cada vez maiores. Com a economia a desacelerar e os riscos a aumentar, o desfasamento face à Fed pressiona.

O Banco Central Europeu (BCE) registou um saldo negativo do programa de dívida pública em janeiro, ou seja, o montante dos títulos que atingiu a maturidade superou a quantidade de novas obrigações compradas. No entanto, a distribuição foi desigual entre os vários países: Portugal foi um dos sete países em que compra de dívida até aumentou. Em sentido contrário, Alemanha, Espanha e Holanda foram os países mais prejudicados.

A dívida pública na folha de balanço do BCE reduziu-se em 1,3 mil milhões de euros no primeiro mês com o novo modelo do programa. Após quase quatro anos de compra líquida de dívida, a instituição liderada por Mario Draghi começou, em janeiro, o reinvestimento de juros e títulos que atingem as maturidades. Pela primeira vez, o saldo foi negativo e o montante total da dívida adquirida nos estímulos do BCE (detida no final de janeiro) atingiu os 2,17 biliões de euros.

Não há montantes nem datas específicas para os reinvestimentos, mas Mario Draghi explicou em dezembro que há espaço para ajustamentos: não é obrigatório que o reinvestimento aconteça no mesmo país de origem dos ativos inicialmente comprados. Pelo contrário, poderá aproveitar para corrigir as proporções de dívida que detém, com base na chave de capital (que determina o peso de cada país no total do programa).

“Na prática, o que significa é que irá comprar em países como Portugal e um pouco na Irlanda e Chipre, em detrimento potencialmente de Itália ou Espanha porque detém mais Obrigações do que deveria desses países”, explicou Marchel Alexandrovich, economista financeiro da Jefferies, na altura, em declarações à Reuters.

A estratégia parece estar a ser esta. No caso da Alemanha, Espanha e Holanda, a diferença entre dívida que atingiu a maturidade e nova dívida comprada foi negativa em 1,6 milhões, três milhões e 2,8 milhões de euros, respetivamente.

No caso de Portugal, o BCE comprou 443 milhões de euros em janeiro. O montante compara com os 332 milhões adquiridos em dezembro e é o mais elevado desde setembro do ano passado. O grupo de países em que a aquisição de novas obrigações aumentou inclui, além de Portugal, a Finlândia, França, Itália, Lituânia, Malta e Eslováquia. Já para os restantes sete Estados (Áustria, Bélgica, Chipre, Irlanda, Luxemburgo, Letónia e Eslovénia), o BCE comprou dívida, mas em menor quantidade.

Em 14 dos 17 países onde há compra de dívida, o saldo foi positivo em janeiro

Fonte: Banco Central Europeu

Desafios para a estratégia de saída são cada vez maiores

A inversão na política monetária da Zona Euro já começou com as mudanças no programa. No entanto, o BCE mantêm a rede de segurança dos reinvestimentos e as taxas de juro de referência em mínimos históricos. E os desafios são cada vez maiores, como reconheceu Mario Draghi na reunião de janeiro do Conselho de Governadores do BCE, apontando para a desaceleração económica acima do esperado e para o aumento dos riscos.

Da mesma forma, o membro do Conselho do BCE Benoit Coeure (que é responsável por operações de mercado como o programa de compra de obrigações) reforçou, na semana passada, que a desaceleração económica na Zona Euro poderá ser mais longa e mais profunda do que inicialmente esperado, mas são necessários mais dados.

“Penso que ainda não temos elementos suficientes para concluir que estamos perante uma desaceleração da economia da Zona Euro série e duradoura. O que estamos a assistir agora é que a desaceleração poderá ser mais abrangente e mais longa que inicialmente projetado”, afirmou Benoit Coeure, em entrevista à revista Barron’s. Acrescentou que o BCE ainda tem instrumentos para combater o problema (numa altura em que o mercado antecipa uma nova ronda de empréstimos de longo prazo à banca, os TLTRO), mas que pode também criar novas soluções.

Além da própria economia, a estratégia do BCE também se complicou no mês passado com a mudança na posição da Reserva Federal norte-americana. O presidente do banco central dos EUA, Jerome Powell, afirmou que iria fazer uma pausa na subida dos juros de referência para medir o pulso ao mercado e que seria “paciente” quanto a novas alterações.

A decisão da Fed de se colocar atrás da curva e fazer uma pausa na normalização da sua política monetária complica claramente o BCE“, explicou Franck Dixmier, global head of fixed income da Allianz Global Investors, numa nota enviada esta segunda-feira. Lembrou que um aumento dos juros pelo BCE num momento em que a Fed reduza, iria causar um aumento do euro face ao dólar e a outras moedas e, consequentemente, um aperto ainda maior das condições monetárias e das exportações. “O BCE não pode ‘andar sozinho’ e permanece preso ao desfasamento no timing das estratégias dos bancos centrais em ambos os lados do Atlântico”, alertou.

“Confrontado com um horizonte obscurecido, o BCE teria preferido recriar espaço de manobra e dar um pouco de espaço para respirar aos bancos, que sofrem com taxas de depósitos negativas. A nova postura dovish (conciliadora) da Fed pôs fim a isso, deixando pouco espaço para o BCE lidar com uma futura recessão. Especialmente uma vez que o QE [quantitative easing], que permanece a única ferramenta do banco central com o TLTRO (targeted longer-term refinancing operations), não será necessariamente o instrumento preferido do próximo presidente do BCE”, acrescentou Dixmier.

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